The end is near

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Tenho todos os motivos para voltar a escrever no blogue e não tenho motivos para voltar a escrever no blogue. Vir cá só para limpar os comentários de spam e actualizar os plugins tornou-se um hábito, e eu sou um gajo de hábitos. Vou levando aqui a minha vida pacata e minimamente organizada num pequeno caos controlado, com alguns sobressaltos que vou guardando sob a forma de rascunhos. Já são alguns. Pode ser que cresçam,  ganhem asas e se tornem lindos posts borboleta.

Hoje de manhã, a sair do metro e quase a chegar ao pequeno caos laboral, ligo o telemóvel e apita-me esta mensagem, recebida ontem num horário em que me forço a não usar tecnologia que possibilite o contacto com outros humanos. E sabes que isto está realmente tudo virado ao contrário quando a religião onde te obrigaram a picar o ponto durante anos, já precisa de roubar/comprar bases de dados, e mandar mensagens escritas para alertar os mortais que, porventura olvidando a omnipresença do divino, andem por aí a chafurdar na imundície alertando-os para que se arrependam or else.  “…Senhor Jesus Cris­to, Filho Unigénito, Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho de Deus Pai: Vós que tirais o pecado do mundo…” , obrigai mas é os súbditos que aqui na Terra dizem espalhar a vossa palavra, a tirarem o meu número desta base de dados. Agradecido.

E isto fez-me pensar. Acreditem que fez. Não em chafurdanço ou em como a minha quota de arrependimento cristão anda nas ruas da amargura, mas em café. Estou mesmo a precisar de café. Até já.

Ps- Este post também tem como objectivo sair do fundo da lista de blogues a seguir de Dom Pipoco. É dos poucos que vou lendo e reparei que estava em último, não gosto de ser o último.

Cinquenta quedas avermelhadas

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Nos dias que correm, não é fácil deixar-me convencer a gastar uma preciosa hora do meu tempo nocturno a ver uma série que contenha a seguinte dinâmica: Policias/Maus/Crimes/Investigação. Definitivamente não. São tantas e tão más que levam por tabelas as que até poderiam ter algum potencial. Desde o gajo que adivinha quem mente, ao gajos que adivinham o futuro, passando pela miúda com três mamas, que é policia durante o dia e trabalha num bar kinky às terças e quintas à noite e deixa as crianças com uma ama que vai-se a ver e bebe sangue. A escolha no que a séries diz respeito é enorme, e quando menos esperamos, volta a nova temporada daquela série que seguimos religiosamente.

Sem qualquer vontade em dar uma chance a The Fall , acabei por aceder a ver o episódio piloto. Se tudo o resto falhasse, estava lá a Scully a segurar as pontas. Nunca se diz que não à Scully. Só posteriormente li que o mau da fita anda agora nas bocas do mundo a brincar às casinhas, com a adaptação ao cinema daquele romance de cordel para molhar cuequinhas alheias.

A dada altura, estamos sempre à espera que o Mulder apareça de repente a investigar qualquer coisa, enquanto se atormenta o tempo todo com o facto de lhe terem raptado a irmã. Quem percebeu as referências ao século passado percebeu, quem não percebeu adiante que também não perde o fio à meada. A Gillian Anderson é aquele cliché ambulante de mulher que melhora com a idade. Perco a paciência com a sensualidade que transparece naquela mulher, que nesta série é ainda mais latente agora que largou os enchumaços dos ombros. Pimba, mais uma referência aos nineties…

Quando se pensa que já nada pode encher assim o ecrã, eis que entra o Jamie Dornan. Não querendo spoilar muito a coisa, limito-me a escrever uma frase da minha autoria, que confesso não saber se já foi usada até à exaustão. Para Jamie Dornan, “The Fall” parece funcionar como uma espécie de warm up session para as sombras acinzentadas. É um actor do caraças e eu não o conhecia.

Como se este exercício de mixologia não fosse suficiente, adicionam à série uma excelente fotografia, uma trama que se adensa a cada minuto, tudo isto no ambiente de Belfast, na Irlanda do Norte. Rendo-me portanto às evidências: de longe a longe, ainda aparecem séries de Policias/Maus/Crimes/Investigação que nos conseguem surpreender.

Better late than never

À sua frente estavam as escadas que lhe iriam permitir sair da escura e húmida cave. Aos apalpões, o nosso herói decide-se por parar momentaneamente junto à parede viscosa que acabou de apalpar. Câ nojo!! Tenta adaptar a visão ao breu. Não é fácil. Sobretudo não dar passos em falso, isso podia deitar tudo a perder. E é tão fácil falhar um passo que se quer em frente. Acima de tudo nas caves onde o espaço é curto. O ar que lhe sai dos pulmões condensa-se em contacto com o frio, e um leve vapor assoma-se-lhe aos olhos. Isto é apenas possível porque o vislumbre de uma luz surge uns três metros à frente. Ténue, mas suficiente para lhe dar esperança.

Vou sair da cave. Já é mais do que tempo.

 

Gosto muito da música ali de cima. Da miúda também.

Two kidney stones walk into a bar

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O barman pergunta: “Bom dia! O que vão tomar?” Ao que as pedras respondem com um sorriso sarcástico: “Oh, nada! Estamos só de passagem”. E era tão bom que esta anedota, como na vida real, funcionasse da mesma forma. Mas não. No mês passado penei aqui um dia e meio para me tirarem um calhau que ficou preso no ureter. Doeu como o raio, mas como experiência social foi fixe. Tinha um velhote asmático e casmurro à minha esquerda, e em frente, um tipo que comia por uma palhinha porque se partiu todo numa queda de mota. Tirando a parte em que o motard remendado sorvia a sopa de nabos por uma palhinha, ninguém dava por ele. Alternava dormitar com olhares ininterruptos para a Sic Notícias. Visitavam-no constantemente as filhas e os namorados delas. Olhavam-me de lado. Mais os namorados. Com um pijama gasto, emprestado pelo hospital, e a minha barba de meses, devia parecer-lhes um sem abrigo a quem foram deixar à porta do hospital. Nem lhes passou pela cabeça que ninguém deixa malta sem abrigo às portas de hospitais privados. Já a filha do velhote asmático, ofuscava-me os olhos de cada vez que o veio visitar, tal era a camada de bling bling espalhada pelo pescoço lisinho, benesse de um mais do que provável lifting.

Já em casa, sofri um bocado, as dores de ter um stent são bastante random. Alguma malta usa-o como se de um acessório de moda se tratasse, outros sofrem um bocado, enfiando analségicos à bruta pelo bucho. Como não podia deixar de ser, o meu corpo é um coninhas e sofre. Isto era obviamente impeditivo de aproveitar o estar em casa para subir de divisão no FIFA15, ou de colocar trinta e quatro filmes em dia. Mas tudo se aguenta, e a fase má, pensava eu, já tinha passado. Jurei a mim próprio fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para não voltar a ficar nesta situação, vai daí, comecei a beber água decentemente. Mais de um litro e meio por dia. Instalei uma app que me avisa de hora a hora para beber. Acabou por funcionar um bocado como a psicologia experimental do pavlov. Aquela cena apita, eu levanto-me e vou beber água.

E viveram felizes para sempre.

Errado.

A lei das probabilidades é forte por estes lados, e, como tal, desce um segundo calhau pelo ureter oposto. E também não sai. São uns cinco milímetros bastante persistentes. O meu urologista pensava que estava a gozar com ele. Mais uma moedinha, mais uma voltinha, e estou de regresso à casa de partida. Já não me apanham na curva e levo um pijama decente. Só espero não levar outra vez com o motard da palhinha. E que alguém tenha mudado para a FOX. Sempre ajuda a passar mais o tempo.

No turning back now

waistcoat

O eu vetusto rejubila de satisfação. Andava desde sei lá quando a pedinchar um tweed decente. Ok, ok, não é um tweed irlandês do bom, daquele que se faz ali para os lados de Donegal, mas acaba por ser a escolha ideal na relação qualidade preço. E agora já está. Já vem a caminho. É comprar cedinho porque a partir do meio de Novembro a Amazon vai estar tão caótica que nem os drones os vão salvar do atraso nas entregas.

Permitam-me que sucintamente me explique. E descansem os incautos leitores que aqui passam pela primeira vez. Este não é, de todo, um blogue de moda masculina. Nem sei bem o que este blogue é mas isso agora não interessa. De tempos a tempos apetece-me escrever sobre a minha costela metrosexual. Ela anda por aqui misturada com as outras vinte e três e até leva uma vida simples e feliz. Ultimamente anda a tentar sair um bocado mais da sua zona de conforto e uma coisa acaba por levar a outra.

Desengane-se quem aqui tenta nas entrelinhas encontrar um hipster ressabiado. Não o vai encontrar. A costela metaleira, que vive paredes meias com a metrosexual, nunca permitiria tal coisa. Acontece que cada vez me revejo menos nos meus pares, no que a indumentárias diz respeito. Cruzo-me com eles na rua, nos transportes, nos cafés, à porta de casa, e não gosto nada do que vejo. A linha de montagem de onde saem é uma bela merda. Eu também já fui um gnu, parei foi para pensar.

Lembro-me de na primeira comunhão levar um colete azul escuro. Nunca tinha vestido nada assim e gostei logo do raio do colete. Sentia-me mais crescido. É certo que Mamã Troll também me obrigou a levar calçadas um par de meias brancas com rendinhas bastante apaneleiradas, mas o tempo encarregou-se de filtrar da memória a porcaria das meias. Mas o colete ficou. Andava desde 2012 a procurar um colete assim. Clássicos para fato existem ao pontapé e não gosto. Corri todas as lojas vintage por onde passei à procura do colete perfeito. Ontem a navegar e a colocar cenas random no cesto de compras da Amazon, encontrei-o.

Isto também pode ser analisado através do binómio Televisão/Séries. Mas negarei até à cova que Peaky Blinders tenha alguma coisa a ver com isso.

Calling Woods

Devia ter aí uns cinco ou seis anos, quando pela primeira vez papá troll decidiu ser a altura certa de me apresentar aos seres das florestas que envolviam a aldeia. Estava habituado a vê-lo sair com o meu irmão, embrenhando-se no matagal de machado ás costas, em busca da árvore de Natal perfeita. À trinta anos atrás, o advento do go green ainda estava longe de ter no nosso quotidiano a importância que tem hoje. Eu já via as fábulas da floresta verde, por isso delirei pela oportunidade de ver ao vivo a Mara e o Joca, e, com alguma sorte, o guaxinim Gugu. Com esta idade nem sabia que nas florestas em redor se se encontrasse um esquilinho pequenino, já era uma sorte do caraças.

Os anos foram passando, e o apelo da floresta cresceu com eles. Começaram por me delegar o apanhar das pinhas para a lareira. Desenvolvi com mestria essa arte quase perdida, e a dada altura, chegava triunfante a casa com dois sacos de serapilheira cheios, qual neandertal  caçador-recolector. Quando a idade começou a pesar nas pernas do patriarca, fiquei incumbido de manter viva a tradição. Passava parte da manhã a alisar o machado, enquanto o frio condensava em vapor o calor da minha respiração. Munido do machado e de um balde para o musgo, que já sabia por esta altura que crescia mais fofo do lado Norte das árvores, desaparecia então pelos pinhais, atravessava ribeiros, afastava-me da humanidade, e começava a caça. Ok, era uma árvore mas tinha montes de piada na mesma. Pelo menos para mim. O restolhar constante da urze pisada, o cheiro das folhas de eucalipto esmagadas nas mãos e que inalava com vigor. Uma comunhão fixe, com a casa mais próxima já a distância considerável.

Quando cortar árvores passou a ser visto como muito pouco cool, já estava a morar em Lisboa. A minha árvore passou a ser mais uma de plástico, igual a tantas outras. Em casa dos troll, o machado ganhou ferrugem pela falta de uso, e a floresta foi ficando cada vez mais pequena, à medida que as urbanizações foram aumentando. Mas o apelo ainda é bate forte. Por isso é que perdido e achado, faço planos de trekkings que incluam florestas e matagais vários. Por isso é que estou sempre a babar com filmes e séries que se passem no frio Vermont, no Nevada, e também no estado do Oregon. Neve, florestas, trilhos. Comunhão. É uma chatice que em Hollywood esta combinação normalmente culmine em sangue e serial killers a rodos.

Os Agalloch ali em cima vêem as coisas como eu. E são de Portland, no Oregon. A inveja, meus amigos, a inveja. Às vezes também usam camisas aos quadrados vermelhos e vão para a floresta arranjar lenha para manterem as suas lareiras quentinhas. Só não são barbudos. Uma falha menor, portanto.

Penumbra

olho

 

São vinte e três e cinquenta e sete. Estou a limpar os óculos com um daqueles paninhos microfibras que dizem fazer maravilhas pelas lentes com dedadas. É uma mentira de todo o tamanho. Por mais que limpe, acaba sempre por ficar com alguma impureza. Levanto-me para concluir o serviço com um bocadinho de papel higiénico. Não é nenhum segredo de família para limpeza de óculos, por isso partilho.  Na verdade também serve com papel de rolo de cozinha, mas a casa de banho fica mais próxima. Por outro lado dizem-me que o papel dos rolos riscam as lentes. Ainda que não me tenha apercebido, é um facto que aprecio bastante mais a maciez de um papel fofinho, no que ao limpar do rabo diz respeito, do que propriamente a rugosidade do papel de cozinha. Eu sei, eu sei. No fim deste parágrafo, já estarão a pensar na real necessidade da frase que antecede o ponto final ali à direita. Não sei. Estava a falar em lentes e papel, daí a rabos…Quem nunca teve o azar de ir à despensa e se ver privado de papel higiénico, e olhou matreiramente para o papel de cozinha, que atire a primeira pedra.

Mas isto não era nada do que queria dizer.

A meio deste processo, ouço barulho, vozes e risos, no corredor do andar. Aproximo o olho direito, menos míope que o esquerdo, do olho mágico, e tento, em vão, espreitar o mais recente parvalhão que anda pelo andar. É a nova aquisição da vizinha da frente. Talvez a terceira ou quarta este ano. A magana parece andar sempre bastante atarefada e o dia não lhe deve render, por isso deve ser de noite que dá vazão ao que não consegue fazer durante o dia.

Quando chego tarde a casa, ou neste caso assim que coloco o pé fora do elevador, tenho por hábito evitar fazer barulhos desnecessários. Aplico a máxima do não querer que me façam a mim. Odeio que esta malta nova tenha perdido alguns dos pequenos valores sociais que fazem de nós, seres melhores. A merda da luz de presença não acende, por isso apesar de saber exactamente quem ali está, não os consigo ver. Algum copo a mais, uma pastilha a mais, e já se acham sozinhos e senhores do seu pequeno mundo. Procura as chaves, não encontra as chaves, ri, procura outra vez, ri ainda mais alto. O canito do lado de dentro da porta apercebe-se da presença da dona e ajuda à festa com os latidos do costume.  Dou por mim a acender a minha luz de presença e a exclamar um -Pouco barulho, caralho!!-  Sinto-me neste momento ainda mais surpreendido do que eles. Raramente falo antes de pensar. Calam-se, entreolham-se, e ela pede um atabalhoado -desculpe vizinho- virada para a minha porta, enquanto ele exclama um -LOL?– entredentes. Quando a incultura social e a falta de educação, dão as mãos e me batem à porta, tendo a reagir mal. Às vezes até me surpreendo a mim mesmo.

 

Beard New World

beard

Sabes que estás a entrar num mundo completamente novo, quando dás por ti a encomendar este tipo de artigos na Amazon UK. Isto quando ontem já tinhas encomendado este. Imagina que o Metrosexual e o Caveman em ti, se encontram para um café, e decidem testar os limites capilares do teu rosto. Esta demanda começou em Junho. Já estava habituado a cuidar bem das minhas pilosidades, foram quase treze anos de cabelos a roçarem-se lascivamente pelo rabo. Isto nunca teria acontecido sem alguns cuidados como sérum e condicionador sempre em separado. Sempre fui apologista de que se era para ter cabelo comprido, que estivesse sempre flawless. Seis anos depois de o ter cortado, o resultado desse trabalho ainda pode ser visto na forma de uma trança perfeita, imaculadamente guardada lá em casa. Ainda brilha.

Assim que assumi o aspecto lumberjack, isto porque nunca me consegui rever nos meus semelhantes e nas suas barbas de três dias, decidi que se era para manter, teria igualmente de estar flawless. Sou um gajo de pequenos projectos. Sou também um gajo acusado de deixar a maior parte desses projectos na gaveta. Este está a correr bem e recomenda-se. Lá para Dezembro, se ainda tiver blogue,  sou gajo para mostrar aqui o aspecto da coisa. Se por acaso se cruzarem por aí comigo, por favor não me atirem moedas. É mesmo por opção.

#ModoMetrosexualOff