35 Invernos

squaws

Este podia perfeitamente ser o título para mais uma obra do Nicholas Sparks ou outra manhosice qualquer. Tem aquela aura de enigma/drama e mistério, ah e tal sobre que é que será e onde é que vai dar. Na minha cabeça teria todas as possibilidades. Atente-se por exemplo à breve comparação com o do João Tordo. O dele só tem um, é Bom,  e vendeu razoavelmente bem. Mas aqui não. Aqui fala-se apenas e só da minha existência. Se fosse um Black Foot no Século XIX, seria já o ancião da tribo, um velho cheio de ossos e penas de águia ao pescoço, vestido com uma bela pele de bisonte e rodeado de belas e jovens squaws a quem já não saberia muito bem o que fazer. No Século XV,  caminharia provavelmente para um daqueles idosos desdentados e maltrapilhos, a pedir um penny nas imundas sarjetas de Londres, a ver passar as camones dondocas a caminho de Picadilly, nos seus vestidos rendilhados e vistosos.

Mas depois vieram os antibióticos e tal. E agora sou um “jovem” de 35 anos. E bateu forte. E agora preciso de umas chapadas na cara para sair deste torpor. Afecta-me mais do que quero admitir. Se fosse um Viking do Século X, já estaria a fazer planos para morrer gloriosamente em batalha em nome de Odin, só naquela de guardar o meu cantinho em Valhalla, ou em alternativa, a escolher o precipício de onde me iria atirar ao mar. Doem-me as costas.

Sobretaxas, Trótski, e as cebolas

russia

Com um afinco assustador, encontro-me neste preciso momento a fazer as contas para os pagamentos do mês. Primeiro pago ao Piotr, o agiota russo que mora no fundo da rua, na esquina daquele café novo todo pipi com tons fuschia.  Os juros de 23% que ele cobra conseguem ser atractivos. No fundo são empréstimos impossíveis de igualar ali no mercado paralelo do nosso pequeno bairro de proletariado.  Contando que se consiga sempre pagar no fim do mês. A Dona Hermínia falhou no mês passado e o Piotr atropelou-lhe o Rex. No fundo o bairro agradeceu. O Rex fartava-se de morder nos miúdos e estava sempre a tentar acasalar nas pernas alheias. Mas a Dona Hermínia ficou inconsolável e aprendeu a lição. E pagou com juros e tudo.

Fiz uma pequena pausa para ir mondar ali o cebolo. Tenho um plano que creio ser infalível. Depois de juntar sacos de cebolas, vou vendê-las na rua. Toda a gente usa cebolas para cozinhar e se forem como eu, só reparam que se acabaram as cebolas quando forem à despensa e não houver nenhuma. Vou repor os stocks nacionais de cebolas das despensas portuguesas. Mas divago, desculpem. Baby steps, baby steps. Primeiro a rua, depois o bairro, de seguida o mundo. Existem sempre riscos, claro está. Na Rússia de Trótsky e Kamenev, os espiões alemães usavam muitas vezes o disfarce de vendedores de cebolas para circularem livremente por Petrogrado. A maior parte era catada pelo Exército Vermelho e fuzilada. Aqui na rua ainda não existe Exército Vermelho, mas andam uns tipos a fiscalizar se os vendedores de rua passam ou não factura. Mas é um risco calculado, e pela minha sobrevivência tenho de arriscar.

Depois vou tentar juntar todos os cêntimos para tentar pagar aos guardas da prisão infantil. A Irina Ivalova olha-me sempre de soslaio quando lhe entrego todas as moedas. Dá um chuto na mini presidiária Nº77 e encaminha-a para a cela Nº3. Volta o olhar para mim, aproxima-se, sussurra-me, e no seu hálito reconheço de imediato as minhas cebolas: “tovarich troll, estamos novamente sozinhos e se quiser que a sua mini presidiária continue a ter aquela carinha angelical, é bom que me apague este fogo outra e outra vez”. Eu,contrariado mas resignado à minha triste fortuna, apago. E apago. E apago. É praticamente impossível afirmar com certeza o que se passa naqueles momentos. Sinto-me sempre violado, mas a cabra da Irina lá fica, sentada em cima do seu enorme cu, placidamente a fumar Gauloises.

Tento sempre que me sobrem algumas moedas para comer. Não posso estar constantemente a comer cebolas. Começo a a pensar que a quantidade de cebolas que ando a comer, estará intrinsecamente ligada à falta de fazer o amor. “- E a Irina” ? Dirá o atento leitor. Bem,  aquilo é sexo. Do mau. Por isso não conta e tenho vergonha que alguém no bairro descubra e me delate à Comissão dos Bons Valores e Costumes Do Glorioso Povo, um soviete especial criado pelo marido da Irina. A ironia, meu Deus, a ironia. Batatas. Tenho de começar a pensar em plantar batatas. Também faltam sempre na despensa, e a existirem, estão sempre greladas.

 

La Perla

La_Perla

No rescaldo do dia de ontem, o tal do tipo que deu uma queca tão boa na cega que ela recuperou a visão, e que na verdade a malta anda a comemorar uma bem dada, ressalvo apenas duas situações que me parecem pertinentes, sendo que de outro modo, nunca falaria deste dia. Ao acompanhar um colega de trabalho a uma loja de lingerie chamada La Perla, ali na Rua Castilho, dei-me conta que o cliché das prendinhas neste dia estão imensamente overrated. Certo, já sabia, mas apeteceu-me falar do assunto. Acompanho com frequência as visitas a este tipo de estabelecimentos, sendo que acabo por ser parte interessada. Opino, ajudo na escolha, reconheço que as tanga são muitas giras e sexy e tal, mas que no dia a dia serão desconfortáveis como o raio, sim, levas antes estas que são de algodão e confortáveis, e até têm uma rendinha à frente e tudo. E pago. Faço questão de pagar porque gosto de ver. É mais ou menos como pagar por um peep show caseiro.

Mas na La Perla este conceito muda. Sim aquilo é tudo muito bonito e agradável ao olhar. Mas 170 euros por uma lingerie parece-me um exagero. Ninguém me garante que a mesma miúda do Bangladesh que coseu os soutiens da La Perla, não tinha minutos antes acabado a remessa da Intímissi. Asseguraram-me que não, que não é um valor assim tão exagerado, que caro é o que se paga bastante por Chantal Tomass, mas porra!! 170 euros!! “de seu valentim” só queria comer a cega, por amor de Deus!!

Como não quis ficar como mais um que não quis comemorar, fui comer o melhor chicken tikka masala da Margem Sul, no restaurante mais suis generis que conheço. Aquela saborosa comida Indiana, no restaurante com a pior decoração chinesa de sempre, enquanto ao lado um casal apaixonado comia uma Pizza al prosciutto cotto. True story. E pronto, foi só um desabafo. Agora vão trabalhar.

 

 

Lose some, win some

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Devia ter uns seis ou sete anos da primeira vez que perdi algo. Recordo-me de sair à rua todo feliz com o meu primeiro chapéu de chuva para ir para a escola. Fui avisado para ter imenso cuidado com ele. Era um mini guarda chuva à homem. Sim porque isto de lhes chamar chapéus de chuva não existia na minha terra. Era um Guarda-Chuva e pronto. Era preto, com uma ponta de metal. Ao fim de uns metros já era uma imponente espada que estraçalhava sem dó, as ervas daninhas do caminho. Mas foi sempre na minha mão e não o largava por nada, ciente de que se o fizesse, ficaria com o rabo aquecido à base de porrada.

Mas eu tinha seis anos. Não me recordo bem do motivo que me levou a pousar a minha espada-guarda-chuva-com-ponta-de-metal. Pode ter sido por me terem escolhido para a equipa de futebol da malta que eu achava fixe. Já nessa altura não jogava a ponta de um corno. Era sempre dos últimos a serem escolhidos. O não ter ficado para o fim deixou-me de tal forma efusivo que nunca mais me lembrei do chapéu. Ficou sozinho no recreio. Quando cheguei a casa de mãos a abanar, fiquei de rastos pela perda, e com o rabo a ferver.

Mais tarde, já na escola secundária, perdi a carteira. Fui com a Estela ao bar comer um bolo. Comi o bolo, e depois fui para trás do pavilhão comer a Estela. Nessa altura ela não deixava passar da second base, isso veio depois numa visita de estudo à Serra da Estrela, mas era já bastante solícita e alinhava sempre em patuscadas gulosas comigo. Só me lembro de comer o bolo à pressa a galar-lhe as mamas. E reparem que era uma bola de Berlim, o meu bolo de eleição nos anos noventa. É incrível como a cegueira impera no reino do mamaçal. Passado o furo, sorridente e com a libido saciada, fui para a aula de educação visual e nunca mais me lembrei da merda da carteira. Ficou no bar. Ainda fui lá perguntar se a tinham visto, mas certamente algum cabrão comeu umas bolas de Berlim à minha pala. Acabei por apanhar mono, e recordo-em da carga de trabalhos que foi, convencer o motorista do autocarro a deixar-me ir para casa sem mostrar o passe. Foi ainda pior chegar a casa e contar uma história plausível. Safei-me de ficar com o rabo a ferver.

Ontem aconteceu novamente. Entrei no café do costume, tirei o meu gorro da sorte, folheei “A Bola”, gozei com a tanga dos tripeiros continuarem na taça da Liga, paguei o café e saí. O dia de trabalho passou demasiado lento como sempre. Na rua estava frio e apressei-me a abotoar o casaco. O gesto mecânico de ir à bolsa tirar o gorro, emperrou na ausência do mesmo. Voltei ao café e ninguém o havia entregue. Fanaram-me o gorro. Se por acaso se cruzarem por aí com um tipo a usar um gorro azul escuro, lindo, mesmo à pescador de bacalhau dos mares da Noruega, pode muito bem ser o meu.

Caroline

Se te consegues lembrar da primeira música que sacaste das internetes, esta amostra de post é para ti. Se ainda te identificas com essa mesma música, ou se, de certa forma, ainda achas que ela te define, tanto melhor.

Eu lembro-me perfeitamente. Com aquele ruído ensurdecedor característico dos modems 56k, lá estava eu com o napster acabadinho de instalar, a escrever uma pequena lista de músicas que de alguma forma atenuavam o sentimento de vazio, na minha atormentada alma gótica de então. Tinha ouvido esta música numa cassete que esta jovem me havia emprestado. Gostei tanto que será provavelmente das bandas que mais CD’s originais me levaram a comprar. O tempo encarregou-se de quase me fazer esquecer isto, e o mais estranho é que só me lembrei da música porque me apareceu nas sugestões do Youtube. Não acredito que o Universo me esteja a querer dizer alguma coisa. Ao ouvir isto hoje, dir-se-ia que com o tempo o mundo perdeu um metaleiro bonzinho e lamechas, mas ainda não sabe muito bem o que ganhou.

Se tiverem coragem e se lembrarem, coloquem aqui a música. Assim rimo-nos todos uns dos outros e ninguém fica envergonhado.

Look cigano por 40 euros

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Ali mais para baixo, é possível ler-se algo referente às minhas pilosidades faciais. Sim, ainda mantenho este ar vou-deixar-crescer-a-barba-mas-óh-fodasse-que-mais-pareço-um-hipster. Tenho alguma dificuldade em explicar às pessoas o porquê, (a mim próprio já desisti de tentar), da real razão que me levou a isto. Adiante.

Acontece que, nem tanto por necessidade, mas sim pela real possibilidade de fazer uns trocos extras, daqueles que ninguém no seu bom senso recusa, dei por mim a vender cenas online. Comecei a medo, envergonhado, a encontrar-me no Colombo com uma senhora que me queria comprar uma máquina de café antiga. Acabou o fortuito encontro com a dona toda sorridente a pagar-me um café. Fui ganhando à vontade com material de Paintball,  que vendi todo, e já em velocidade de cruzeiro, dei por mim a combinar encontros lá em casa com gajos de Viseu,  que aí se deslocaram para me apreciarem o material. Gostaram tanto do que viram, que pagaram em notas de cinquenta e o levaram embora. Deixem-se de merdas, era um Plasma Samsung antigo. Combinei encontros com brasileiras à porta do Almada Fórum para vender máquinas digitais ultrapassadas. Voltaram a querer pagar-me um café. O carro mal estacionado salvou-me de um provavelmente estranho diálogo com uma sertaneja caipira.  Ô genti!!!

Comecei a dar por mim a olhar para tudo o que se encontra lá em casa com outros olhos, e a potenciar em euros, todos os pechisbeques possíveis e imaginários. Mas tudo isto muda com uma barba enorme. Permitam-me que desmonte em segundos a teoria. Esta barba enorme, com uns jeans escuros e um casaco do mesmo pantone, e acompanhada de um grande sacalhão de plástico transparente e a tiracolo, com um Puff do Gato Preto lá enfiado, altera completamente toda as conjecturas que imaginas que as outras pessoas façam de ti.

Num cenário de montanha, artilhado de crampons e tal, acredito que esta barba tornasse o seu portador num tipo respeitável, a quem os outros trekkers dessem o seu melhor -Hola!!-, enquanto cediam respeitosamente a passagem num qualquer cume. Já no Metro, limitam-se a olhar de lado, e a colocarem subrepticiamente as mãos a proteger as suas malas e sacolas, e a afastarem-se da presença daquela espécie de Lelo.

Os 40 euros foi o preço a que vendi o Puff. Sou oficialmente um cigano.