En Garde!


Era muito mais simples resolver diferendos no século quinze. Não havia cá merdas de engolir sapos. Uma afronta, por mínima que fosse, um desacordo de ideias ou um suposto beliscar de honra, poderiam sempre ser resolvidas em duelo. Uma luva atirada para a cara do oponente, uma desculpa esfarrapada como ter olhado para o decote da donzela amada, havendo uma, ou uma simples observação jocosa e mal interpretada acerca da fealdade da peruca, e ao nascer do Sol no dia seguinte, já os contendores esgrimiam a sua perícia sob o olhar atento de duas testemunhas.

Hoje em dia não. Hoje em dia diz que a sociedade evoluiu e essas coisas já não são aceites. Mas a vontade que me dá em pegar numa rapieira e enfiá-la na goela de alguns tipos, faz-me pensar que naquele tempo é que era. Mas não era. No minuto seguinte já o pragmático em mim pensa no quão horrível seria estar a esgrimir a minha rapieira com um gajo que não toma banho há mais de um ano. Os eflúvios corporais a merda, mijo e suor a toldarem-me a mente e a fazerem-me lacrimejar. O duelo estaria perdido. Os olhos marejados permitiam uma estocada rápida no flanco. Seria uma derrota estúpida e mal cheirosa.

Imagino depois que por um feliz acaso, a ferida mortal, não era tão mortal assim, e o médico de plantão, (sim porque os meus duelos seriam à nobre com médico a assistir), profundo conhecedor das feridas do corpo humano, levava um dedo à boca imunda e fétida, colocava-o no ar, e decidia que o passo seguinte seriam umas sanguessugas, e um generoso sangramento seguido de repouso absoluto. Sem direito a banho, que é lá isso. Uma semana depois já o pus virulento caminhava a passos largos com a septicemia, garante de uma morte certa.

O século XVI não é para mim. Mas é nisto que dá sonhar acordado depois de sair de uma reunião de “equipa”. A vontade em resolver contendas à old fashioned way. Merda das regras sociais.

Men In Trees

E. e a A. são dos amigos mais antigos que tenho em Lisboa, desde que aqui cheguei em 2004. Conheci-os a ambos solteiros, vi a relação deles crescer com a bênção dos amigos comuns que os apresentaram, e ao fim de dez anos, continuam felizes e firmes na vontade de serem diferentes. É uma relação que ainda não deu o fruto que a sociedade deles espera, mas já têm um cão. Ambos ligados às artes, têm uma noção de estética como poucos. Ela parece uma pin up/lolita. Ele um eterno gótico adaptado ao mundo do trabalho e das conferências. Foram eles que me levaram ao meu primeiro espectáculo de cabaret no Maxime com as Cais do Sodré Cabaret. O que nos rimos nesse dia com as observações acerca das estrelinhas que tapavam os mamilos das miúdas. E de como deveriam ter colado melhor algumas das estrelinhas que ao fim da segunda coreografia já andavam pelo chão. Gosto mesmo muito deles. Poucos mas bons como se costuma dizer. Os mamilos também.

Isto tudo para dizer que gosto muito deles. Se por acaso passarem por cá a ler isto, vocês estão aqui, ouviram? (digo isto apontando para o coração). E espero que o parágrafo de cima sirva para alguma coisa. Sabes que estás a fazer alguma coisa mal, quando vais visitar estes mesmos amigos que já não vês desde Dezembro, e ao fim de dez segundos um te diz: “Troll, pareces mesmo um figurante do Men In Trees”, enquanto o outro diz: “Nada disso, pareces o Luke das Gilmore Girls. Foda-seSe em relação à série Men In Trees se estivessem a referir ao Cash ou ao Jack, eu tolerava. Fingia uma envergonhada timidez e dizia que não, nada que se parecesse. Mas o Luke aka ar de lenhador? É que nem os óculos de massa me salvaram. Fingi uma repentina vontade de mijar e fui-me galar ao espelho. E eles têm razão. Nem sequer a camisa aos quadrados faltava. Eu pareço mais do que nunca um lenhador, mas sem a parte dos braços musculados, que me ando a baldar ao exercício à séria desde 2010.

Não que esteja a pensar fazer alguma coisa para contrariar este look, dá sempre jeito nas filas do supermercado para ninguém se meter à tua frente, mas não deveriam os amigos mentir sobre o aspecto dos amigos? Ou a verdade é sempre preferível no matter what?

Doppelgänger

Hoje levantei-me cedo, como de costume. Vesti uns calções justos da Nike, e uma T-Shirt Puma da mesma cor. A playlist do IPod tem o Born To Die pronto a tocar, porque apesar de todas as críticas, aquilo ouve-se demasiado bem, mesmo que às vezes pareça que a Lana pediu à Kate Bush para fazer uma perninha na Blue Jeans. Caguei para o botox. Aperto rapidamente os cordões aos Lunarglide e desço para a rua. Às seis da manhã partilho a rua fria com os homens do lixo. Antes disso cumprimento com um levantar do queixo, as empregadas de limpeza que esperam pacientemente o autocarro que as levará para as limpezas matinais dos escritórios de Lisboa. São todas pretinhas e simpáticas e riem-se bastante enquanto lançam uns impropérios que nunca saberei traduzir.

A meia hora de corrida intensa tonifica-me a alma e o corpo. Suado e novamente em casa, e depois de duzentos abdominais, um banho rápido prepara-me para mais um dia de trabalho no escritório. De permeio já consegui ver as cotações que me interessavam, e que o proletariado insiste em greves de tanga que não os levam a lado nenhum. Pobres coitados. O meu Ermenegildo Zegna preferido já veio de limpar a seco, o Q5 ainda tem gasóleo, e se passar a ponte antes das 08:00 não apanho trânsito. O hábito de tentar ser o primeiro a chegar já vem desde os tempos do Técnico. Os outros, pobres de espírito, gozavam com a minha perseverança. Hoje atiro os CV’s deles para o lixo depois de lhes reconhecer os nomes. Que comam bolos.

Não lhe atendo o telefone. Duzentos euros no Gambrinus para impressionar, e atira-me com uma dor de cabeça já com a conta paga. “Compenso-te amanhã”, diz-me. “As Vieiras com caviar de Arenque não me caíram bem”. O sangue já começava a encher o marsápio com a promessa de festa e ficámos ambos desapontados. Mais o marsápio. Não te maces mais com isso. “There’s plenty of fish in the sea”. Pensei mas não disse. Não que seja cavalheiro, mas ainda não perdi a esperança de lhe saltar à cueca. Tento mais uma vez e  depois desisto.

Já eu, acordei, estiquei-me todo como um gato, cocei os tomates, mais por hábito que por real necessidade, arrastei-me para a casa de banho e pensava em mais um dia de merda que iria provavelmente ter, enquanto o primeiro xixi da manhã corria diligentemente pela sanita abaixo percorrendo o mesmo caminho de todos os dias. Como eu.

Massajador facial portátil

Londres, século dezanove. Um jovem médico desempregado aceitar trabalhar com um médico que acredita curar a “histeria” feminina manualmente. As peripécias são mais que muitas. É difícil dizer algo mais sem spoilar a coisa. Mete uma descoberta eléctrica pelo meio. Toda a Internet o diz, por isso não é spoiler. Gostei bastante mais quando descobri que é baseado em factos reais. É light, está bem realizado, e dá para passar uma hora e meia descontraído.

The Debt

“Dame” Helen Mirren num excelente registo. O gajo do Avatar, e a gaja loura das mamas grandes do “The Help”. Uma dívida de trinta anos por pagar, um segredo que ameaça ser revelado. Um bom filme de um realizador que nos habituou a registos mais lamechas como “A Paixão de Shakespeare” ou “O Capitão Corelli”.

Os fins de semana servem para isto. E para coçar os tomates. Servem também para ir beber café à praia, rodeado de trintonas e quarentonas que aguardam pacientemente a chegada dos bravos maridos/namorados surfistas. Levantam os olhos constantemente dos livros que andam a ler para me galarem. Sei disso porque também estava a olhar para elas. A capa branca impede que consiga ler o autor, mas como presumo sempre que os sorrisos nunca são para mim, acredito piamente que seria um Nicholas Sparks. A temperatura da água parece-me sempre melhor que no Verão, mas não arrisquei mais do que pés molhados.

You were the last high

Não foste. És. E todos os dias ando agarrado mas não desespero. E em nós creio. Consumo-te e consomes-me. My own personal Casal Ventoso mas sem os gajos com aspecto hediondo e as putas com ar de que um camião TIR lhes passou por cima. És branca da boa, daquela colombiana que só a malta de bem consome.

Um dia quis ser Dandy. True story but way too long. Não googlei porque o google ainda não era muito conhecido mas fui ao altavista procurar a palavra dandy e descobri os Dandy Warhols. E gostei. Desta faixa em particular. Descobri depois que os dandies são considerados os hipsters originais. Aí já não gostei tanto.

Fashionista sofre

Por isso, da próxima vez que acharem que as lita são umas cabras sem sentimentos que não vos merece, que magoa mas tem de ser porque é fashion, ponham os olhinhos aqui na senhora. E sempre que me dizem -Ah e tal aquilo até é confortável, rio-me. Quando confrontada precisamente com essa pergunta, Mei Ling terá respondido: “表示反问”.*

*Tradução: –“Litas? Pffff…Essa merda é para meninas!!”

Mala Matiana

Começou por ser uma simples maçã, deixada como que por magia na mesa dele. A tez cabo-verdiana dele eliminava-o como possível vitima da bruxa má, e assim, tal como a Branca de Neve mas sem as rendinhas e os folhinhos à volta do pescoço, comia aquela maçã verde como se nada fosse. Não era venenosa, era até bastante saborosa, estava lavada, e caía bem às dez da manhã, why not?

Depois passou a ser um croissant com fiambre e queijo, deixado na secretária com um smile desenhado num post it amarelo. Era um clichê saboroso que lhe confortava o estômago. E continuava a não fazer a mais pálida ideia acerca de quem lhe deixava diariamente tais oferendas. Devia estar a sentir-se um Deus. Faltava uma virgem como oferenda mas a cavalo dado não se olha o dente.

Depois alguém a viu a deixar um croissant. E contou-lhe. Era a C. do outro departamento. Engraçou com ele, e ainda que nunca tivessem trocado mais de dois monossílabos, achou-se no direito de lhe oferecer coisas, e não lho disse. Devia ser tímida. Com trinta e oito anos ainda se é tímido? Presumo que sim, ainda que ache que a partir dos trinta todo o tempo é pouco, e nada deve ficar por dizer.

Ao fim de algumas semanas ele estava farto de saber que era a C. a deixar-lhe os regalos matinais na sua secretária. E fez o quê para resolver a situação? Nada. Absolutamente nada. A não ser comer-lhe o croissant com fiambre e queijo, intercalado pontualmente com a maçã verde. O resto da equipa achava que ele a andava a usar, mas sem a parte do secso. Ele ria-se e dizia que ainda ganhava coragem para resolver a ausência do secso. Nos círculos mais próximos da empresa, granjeou fama de fodilhão, ainda que jurando a pés juntos que é mais fama que proveito. Ela, desconhecendo todo o bruá que os seus avanços culinários estavam a causar, mantinha-se na ilusão da conquista de um homem pelo estômago que lera em algum lado.

Veio então o dia em que confrontada com a dura realidade, dele a cortejar uma outra qualquer ao pé da máquina do café, chorou. Nunca saberei se a pensar num futuro rodeado de crianças mestiças a gritar em crioulo “Mamã queremos maçãs”, que não se ia realizar, se a pensar no investimento a fundo perdido que foi a ida diária à mercearia e ao café da esquina. A secretária dele nunca mais teve comida pela manhã.

Um segredo bem guardado

Não é a mesma coisa que estar a jantar uma pizza gorgonzola e funghi no Trastevere, depois de atravessado o Tibre, cortesia da velha ponte Sisto. Passada a Via del Pettinari, mira-se o sujo rio que já terá visto de tudo, e num instante estamos na Piazza Trilussa. Escolhido o restaurante no meio de uma oferta sem fim, ao fim de vinte minutos já um  tinto desconhecido que foi escorregando com demasiada facilidade, entorpeceu a análise pragmática da coisa, sendo que até hoje, e por esse mesmo motivo, apregoo aos quatros ventos, ter sido essa a melhor pizza da minha vida.

Mas, refundida na zona de congelados de um qualquer Jumbo mais próximo, é agora possível encontrar uma pizza, que não tendo rigorosamente nada a ver com a do parágrafo anterior, mi piacce molto. Para a maior parte isto será um segredo tão bem guardado como a conclusão do curso superior do Sócrates, mas para mim, que poucas vezes dou por mim naquela secção do hipermercado, foi uma bela surpresa. Tão boa, que resolvi postar sobre isso. Que me desculpem os bloggers que avidamente se deleitam com blogs culinários pipis, mas aqui o tempo também é escasso e, por vezes, também se colocam comidas no forno durante vinte minutos, enquanto se toma um banho, e se liga a aparelhagem para ouvir o “Believe In Nothing” dos Nevermore.

Banho muito pouco retemperador rapidamente tomado, fico-me pela segunda faixa que dá nome ao álbum. Dedico novamente atenção à pizza Kebab. Está no ponto. E é sublime. A contraste dos pimentos, da cebolinha, e da carne tenra, mistura-se e sorrio. Se fechar os olhos e deixar que o palato me guie, estou novamente aqui, sem a parte da massa da pizza. De olhos abertos estou novamente nos subúrbios, mas o palato, esse, ainda lá está. Allahu Akbar e obrigado Auchan.

 

Ready,set,Go!

Need I to say more? Está bem eu digo. Maio é o Mês da Masturbação nos Estados Unidos. Por isso deixem de lado as vergonhas e vão lá à vossa vidinha. É fácil participar nesta acção e diz que até os bichinhos gostam. Certifiquem-se que ninguém vos vai incomodar e mais minuto menos minuto, resolvem a coisa. Não vale pedir ao parceiro. Pode ser a seguir, mas agora é só para vocês. Se estiverem a demorar mais tempo, tanto melhor. Sim, eu sei que para alguns todos os meses são meses para masturbação, mas até hoje ninguém se tinha lembrado de comemorar este evento, que é tão ou mais legitimo que alguns que por aí se comemoram. Masturbadores do mundo, vocês não estão sozinhos.

Diz que começou no Twitter, mas como não tenho uma coisa dessas, não fazia a menor ideia. Por isso dêem uma mãozinha (ou duas), a vocês mesmo, e comemorem. Para as duas freiras que costumam vir cá espreitar o blog, não se acanhem, nós não contamos a ninguém.

Ready, Set, Go!!

Burbujas de amor

Quem nunca dançou agarradinho ao som desta balada, nas festas da escola, que atire a primeira pedra. Ultrapassada a vergonha, ultrapassado o calor e a humidade juntos, no bar da escola transformado em discoteca, ultrapassadas as paredes a escorrerem os humores corporais, a malta alinhava. Era kitsch? Era. Seria corny? Certamente. Mas era o início da década de noventa. As miúdas estavam a largar as amarras das permanentes. Começavam as franjas esquisitas (outra vez na moda curiosamente), mas o que de interessante elas tinham nesta altura, não eram os cortes de cabelo. Eram as feromonas que ditavam as leis, e a malta, sedenta de novas experiências, e de uns nada inocentes apalpanços, sujeitava-se a tudo. Mesmo a dançar Juan Luis Guerra.

Eu dancei ao som de “Borbujas de amor”. Esta música é um dos meus reflexos condicionados privados. Sempre que calha em ouvir esta música, estou novamente a dançar agarrado à Susana, à Estela, e a outras que o tempo me fez esquecer. Numa tarde, esta música devia passar umas cinco vezes. E a malta aproveitava. Mas eu não era, (e não sou), pé de chumbo. Fazia bem a minha parte. E dançava com elas. Mas não estava à procura de louros ou de palmas. Só queria uma oportunidade para estar ali, coladinho às mamas suadas delas. Obrigado, Juan Luis Guerra.