Da minha janela consigo ver

Que o mundo acorda sempre da mesma forma, esteja eu ou não lá para ver. Que ninguém muda, independentemente de achares que sim. E que as mudanças, a acontecerem, acabam sempre por ser tuas. Fel, fel, vil fel. Não liguem. Já passa. Vi o Midnight In Paris na noite passada, mas ainda não decidi se adorei ou detestei. A ideia de poder trocar ideias com o Hemingway e a Gertrude Stein entre dois copos, desarma qualquer um, mas não sei se gosto do caminho para onde o Woody caminha. Os caminhos dele têm demasiados atalhos.

Já os “The National” ficam sempre bem em qualquer altura. Em casa dos amigos também. Ainda este fim-de-semana, sentado que estava a beber uma mini fresquinha, por entre umas sebes de bambu já a ganhar os primeiros rebentos, e uma àrvore cujo nome me disseram e não fixei, num pequeno jardim relvado, ali para os lados de Palmela, com vista para o Castelo. E a ouvi-los. E já não os ouvia il y a longtemps. E eles merecem.

Gossip

A C. foi ao ginecologista para uma consulta. A M. e a A. arranjaram logo mexerico para o resto da semana porque a C. é solteira e não lhe conhecem namorado. Como se fosse condição sine qua non, falar no trabalho sobre os teúdos e manteúdos. (Desde a Tieta do Agreste que sonho um dia poder colocar estes adjectivos num texto). Acham que engravidou. Eu não a vi almariada e está mesmo à minha frente. As mamas delas continuam ratíquicas como sempre. Não tendo nada contra mamas pequenas, (aliás, sempre fui apologista de que maiores que as minhas mãos é desperdício), haviam de ver as dela. Como nunca me lembro de outras análises físicas para aferir do estado prenhe de uma gaja, fico na dúvida. Não almoço com ela, por isso não sei se começou a comer coisas estranhas e a pedinchar iogurte de banana com peixe frito em redução de vinho tinto. Nem sei como é que alguém a quereria engravidar, ainda que por deslize. Trust me.

Temos coleguinhas novas no departamento. Bem haja, empresa, pelo maná de lol’s que a presença delas trás aqui ao espaço. De uma já tinha falado aqui. Juntas são imbatíveis no que a motivos de gozo diz respeito. Ainda a semana passada falavam sobre depilação à brasileira e onde se consegue fazer bem, e barato. (A esta altura confesso que fiquei com medo, quis-me parecer que a C. estava a tirar notas). Uma diz que dói, a outra que não tanto como a de um preto. Eu sei, eu sei, é demasiada informação que claramente deveria ser sido verbalizada com menos decibéis. E nunca chegarei a saber se fazia a chalaça fácil do tamanho ou se falava a sério.

Não sei até que ponto parecerá decente da minha parte, fingir um aparente transtorno por estar a ouvir estas conversas, quando na realidade me dão um gozo tremendo, e em havendo vontade da vossa parte, postarei pois, sempre que tal se justifique, as aventuras aka mexericos que por aqui agora abundam. Caguei. Este blog é meu e vosso, mas no fim sou eu o director editorial. E se me criticarem, posto sobre gays em elevadores. Mas juro que só como última cartada.

Ataegina

“Aidano voltou a aconchegar as peles. A madrugada trouxera consigo o frio. A manhã tardava em chegar mas o sono, esse, ia já longe. Demasiados problemas. A gravidez inesperada de Arantae. O colmo do telhado que era preciso trocar antes de chegarem as chuvas. A tosquia das ovelhas que emagreciam a olhos vistos. Aqueles romanos filhos da puta queimaram os campos.Destruíram a colheita para o próximo Inverno. Mas sobretudo preocupava-o, a proposta que Viriato lhe havia feito no dia anterior. Aquele Viriato conseguia convencer Ares a lutar ao seu lado. Agradava-lhe a simplicidade e a certeza com que ele falava. Teriam de estar bem preparados para dar aos cães Romanos, a resposta que mereciam.

Arantae mexeu-se. As suas costas estavam delineadas a sombra. Virou-se e sorriu. Aidano devolveu-lhe o sorriso e tocou-lhe da face. -Aidano, andaste outra vez a lavar os dentes com xixi?? Raios te partam homem, já te disse que assim não levas nada daqui!! Nem com a conversa do “Ah e tal foi a Ataegina que apareceu ali numa oliveira e me disse para vir ter contigo”, me levas outra vez!!”

Então a modos que é assim. Os dois parágrafos de cima são de minha autoria, e espelham bem o fraco escritor que daria. Rima e é verdade. Decidi brincar com aquilo que o João Aguiar fazia com mestria. Foi uma espécie de hommage e peço-vos desde já desculpa por isso. Deu-me para voltar a reler o magnifico A Voz dos Deuses. Porque aborda uma temática que adoro, e foca uma história e cultura lusas que os Romanos quase conseguiram aniquilar, e porque os bons livros se podem reler as vezes que se quiser. Romances históricos são o meu calcanhar de Aquiles. Quando bons, não lhes consigo resistir.

No fundo sou um gajo de leituras simples. E os livros dele já me acompanham desde de que, em tempos idos, me deu a pancada de pesquisar sobre o Endovélico. Fica a sugestão para quem ainda não conheça. O que me parece difícil. Aconselho também, do mesmo autor e com uma temática semelhante, “A Hora de sertório”, e “Uma Deusa na Bruma”.

Les bêtises de mes voisins

Já aqui falei dos meus vizinhos. Os meus vizinhos e suas peripécias não davam um livro. Não exageremos. Se assim fosse ainda chegava a número um da Leya. Diz que agora é fácil. Não havia, até ontem, um motivo assim forte, que me levasse a querer escrever novamente sobre eles. Sim, é certo que a vizinha do 3º continua a fumar na janela do quarto, e que toda aquela cinza me entra pela janela. Mas a culpa é minha. Quem me manda a mim ter a mania de deixar a janela aberta a arejar durante o dia, e que ela, aparentemente desempregada e a viver de rendimento mínimo, passe o dia a fumar armada em Rapunzel. Mas ando a desconfiar de uma certa mais velha profissão do mundo. Deve ter um negócio em casa. Nem precisou de Simplex nem nada. Pelo menos para já, os clientes não se estão a enganar no andar quando tocam à campainha.

Também é verdade que depois da conversa do início do ano, a Miss Piggy agora faz um esforço hercúleo para me sorrir, nas raras vezes que nos cruzamos no elevador. O esgar dela é notoriamente falso, e podia muito bem ser confundido com alguém a ter um AVC. Mantenho o meu melhor sorriso amarelado e sigo o meu caminho. Com sorte, um dia destes é realmente um AVC.

Mas este fim-de-semana o impossível aconteceu. Não, não foi a Mariana Monteiro que se mudou para o prédio em frente, e passou os primeiros dias a espreguiçar-se em frente à janela. Comprei um LCD novo, após meses e meses de namoro, benchmarkings, jantares, flores, anel no dedo e promessas de amor eterno, e levei-o para casa. Era tempo de fazer as devidas despedidas ao antigo. Mas rapidamente porque já estava prometido a papá Troll, que é, por regra, receptor da tecnologia ultrapassada lá de casa. Plasma antigo colocado a custo no elevador com auxílio de um minúsculo banco de plástico, daqueles mesmo ranhosos do Jumbo. Pousado que foi esse banco à entrada dos elevadores, fomos colocar o plasma no carro. Despedidas feitas, voltei para casa e surpresa, das surpresas: tinham-me surripiado o banco!

Ainda pensei que estivesse a ter os primeiros sinais de um Alzheimer precoce e entrei em casa com a confiança de quem vai encontrar o que procura. Mas não. Não encontrei. Fui gamado. Algures na vizinhança, alguém acha que fez um negócio do caraças a gamar um banco de plástico de cinco euros do Jumbo. Esse alguém deve achar-se o Clyde lá da rua, e chegou ao pé da gordalhufa da Bonnie a vangloriar-se, como quem tinha acabado de roubar à mão armada, um saco cheio de notas de quinhentos euros. Caro vizinho energúmeno, espero com toda a sinceridade, que te encontres com Salazar lá no céu da malta que cai das cadeiras e dos bancos. Mesmo os do Jumbo.

On Strike

Por motivo de greve, em protesto pelo contínuo desprezar dessa espécie, curiosa, a modos que gira e fofa, em vias de extinção, e que dá pelo nome de Manatim, este blog encontra-se temporariamente encerrado. Prevê-se a reabertura do espaço, assim que o autor disponha de tempo. Algo que nos próximos dias se prevê complicado. Para que o leitor não dê o seu tempo por perdido, aconselhamos que mova o cursor ali para o canto superior direito, e clique no keep calm. São quatro minutos de boa disposição, cortesia de uma banda que o autor conhece à relativamente pouco tempo, mas que tocam maravilhosamente bem.

Gratos pela compreensão,

A Gerência.

Amanhã, em La Lys

Durante muito tempo usei umas palas enormes. Era um asinino de raça autóctone das Terras de Miranda e não sabia. Achava que tinha estofo e arcaboiço para ser um fuzileiro. Perdi centenas de horas de infância a preparar os meus combates com os tropas de plástico, e dos quais saía sempre vitorioso, qual Patton no cerco de Bastogne. Deixei que Mamã Troll e Papá Troll me perdessem no Museu da Marinha, da primeira vez que vim a Lisboa, só para poder apreciar condignamente as reconstituições de batalhas navais. Encontrava no ideal de militar, um conforto e segurança, que me assegurariam um futuro. Filho de militar de carreira, achava que ir para a tropa é que me faria homem. Afinal bastaram as minhas vizinhas. De baioneta sempre em riste, desbravei trincheiras de diferentes formas e feitios, e vitorioso, voltei à Pátria amada. Eram poucos, os metros que separavam os milheirais e as casas delas da minha, e não havia snipers a atrapalhar.

A importância de uma carreira militar na minha vida, teria actualmente uma importância semelhante à da trincheira da Paula. Sei que lá estive, mas as imagens desvaneceram-se por completo. Acho que na altura gostei. Não lhe queria retirar importância (à vida militar), mas a verdade é que muito provavelmente hoje estaria morto. Só eu sei (e o Tolan), como fico quando me sinto encurralado por um T90 no Caspian Border, no Battlefield 3. Teria desatado num frenesim de mortandade tal, que ao inimigo, não sobraria alternativa que não, a de me abater sem dó nem piedade.

Tive vizinhos que partilhavam comigo esse gosto, quer pelas trincheiras das vizinhas,(não ao mesmo tempo), quer pelos militares, e alguns deles acabaram por fazer carreira militar. Dois Rangers (daqueles que andaram na Bósnia, e no Afeganistão a ganharem uma pipa de massa), dois fuzileiros, um mecânico na Força Aérea, e um gajo que abriu a pestana e foi para a Faculdade. Este último sou eu. E esteve quase, quase para ser entrada directa via pupilos do Exército. Mamã Troll não deixou, e nunca lhe poderei ser suficientemente grato.

A tropa não era para mim. Veja-se La Lys. Sim,sim, eu sei que os tempos são outros e a tecnologia é mais que muita. Mas o nosso desgoverno continua por cá, provavelmente agora ainda mais. Nem o soldado Milhões me poderia valer nas trincheiras. Prefiro-me assim, cobarde mas vivo, jovem Padawan do Dual Shock, em guerras entre LED’s em HD.

 

The Lost Art Of Keeping A Secret

Seneca terá dito um dia que “‘O único segredo que as mulheres sabem guardar é aquele que ignoram.” Não concordo com esta afirmação porque generaliza em demasia. Conheço gajos que são autênticos túmulos, ao não revelarem como é que conseguem tantas kills no mapa do Grand Bazaar do Battlefield 3, jurando a pés juntos que não jogam com rato, e depois vêm a correr contar o que andou fulano a dizer sobre sicrano. São esses gajos que me vêm dizer entre dentes, quem é que anda a comer quem no escritório. Eu, que nos dias que correm ando distraído entre pivot tables e blogues, perdi o fio à meada, e já nem me apercebi que o C. levou a F. para a Pensão Horizonte na hora de almoço. Nada de estranho portanto. Quando vim para cá, cheguei a pensar que a praxe seria levar a F. para a Pensão Horizonte. Não era. E ainda bem. A F., para além de extremamente promíscua e liberal, não faz o meu género.

Mas foram mais que algumas, as vezes em que lhes pedi a elas que não contassem algo. E contavam sempre. Não que fossem segredos por aí além, que não eram. Mas eram segredos meus, e como tal, se quisesse que toda a gente soubesse, não lhos teria dito em voz baixa, cochichando cuidadosamente ao ouvido. Como daquela vez em que contei à Patrícia, sob a ameaça das unhas dela nas minhas costas, que o que o Tino realmente queria, era andar com ela e não com a sonsa da Inês. Era uma mentira piedosa, porque o Tino, até já à cueca da Inês tinha saltado algumas vezes entre aulas. O resultado deste segredo perdurou pelo tempo. A Patrícia fez figuras tristes a declarar-se ao Tino, e nunca mais me perdoou.

Já a Estela, se a comi (ou fui comido) , à Sara o devo. Também lhe achava alguma piada, mas a Estela deu-me um ar da sua graça com mais rapidez. Eu nem sabia da existência da Estela. Andava entretido com o feno de outras paragens e quando A Sara me veio segredar que a Estela gostava de mim, ataquei. Passei a andar de viola em riste no pavilhão onde ela tinha aulas e começamos a falar. Deu em namorico. Dos q.b. O êxtase de tal demanda, veio, (literalmente) na visita de estudo à Serra da Estrela. Daria um post por si só. A arte de guardar um segredo não existe. Em algum ponto, em alguma altura, todos prevaricamos.

Let’s look at the trailer

Este fim-de-semana houve tempo para dois filmes. Coisa rara. Não cedi à fácil tentação dos blockbusters, e não me arrependi.

Joseph Gordon-Levitt num registo ligeiramente diferente. Sublime. Gostei bastante. A banda sonora é de Metallica e Motorhead. A Padmé Amidala também anda por lá a dar um ar da sua graça, e fica sempre bem.

Não é tão mau como dizem. O Johnny anda constantemente bêbado e a tentar ficar sóbrio, a dar uma de escritor em Porto Rico, no início dos anos sessenta. Cenário caótico, muito álcool, uma femme fatale, e a melhor cena cómica de que me lembro em muito tempo.

E foi isto. Ainda deu tempo para um delicioso borrego no forno, em casa de uns amigos. Bem haja. E pelo Lóios 2004 Tinto também. Divinal. É tão bom ter alguém amigo que percebe minimamente de vinhos (seguramente mais do que eu, triste exemplar de énologo wannabe), e te convida para sua casa. Foi pena não termos aberto a terceira. Foi pelo melhor.

Chameleon

Às vezes canso-me de o ser. Sinto-me barro. Deixei-me moldar e não gosto particularmente do resultado final. Ninguém gosta. Nos outros dias vivo bem com esta pele. Mas tenho sempre de estar constantemente a mudar de cor para sobreviver, ou para agradar.

Que maravilhoso mundo novo este, o da nossa sociedade, não é? Agrada-me ver os poucos que se vão mantendo fiéis. Uns ainda por cá andam. Outros já se foram para outro qualquer lado. Não sei se para campos verdejantes, com pequenos riachos que levam as folhas ao sabor da corrente, e onde ao longe se vislumbram verdes colinas, se simplesmente para debaixo dos sete palmos de terra da praxe.

Amanhã vão-se passar dois anos sobre a morte do Petrus T. Ratajczyk. Não é um nome que faça soar campainhas à maior parte. Provavelmente se disser Peter Steele, o mesmo acontecerá. Mas para aqueles a quem a sua música influenciou e tanto deu, o vocalista e mentor dos Type O Negative, será uma perda irreparável. Terá sido graças à música desta banda, que parte da minha alma terá ficado irremediavelmente “negra”. Para mim foi quase como parte da letra da Bloody Kisses, “It’s like a death, a death in the family”. Mas como em tantos bons que já se foram, fica o maravilhoso legado musical.

 

Choro a falta que me fazes

Dizias sempre o mesmo. O discurso manteve-se praticamente inalterado durante anos. E eu, parvo e cego, ouvia-te sempre. Foram tantas vezes que te virei costas, convicto que assim poderia escapar às certezas que julgavas ter. As conversas acabavam sempre com o meu mau humor a imperar, e tu, bastante menos frágil do que aparentavas ser, sujeitavas-te sempre a tudo. Parece-me agora impossível que seis anos se tenham passado, e que os nossos últimos diálogos pareçam os mesmos do início. E como era bom ao princípio. Era a novidade. Estivemos juntos mais tempo do que a maior parte das minhas relações. Obrigado por isso. Partilhamos tantas e tantas noites mal dormidas. Sim, acabam sempre por ser essas as de que nos lembramos. Nunca nos vêm à memória as coisas boas. Se aquelas quatro paredes falassem, teriam certamente histórias interessantes para contar. Outras ficarão para sempre esquecidas. Talvez um dia.

Da primeira vez que te vi, confesso que não te prestei grande atenção. Foi num desses locais de passeio domingueiro, o IKEA de Alfragide. Era um Sábado de Outono se bem me lembro. Chuvoso. Toda a gente parava quando passava por ti. Como os compreendo bem. Era impossível ficar indiferente na tua presença. E ainda assim é. Mas algo em ti mudou. O teu monólogo passou a ser intermitente. Começaram a chegar os dias em que o silêncio te substituiu. E foi apenas nessa altura que me permiti convencer que tudo tinha havia terminado.

Adeus, despertador com gravação de voz do Ikea. Aparentemente já não és fabricado. Procurei-te no catálogo online, e não te encontrei, iludido que estava de que te poderia substituir. Poderia tê-lo feito com mais afinco, para aqui deixar o merecido link para a posteridade. O tempo escasseia, despertador. É sempre assim com os bons. Os que se vão demasiado cedo. Deitam o molde fora. Ficas a saber que depois de ti, não haverá substituto à altura. Foi bom, despertador, acredita quando te digo que foi bom. E obrigado.