Esboço de Troll

Devia ter desconfiado logo que não ia ser uma viagem igual às outras. Não o sabia ainda, mas ia trocar uma incomoda dor de pescoço por adormecer nos transportes, por um curioso e cansativo jogo de olhares. O local é o do costume. Comboio praticamente cheio. Os odores de fim de dia da praxe. Morfeu é um bacano e deixa-me dormir. Respiro humores sovacais mas durmo, por isso não conta. Acordo estremunhado por algo que me toca de raspão na perna. Não me digno levantar a cabeça, por isso o banco à minha frente fica ocupado por um par de joelhos que me olhavam, descontraídos. Não demasiado descontraídos, presumo então tratar-se de uma mulher.

Uma vez elevado o grau de visão, reparo no par de íris que salta por entre os aros dos óculos. Fazem-me lembrar aqueles cães que nos filmes saltam feitos parvos atrás das cercas e das sebes, para cima e para baixo, à espera ou à procura não se sabe muito bem do quê. É um cliché que nos faz sempre esboçar um sorriso mas reprimo o meu. Estava a dormir, foda-se. Era uma daquelas miúdas pouco interessantes e que dificilmente acharia gira, mas isso não interessa nada para a história, opto então por omitir essa parte, evitando adjectivar a prosa em demasia. Li algures que é um erro crasso.

Poucas vezes me senti assim constrangido por estar a ser observado daquela maneira. O modo como manejava o lápis, fez-me pensar que talvez houvesse ali mestria, talvez uma estudante de artes. Isto considerando que aos olhos de um leigo como eu, manejar com rapidez um lápis possa ser encarado como mestria. Eu também manejo um lápis mas os meus matchstick men saem sempre da mesma forma. Como não tenho termo de comparação, ela bem podia ser a Rembrandt da rua dela. Apeteceu-me dar um ar de desinteresse. Quis levantar-me e virar costas. Quis olhá-la nos olhos e envergonhá-la até que parasse com o lápis e aquilo que me parecia um esboço do meu obtuso trombil. Mas não fiz nada disso. Deixei-me levar pelo punho dela. Dei por mim a não querer estar tão despenteado, e a desejar ter tido tempo para aparar a barba. Quis tanta coisa. Esperei pacientemente que terminasse, e sendo que se aproximava a minha estação, olhei para ela, esbocei o tal sorriso reprimido minutos antes, e levantei-me com um “com licença”.À cagão.

O ego é um filho da puta, não é?

Sleeper Cell

É assim que me sinto por estes dias. Deito-me a achar que, se acordar na manhã do dia seguinte, o meu cérebro começa a debitar informação que nem sabia existir. Deixo de precisar de obrigar o meu corpo a isto, isto, e ainda isto. Descubro agilidade e perícia, em músculos que nem sabia ter. Deixo a vida de casa/trabalho dos subúrbios, e começo a preparar o ataque que já vai tarde, a membros corruptos do governo, ou a infiltrar-me no Sudão para assassinar o Kony que bem merece. Um reparo a esta última afirmação. Vi o Machine Gun Preacher no fim de semana, e fiquei a pensar nisso. Tudo boas causas. Adiante.

E depois acordo. Xixi, lava mãos, cereais, água na tromba com sabão hidratante, anti-rugas, escolhe camisa, esta não, esta sim, escolhe calças, merda esta não está passada, cinto, escova botins, calça botins, penteia cabelo, foda-se tenho de cortar esta lã. Vai de pente seis no fim de semana. Prometo. Onde estão as chaves do carro? Alguém me mexeu nas chaves do carro. Foi ela. Não. Estúpido. Estão como sempre no outro casaco. Num trago e meio bebo uma Vimeiro e aproveito a tampinha para aquele miúdo de que me falaram, o que precisa de uma cadeira de rodas nova. Deve ser uma tanga como tantas outras, mas na impossibilidade de ir para o Sudão ajudar as criancinhas, é o que se pode arranjar.

Confesso. É mesmo isso que vocês os três estão a pensar. Ando doido para ver o Skyfall, e sou o fã número quatro do Homeland. Mas até o tempo suficiente para ir ao cinema parece escasso. A vida dos espiões é tão mais glamorosa. E nunca vivem nos subúrbios. Só vão lá para pedirem informações a sleeper cells como eu. Depois acabam por matar o gajo e lá vão eles ter com a jeitosa. Nos subúrbios também as há, as jeitosas. Mas nunca ficam com as células terroristas como nós, ficam sempre com os gajos que vestem Tom Ford.