OST

É de certa forma curioso, que, tendo tido um passado ligado a ambientes sonoros pesados, já tenha decidido que a música que irá tocar na minha cremação Viking, seja a Towers de Bon Iver. Confusos? Eu ainda estou mais. Em primeiro lugar porque ainda não sei como hei-de conseguir convencer a família que à data me restar, de que a melhor forma de homenagearem a minha fugaz passagem por este mundo, seja deitar gasolina a um monte de madeira empilhada e atear-lhe fogo, oferecendo assim de bandeja a visão das minhas flácidas peles encarquilhadas a arderem em lume rápido, numa combustão com cheirinho a carne queimada e aquela gordurinha do costume a pingar e a fazer as chamas chisparem.

Para além da dúvida que logo me assoma: se ainda haverá gasolina à venda avulso daqui a uns trinta ou quarenta anos? É esperar que sim. Na verdade, a impraticabilidade desta minha última vontade prende-se apenas com esta questão. Porque a parte do funeral Viking está mais do que decidida. Do ponto de vista legal não sei até que ponto isto levantará problemas, por causa das tangas da saúde pública e tal, mas será uma questão que a minha descendência terá de resolver. Sob pena de não verem a cor das minhas escassas poupanças.

Falava do quê mesmo? Música para um funeral. Abri aqui uma excepção. Vão ser tocadas duas músicas e não apenas uma. Vai ser em loop, mas como vai arder tudo rápido, não vai chatear muito. No máximo vão ficar a lacrimejar dos olhos com o fumo, mas afastem-se do sentido do vento e nem isso incomodará. Nada de Heavy metal, ou gótico lamechas. A banda sonora será um selo de autenticação do “Eu” camaleão. Descobri-a por acaso a ver um fan trailer do Oblivion. E apaixonei-me.

Hysterical Literature

Estava a adorar ler a entrevista ao autor, Clayton Cubitt, a mente por trás deste projecto e de todo o conceito, até ao ponto em que, confrontado com a hipótese de fazer o mesmo projecto com leitores masculinos, o mesmo refere a dada altura que “I don’t think men have quite the same sensual relationship to the written word as women do”.  Não concordo minimamente. Não se consegue ter essa relação com toda a literatura. Não é assim tão linear. Nessa mesma dinâmica, lembro-me perfeitamente de estar a ler o “Sexus” do Henry Miller como quem estava a ler “a Bola”, e estar deliciado a ler os pensamentos do Sal Paradise em relação à Marylou no “On the Road” do Kerouac. Também se poderá dar o caso de ser eu a não estar a perceber exactamente a “sensual relationship to the written word” e estar aqui a mover-me em areias movediças.

O projecto video foi acusado de ser demasiado sexista. É uma opinião. Não a partilho. É um hino ao orgasmo. É um hino à literatura. O sexo também é arte.

Mas não me alongo mais. Uma das entrevistas podem ler aqui. Tal como se quer num bom orgasmo, demorei um bocado a chegar lá, aos videos. Mas cheguei e foi bom. Como num orgasmo. Dos excertos de livros disponíveis à escolha nos videos, coloco aqui o meu preferido:  o “American Psycho”  do Bret Easton Ellis.

Rhinoceros

Estávamos a subir o íngreme acesso ao Portinho da Arrábida. Como a  variável Calor+Sol+Farnel+Praia ainda vem longe, conseguimos descer com o carro. Fora um belo piquenique. Aproveitar aquele bocadinho de tréguas que a chuva deu foi a minha melhor ideia do mês. A pequena presidiária estava de condicional e por isso aproveitámos. Ganga arregaçada, pé descalço, cheiro a mar, os clichés da praxe. Correr atrás de caranguejos, falhar o pé naquela rocha e lixar um joelho, beber café em frente à Anicha, também foram clichés presentes.

Sempre a tentar incutir coisas boas à mini presidiária, e porque não a podemos sempre deixar ganhar e ouvir Muse constantemente até à exaustão, lembrei-me de ouvirmos o “Gish” dos Smashing Pumpkins. Esta faixa, “Rhinoceros” está lá, e faz deste álbum um dos meus preferidos, mas também, e não sei muito bem porquê, esqueço-me demasiadas vezes disso. E por isso lá fica, no fundo do porta luvas. O abanar constante da cabeça dela, é sempre sinal de aprovação.

Tentei que fossemos ao convento da Arrábida mas para não variar estava fechado. No regresso discutíamos argumentos parvos para filmes e séries. Nada de muito edificante mas que nos faz rir sempre. Eu estava muito orgulhoso do argumento sobre o meu filme porno sobre padres zombies em constantes orgias no convento da Arrábida. Ainda ninguém tinha pensado nisso. Mas às vezes esqueço-me dos pequenos porquês de a ter escolhido como companheira para a vida. Alertou-me de imediato para o facto de não ser nada original. Que os egípcios já tinham pensado nisso. Ísis juntou os pedaços do corpo do amado, Osíris, copulou com o gajo já zombie e não satisfeita, emprenhou dele, nascendo dessa relação Hórus. O meu argumento original caiu por terra, mas por entre gargalhadas, amei-a ainda mais um bocadinho.