Mellow

Porque também tenho direito, porra. Não sou um poço de wit todos os dias. Não que precise de o ser, mas porque me habituei a vir aqui postar qualquer coisa. Esteve para ser um post com a palavra palha repetida 623 vezes, mas teria um impacto inicial que rapidamente me faria subir a taxa de rejeição, e ia apenas provocar uns trejeitos faciais e uns esgares de simpatia que durariam vinte e dois segundos nas caras dos/das vinte resistentes que por cá passam. Para mim são os suficientes. E porque já fui um metaleiro docinho, daqueles bem comportadinhos e simpáticos que nunca se metiam com ninguém, e a quem apetecia fazer festinhas, como se de um cãozinho bem tratado mas abandonado, se tratasse. Algumas vezes levaram-me para casa e deram-me leitinho. E, verdade seja dita, também porque às vezes ainda arrasto a asa de metaleiro docinho. Revejo vídeos como este e relembro o meu trajecto de vida, e presumo sempre que o camaleão em mim um dia vai completar os 360º graus e voltar ao ponto de partida. Mas depois chego a casa, pego na guitarra…e tenho de ir ao youtube para sacar acordes que ainda pensava saber.

O camaleão voltou a ganhar. Fui cortar o cabelo. Está novamente curto, estou fodido e tinha que desabafar. E esta é a faixa que eu queria tocar e o meu baterista insistia em tocar num mid tempo parvo e sem sentido.

 

 

Craigslist

Estavas ontem em Cacilhas à espera do 133 para o Laranjeiro, via Barrocas. Estava bastante vento e uma caixa de cartão da Sonasol voava livre até te acertar na perna esquerda. Exclamaste o foda-se mais sexy que alguma vez ouvi alguém, que presumo ser do Laranjeiro, exclamar. Eu era o gajo introvertido e com ar sebento quase no fim da fila que sorriu para dentro e olhou para o chão. Quando passei por ti, sorvi o teu aroma de corpo de mulher ao fim de um dia de trabalho e com um suor ligeiramente adocicado, e fiz tudo para me sentar ao pé de ti. A velha fez de conta que não me tinha visto e não arrumou o saco com as laranjas. Sentei-me dois bancos atrás e passei aqueles 14 minutos a olhar para o teu cabelo com ar lavado e a imaginar que colocava no sítio aquela alça do Soutien que teimava em cair-te do ombro. E a ouvir Skrillex. Skrillex desperta o animal sexual que há em mim e ainda ninguém conhece e domesticou. Queres ser tu a conhecer? Tenho tanto para dar. Espero que possas ler isto e te lembres de mim. Olhei-te de soslaio quando saí e cheirei-te uma última vez, estive para sair na tua paragem e seguir-te até casa, mas não tive coragem e tinha uma batalha de WOW marcada para as dezanove horas.

Skrillex lover – 33, área de LX

 

Post mais Geek não há

Quando, e se um dia me casar, quero um bolo destes. Sem espinhas. “Valha-nos São Giger!!, também quero isso para mim” dirão alguns, “Oh que coisa mais kitsch” dirá a maioria. Que se lixem os últimos. Um bolo destes convencia-me. Isso e sapateira da boa, com fartura. Sapateira nunca é demais. O truque é substituir cinquenta por cento da totalidade da cerveja que se está a pensar misturar, por whisky decente e de malte. É a minha dica, e é de graça.

Nem a última investida de Hollywood nesta temática, diminui o apreço que tenho pelo Universo Alien. Os Yautjas também têm reservado um cantinho especial no meu coração. Nem o filme está tão mau como o querem pintar, nem o Ridley Scott disse que iria dar todas as respostas. Por mim, já me dei por satisfeito por me explicarem quem era aquele Space Jokey do Alien original.

Mas falava de casamentos. Nem por isso. Falava de bolos. Deste bolo. Este bolo levava-me ao altar. Mas ai daquele que lhe tocasse. 

Daqui.

Hamelin

Eles não sabem o que acabaram de fazer. Como poderiam? Eles não sabem que o serial killer em potência que habita em cada um de nós, já esteve mais perto de se manifestar em mim. Não na dinâmica Jeffrey Dhamer que cada vez menos tolero carne vermelha. Assim mais numa vertente Charles Mansoniana da coisa. Levar a cometer algo. Com estilo, premeditação q.b. e se possível sem sujar as mãos.

Alguém decidiu, obviamente sem me consultar, e apenas porque podem, fazer-me Guia de Evacuação de Piso, no Plano de Segurança do Edifício onde trabalho. As potencialidades meu Deus, as potencialidades. Quatro segundos depois já me imaginava, qual flautista de Hamelin a conduzir pessoas, vergadas ao domínio da minha flauta e hipnotizadas pelo som mavioso de “La flûte enchantée” de Ravel. (Não coloquei aqui nenhuma piadola com conotações fálicas, porque me referia ao instrumento musical). Em abono da verdade e do conto folclórico que os Irmãos Grimm reescreveram, adulterei a história. Aqui ia levar os adultos e deixava ficar as crianças. Casa Pia não mora aqui.

Tenho a perfeita noção de que seria uma canseira danada, levar toda aquela gente a afogar-se no Rio Tejo, sempre a tocar aquela melodia na flauta, e evitar que o subconsciente das mulheres levasse a melhor e elas parassem em todas as lojas com saldos até cinquenta por cento, ou de impedir que o subconsciente treinador de bancada de cada homem, parasse em cada montra de loja de electrodomésticos para ver o resultado do jogo. Mas o Pã e o Krishna seriam considerados amadores quando comparados com a minha destreza musical, e a minha perseverança de serial killer levaria a melhor. O Dexter ficaria orgulhoso. O meu dark passenger também anda por aí.

 

 

Road Trip OST

Para não variar, terei provavelmente sido a última pessoa à face da Terra a descobrir esta banda. Já se terá falado e escrito sobre estes tipos até à exaustão. Mas eu sou assim. Nunca lá chego a correr. Demoro o meu tempo. Sempre o último na maratona e com várias paragens para respirar. My turn now. Já tinha ouvido falar no nome. Sem querer abri este video. Já nem falo na realização que está para lá de boa. Mas é do melhor som road trip que ouvi ultimamente. Dá-me mesmo vontade de voltar a ligar o PC antigo só para gravar um best of personalizado. Depois escrevia com marcador a álcool “Winter OST”. E ia viajar. No Inverno se possível. Isto é música para viajar no Inverno com bastante frio e com uma camisola de gola alta, mas sem ser daquelas com os alces vermelhos à Natal americano com muito eggnog à mistura ou daquelas com os losangos que as tias nos dão e temos de usar quando elas nos vêm visitar. Fuck!! Esta música deve ter alguma mensagem subliminar. Não com as tias. Com viajar.

Estou para as boas novidades musicais como, como…nem encontro uma analogia decente para colocar aqui e fazer uma tirada cheia de wit. Até ia colocar o video com mais destaque mas o wordpress atingiu um patamar de rigor tal que videos gordos não cabem aqui. Só cinturinha vespa e coiso e tal. O WordPress anda com manias. Se alguém me souber dizer como é que se muda o tamanho de um video em HTML também estão à vontade. Podem vê-lo melhor aqui.

Profilaxia

Quando era pequenino não comia cereais. Nem fazia a miníma ideia que os Kelogg’s já andavam nas bocas do mundo quando eu ainda me passeava do direito para o esquerdo. Os cereais no meu pequeno almoço apareceram na mesma altura em que o Poborsky fez aquele chapéu ao Vitor Baía no Europeu de 1996. Mais ou menos por aí. Lembro-me de estar parado, colher na mão e boca aberta, a ver a repetição no dia seguinte. Até aí, mamã Troll não me deixava comer Nestum porque já não era nenhum bebé, e que tivesse juízo, e eram o pão com manteiga e o café com leite, que faziam as delícias de toda a gente lá em casa. Menos as minhas.

Não era tão mau como as sopas de cavalo cansado de alguns dos meus vizinhos. Quando andava na terceira classe, não sabia na altura porquê, mas lacrimejava sempre nas conversas de recreio com o Pedro. Sei agora, décadas mais tarde, que tal se devia ao seu hálito a vinho. Só podia. Tínhamos oito anos e já o fígado do Pedro era um adulto que tinha aberto a pestana para o álcool. Ele era folgazão e fazia rir, e onde todos achávamos que estava uma genuína alma que nos sorria, ninguém imaginava estar um pequeno alcoólatra em potência.

Do que eu gostava mesmo, era de ir dormir a casa da minha Avó Belmira. Para benefício futuro do meu fígado, a vovó Belmira não achava grande piada ás sopas de cavalo cansado e criticava quem o fazia. Abençoada. Como qualquer boa padeira que se preze, aproveitava toda a broa que saía do forno, que a malta era pobre e tudo se aproveitava. A que não saía para venda, era desfeita numa malga. Uma colher de sopa de açúcar servia para adoçar o caminho para o café que ali vinha. Enquanto Belmira se virava para tirar a chaleira da lareira, eu deitava às escondidas uma segunda colher de açúcar e ficava depois a ver o café a dissolver a broa e o açúcar. Era o meu menu infantil para as sopas de cavalo cansado.

E a modos que é isto. Lembrei-me da broa com café e açúcar hoje de manhã enquanto comia os mesmos cereais de sempre. Caraças, e como me apeteceu café com broa. E ao lembrar-me da broa lembrei-me da minha avó padeira e da sua luta inglória pelos fígados pueris.

Ser-se copy

Também será isto?

Um criativo pensa que vai mudar o mundo e acaba a criar frases catchy para spam de sites que anunciam incríveis fórmulas que garantem aumentar a pilinha. Karma ou oportunidade?

Gosto especialmente desta: “Even celebrities love our product, they need it to keep their celeb wives.”

Consultório Sentimental

Querida Maria, o meu nome é Mara, tenho 32 anos e escrevo-lhe do Cacém. Tenho muito para lhe contar, mas nestas coisas, como em tantas outras na vida, o difícil é começar. Menos quando estamos apertadinhos para fazer cocó e temos quase a certeza que vem lá uma diarreia das bolotas com um sabor estranho do dia anterior. Mas divago, querida Maria, desculpe. Os problemas começaram quando nos mudámos para o Cacém. O Joca, o meu namorado, é um esquilo rude, impetuoso e muito macho. Não me liga nenhuma e agora não me dá carinho. Mas nem sempre foi assim.

Quando morávamos na floresta, o Joca era um amor de esquilo. Subia sempre aos carvalhos mais altos para me trazer bolotas, apanhava sempre as melhores folhas para forrar o nosso leito de amor, e lambia-me o pelo com afinco até ficar lustroso e deixar as minhas amigas cheias de inveja. Na nossa toca, era ele que limpava as caganitas todos os dias, e sempre com aquele sorriso lindo de esquilo maroto,  encaminhava-se para as folhas secas do nosso leito de amor à minha espera. E no leito éramos uns doidos. Uma vez filmamos tudo. O nosso computador avariou e foi para arranjar. Foi um instante até esse video caseiro estar online e a inspirar todo o tipo de mamíferos. Mas não nos importamos. Amávamos e isso era tudo.

Na floresta, todos achavam que éramos um casal modelo. Tudo parecia correr bem e a vida era linda. Mas depois tudo se desmoronou. O Joca aceitou um trabalho para carregar  bolotas num parque urbano no Cacém. Era uma decisão difícil, mas ainda assim ele pediu-me opinião. Eu faria tudo pelo meu esquilo. E então viemos. E tudo mudou. E eu não aguento mais. Ele nunca está na toca, diz que está sempre a procurar bolotas que com isto da Troika, até as bolotas escasseiam, e como nunca quis que trabalhasse, fico em casa a ver as caganitas acumularem-se. Eu até queria limpar, mas entrei numa tal depressão que a sujidade se acumulou. Não queiram ver um esquilo deprimido. É terrível, é terrível!!

Peço algum tipo de ajuda, querida Maria, porque não sei o que fazer. Não sei se ele me ama, e o que nos reserva o futuro no Cacém.

Resposta da Revista Maria- (via email) Cara “leitora”, a Direcção reserva-se o direito de recusar a publicação de cartas, exceptuando os casos de direito de resposta previstos na Lei de Imprensa, o que aqui se aplica. Este é um espaço sério que pretende ajudar os que nos procuram, e brincar com estes temas não se coaduna com a nossa maneira de trabalhar. Lamentamos, mas por esse mesmo motivo, o seu texto não será publicado.

Resposta da Mara- (via email) 

 

O Universo chamou por mim

Disse-me com todas as letras que vou entrar numa espiral de dor de que dificilmente vou conseguir sair. Que mais vale desistir já e obrigar a linha azul a ficar parada por uma hora por motivo de desobstrução da via. Que cada gota de suor e cada pedalada a menos é mais um pequeno prego no meu caixão classe média. E eu, que nunca soube lidar muito bem com isso do desistir, e que nem a feijões gosto de perder, encolhi os ombros, e pensei para comigo que o Universo, esse filho da puta que insiste em urdir mal a minha teia, vai ter uns nós para desatar, porque eu não vou desistir.

Comprei uma bicicleta. Pronto. E estou a tentar habituar-me a ela. Acho que ela também. E ela até é de trato fácil. Deixa-se montar com bastante facilidade, aguenta bem com o meu peso que ainda não-é-demasiado-mas-já-anda-ali-um-pneuzito-e-já-começavas-a-comer-menos, e é preta. Tem suspensões em todo o lado mas tira um café fraquito. Não tenho dinheiro para uma Kona. Mas também nunca precisei ou quis pagar por uma Kona, não ia começar agora.

Decidi aproveitar as primeiras horas da manhã de Domingo para pôr à prova toda a modorra que se me entranhou na alma, e contrariar os que me dizem que não duro um mês nesta tentativa de regresso à actividade física. Estou parado desde que deixei de praticar isto, porque a equipa se desmembrou, mas principalmente por isto. Fui para um espaço ideal para se andar de bicicleta, cortesia dos simpáticos comunistas de Almada, que resistiram às imobiliárias para que dali saísse mais um condomínio privado. Tem algumas subidas de nível dois, que para mim significaram oito. Tive alguma dificuldade em alhear-me dos trinta e seis primos do Mantorras que por ali corriam atrás de uma bola, (lembro-me sempre daquele célebre arrastão em Carcavelos, só por isso), mas como até estava de bicicleta e vinham três jovens a pé, pensei que as apanhavam primeiro a elas, o que me daria tempo suficiente para fugir.

O Universo depois de me ter chamado, deve ter-se rido bastante. O Indurain em mim, e que por acaso também tem bradicardia como o antigo ciclista espanhol, revelou-se um fiasco ao fim de 9.32 minutos. Com a noticia da bradicardia foi a mesma coisa. Quando me foi diagnosticada ainda bastante jovem, o médico perguntou-me se conhecia o Indurain para me explicar que sim, que era uma coisa boa, e que era também chamado de coração de atleta. E o que é que eu fiz com essa preciosa informação? Comecei a fumar ganza passados uns meses.

Mas «inserir aqui clichês sobre não desistir». E é isso. Não vão ser dores musculares em  todo o corpo que me vão fazer desistir. Fuck you, Universo.

 

Time’s a wasted go

De todos os frontmans que povoaram o meu Walkman da Sony e a aparelhagem da Technics lá de casa, a mesma que o meu pai demorou a deixar-me usar “para não se estragar”, e só a custo consegui convencer o quão ridículo era, ter ali o mamarracho parado só para os vinis dos Beatles e os 45 rpm dos Procol Harum e companhia, o Scott Weiland era, o gajo. Era o único que gostava de imaginar que me traria sorte com as miúdas, se o imitasse. Têm de compreender que a linha de pensamento do meu imaginário musical nos anos noventa era ainda mais curta que as linhas que o Scott Weiland fazia. Ouvia sempre as mesmas quatro, cinco bandas. Achava-o brilhante. E ele até era. A par do Mark Lanegan dos Screaming Trees eram para mim as vozes mais cool do movimento.