Entretanto no resto do País…

lavrar

Em Pitões das Júnias, duas vacas ruminam vagarosamente a primeira erva da manhã. A Ti Cacilda já as trouxe do curral. Custou-lhe imenso porque as costas já não ajudam como dantes. A malhada mugiu de contentamento, à castanha tanto se lhe dá como se lhe deu. É todos os dias a mesma coisa. De seguida vão sentar-se no seu flanco, vão meter-lhe as mãos às tetas, e tirar-lhe uns litros de leitinho fresquinho. Ti Cacilda ainda é a melhor no seu mester.

Em Freixo de Espada à Cinta, Justino Gomes, um velhinho simpático que mora ali ao pé da antiga judiaria, já comprou o jornal “A Bola”, algo que faz religiosamente desde que se reformou, e segue para o café central. Um café pingado e um pão com fiambre e bastante manteiga esperam por ele.  Tem uma pequena reforma, que, segundo palavras do próprio, “vão dando para estes prazeres e para os medicamentos, não me posso queixar”.  Depois de ir a casa comer a sopa de nabiça, segue-se uma tarde de sueca no jardim da Praça. Hoje tem de ganhar ao Guimarães e ao compadre dele. Está farto de perder por causa da manilha.

Em Paços de Ferreira, o Jorge já bebeu o seu meio Licor Beirão e o seu segundo café do dia. Ainda se está a decidir se fuma o terceiro cigarro antes de entrar na fábrica de móveis. Olha para o céu, não está estrelado porque é de dia, e está um sol do caraças que lhe fere a vista. O António manda-lhe a boca para entrar e picar o ponto antes das nove. –Fodasse-, exclama chateado. Mal deu duas passas no cigarro. Atira-o para o chão e esfrega-lhe a biqueira da bota em cima. Mais um dia igual aos outros.

Nas Caxinas, o Chico e os seus dois primos, já dobraram as redes e já as colocaram no convés da traineira S. João Baptista. Com P. As redes para enganar a policia marítima por cima, as ilegais para melhor apanhar o robalo por baixo. Hoje vai ser de arrasto. Estão confiantes. A ver se na lota o Senhor Manuel lhes faz novamente aquele preço maravilha pela sardinha pequenina. O primo mais novo, com quatorze anos, ainda não sabe muito bem da arte, mas tem vontade e não quer mais ir à escola. O Chico, que também não passou do sétimo incompleto, acha que é de pequenino que se apanha o jeito, por isso leva-o hoje, com a condição de não fazer merda, e o irmão mais velho tomar conta dele. São família, o que é que se há-de fazer?

São apenas alguns dos efeitos visíveis da greve do Metro de Lisboa no resto do País.

Cenas a que devia ter prestado mais atenção

Para além de me estar obviamente a referir aos My Bloody Valentine, uma banda brilhante que me passou praticamente ao lado nos nineties, e de que este “Only Shallow” é apenas um pequeno exemplo, tantas outras cenas acontecem e eu não dou por elas, não reparo, não ligo, e, pasmem-se, às vezes finjo não reparar.

No Domingo passado por exemplo. Belo churrasco num jardim florido ali para os lados de São Domingos de Rana. Fui incumbido de “deitar o olho” a dois petizes que se digladiavam por um baloiço. Distrai-me por entre uma Super Bock fresquinha e a conversa sobre os resultados possíveis para o último jogo daquela época, cujo nome não se pode referir. O puto número um empurrou o puto número dois, que se estatelou ao comprido por entre um pequeno morangal e uma cerca. Puto número um esmurrou-se todo não sei bem onde, pai do mesmo olhou-me de lado. Nunca imaginei que alguém se pudesse magoar com morangos. Mas lá está, devia ter prestado mais atenção.

Na grelha estava um piano com um aspecto delicioso. Grelhador XPTO de duzentos e tal euros, com regulador de temperatura e o camandro, era o prenúncio para umas prováveis papilas gustativas nos píncaros. Molho à base de mel, sementes de mostarda, e uma colher de mostarda Dijon, eram a quase certeza de um almoço perfeito. Mas eu devia ter prestado mais atenção. Distraí-me a conversar com os pais dos putos três e quatro, sobre as maravilhas do Raspberry Pi, e de como tenho agora acesso a filmes, séries e bola( esta em HD), de borla,  e sem downloads ilegais, apenas à distância de um click. Quando senti no cérebro a informação do estômago -Pá, tens ali piano à espera!!- , era tarde. Afinal não era assim tanta a quantidade, e não imaginava que os anfitriões tivessem convidado para almoçar, os alarves todos das redondezas. Comi salada, entremeada e pão de alho.

Eu devia prestar mais atenção a cenas. Achava que tinha isso como suposta qualidade, um gajo perspicaz, eagle-eye para  antecipar problemas, pensar duas jogadas à frente e tal, mas a verdade é que estou mesmo naquele estado comfortably numb. Eu que nem gosto de Pink Floyd.

 

 

Stereotypes and Labels

Caminhada costumeira pós almoço.  Duque de Loulé ao relantim, viras para a Fontes Pereira de Melo, continuas para o Saldanha, não viras na primeira, não viras na segunda, começas a descer a Casal Ribeiro, não existe nenhum café do Barbosa que ali é tudo fino, pausa para o melhor café ali da zona na Pastelaria Vitória. Mais uma volta mais uma viagem, menina bonita não paga mas também não anda. Começas a subir a Rua da Escola de Medicina Veterinária. Deparaste com uma sonoridade reconhecível. Lana Del Rey, “Summertime Sadness”. Vem de onde? vem de onde?

Daqui:

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São as obras da nova Sede da Policia Judiciária. Noventa milhões de euros mais I.V.A. Nesta fase apenas habitada por centenas de trolhas e artesãos similares. Daqui esperas sempre que possa ser audível no rádio a pilhas, toda a discografia do Quim Barreiros e do seu gosto por mamar nas tetas da sua cabritinha. Nunca o Summertime Sadness da cabrita da Lana. Estuguei o passo e fui à minha vidinha.

Nunca mais assumirás que conheces os gostos musicais dos outros. Nunca mais assumirás que conheces os gostos musicais dos outros. Nunca mais assumirás que conheces os gostos musicais dos outros. Nunca mais assumirás que conheces os gostos musicais dos outros. Nunca mais assumirás que conheces os gostos musicais dos outros. Nunca mais assumirás que conheces os gostos musicais dos outros.

 

Enchidos

Entre vir ao blog e escrever umas frases para encher chouriços, ou escrever muita palha, como é infelizmente a opção de demasiados blogues, aqui opta-se pelo estar calado. São praticamente todos, os dias que aqui venho e tento escrever qualquer coisa, mas toda a gente vê o estado do País como eu vejo, toda a gente olha para a janela e vê a temperatura a começar a subir novamente, toda a gente se compadece do infortúnio do estado do Oklahoma. Não precisam de ler aqui isso repetido à exaustão. Podia falar-vos da minha vida, que também a tenho, mas não me apetece. Ninguém precisa de saber que bati hoje de manhã com o dedo mindinho do pé direito na beira da cama, urrei de dor, declamei as cinquenta e sete caralhadas que conheço em segundos e choraminguei. Sim os homens também choramingam. Ainda que de dor. A unha está negra, não consigo calçar nenhuns botins, mas acabei por encontrar uns velhos que me permitem andar sem fazer demasiadas caretas.

Ninguém precisa de saber que passei pela exposição do Syfy na PT Bluestation recentemente e encontrei aquilo cheio de erros, e que me custa a acreditar como é que uma empresa de Media pode tolerar uma coisa destas:

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Se o George Martin visse isto, rolavam cabeças. No canal Syfy não, porque continuo a ver esses mesmos erros no Facebook deles. Tenho um grau de tolerância zero para estas merdinhas.

Fui comprar camisas aos saldos. Numa das 38 grandes superfícies desta Lisboa a que ainda me vou habituando encontrei  isto:

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Sorri e concordei. É relativamente fácil apaixonar-me pelas palavras de algumas bloggers. São poucas mas boas.

Atente-se que não disse ali em cima que este post não seria um “enche chouriços”, porque é. Serve apenas o propósito de relembrar aos vossos defuntos readers que ainda por aqui ando.