No turning back now

waistcoat

O eu vetusto rejubila de satisfação. Andava desde sei lá quando a pedinchar um tweed decente. Ok, ok, não é um tweed irlandês do bom, daquele que se faz ali para os lados de Donegal, mas acaba por ser a escolha ideal na relação qualidade preço. E agora já está. Já vem a caminho. É comprar cedinho porque a partir do meio de Novembro a Amazon vai estar tão caótica que nem os drones os vão salvar do atraso nas entregas.

Permitam-me que sucintamente me explique. E descansem os incautos leitores que aqui passam pela primeira vez. Este não é, de todo, um blogue de moda masculina. Nem sei bem o que este blogue é mas isso agora não interessa. De tempos a tempos apetece-me escrever sobre a minha costela metrosexual. Ela anda por aqui misturada com as outras vinte e três e até leva uma vida simples e feliz. Ultimamente anda a tentar sair um bocado mais da sua zona de conforto e uma coisa acaba por levar a outra.

Desengane-se quem aqui tenta nas entrelinhas encontrar um hipster ressabiado. Não o vai encontrar. A costela metaleira, que vive paredes meias com a metrosexual, nunca permitiria tal coisa. Acontece que cada vez me revejo menos nos meus pares, no que a indumentárias diz respeito. Cruzo-me com eles na rua, nos transportes, nos cafés, à porta de casa, e não gosto nada do que vejo. A linha de montagem de onde saem é uma bela merda. Eu também já fui um gnu, parei foi para pensar.

Lembro-me de na primeira comunhão levar um colete azul escuro. Nunca tinha vestido nada assim e gostei logo do raio do colete. Sentia-me mais crescido. É certo que Mamã Troll também me obrigou a levar calçadas um par de meias brancas com rendinhas bastante apaneleiradas, mas o tempo encarregou-se de filtrar da memória a porcaria das meias. Mas o colete ficou. Andava desde 2012 a procurar um colete assim. Clássicos para fato existem ao pontapé e não gosto. Corri todas as lojas vintage por onde passei à procura do colete perfeito. Ontem a navegar e a colocar cenas random no cesto de compras da Amazon, encontrei-o.

Isto também pode ser analisado através do binómio Televisão/Séries. Mas negarei até à cova que Peaky Blinders tenha alguma coisa a ver com isso.

Calling Woods

Devia ter aí uns cinco ou seis anos, quando pela primeira vez papá troll decidiu ser a altura certa de me apresentar aos seres das florestas que envolviam a aldeia. Estava habituado a vê-lo sair com o meu irmão, embrenhando-se no matagal de machado ás costas, em busca da árvore de Natal perfeita. À trinta anos atrás, o advento do go green ainda estava longe de ter no nosso quotidiano a importância que tem hoje. Eu já via as fábulas da floresta verde, por isso delirei pela oportunidade de ver ao vivo a Mara e o Joca, e, com alguma sorte, o guaxinim Gugu. Com esta idade nem sabia que nas florestas em redor se se encontrasse um esquilinho pequenino, já era uma sorte do caraças.

Os anos foram passando, e o apelo da floresta cresceu com eles. Começaram por me delegar o apanhar das pinhas para a lareira. Desenvolvi com mestria essa arte quase perdida, e a dada altura, chegava triunfante a casa com dois sacos de serapilheira cheios, qual neandertal  caçador-recolector. Quando a idade começou a pesar nas pernas do patriarca, fiquei incumbido de manter viva a tradição. Passava parte da manhã a alisar o machado, enquanto o frio condensava em vapor o calor da minha respiração. Munido do machado e de um balde para o musgo, que já sabia por esta altura que crescia mais fofo do lado Norte das árvores, desaparecia então pelos pinhais, atravessava ribeiros, afastava-me da humanidade, e começava a caça. Ok, era uma árvore mas tinha montes de piada na mesma. Pelo menos para mim. O restolhar constante da urze pisada, o cheiro das folhas de eucalipto esmagadas nas mãos e que inalava com vigor. Uma comunhão fixe, com a casa mais próxima já a distância considerável.

Quando cortar árvores passou a ser visto como muito pouco cool, já estava a morar em Lisboa. A minha árvore passou a ser mais uma de plástico, igual a tantas outras. Em casa dos troll, o machado ganhou ferrugem pela falta de uso, e a floresta foi ficando cada vez mais pequena, à medida que as urbanizações foram aumentando. Mas o apelo ainda bate forte. Por isso é que perdido e achado, faço planos de trekkings que incluam florestas e matagais vários. Por isso é que estou sempre a babar com filmes e séries que se passem no frio Vermont, no Nevada, e também no estado do Oregon. Neve, florestas, trilhos. Comunhão. É uma chatice que em Hollywood esta combinação normalmente culmine em sangue e serial killers a rodos.

Os Agalloch ali em cima vêem as coisas como eu. E são de Portland, no Oregon. A inveja, meus amigos, a inveja. Às vezes também usam camisas aos quadrados vermelhos e vão para a floresta arranjar lenha para manterem as suas lareiras quentinhas. Só não são barbudos. Uma falha menor, portanto.

Penumbra

olho

 

São vinte e três e cinquenta e sete. Estou a limpar os óculos com um daqueles paninhos microfibras que dizem fazer maravilhas pelas lentes com dedadas. É uma mentira de todo o tamanho. Por mais que limpe, acaba sempre por ficar com alguma impureza. Levanto-me para concluir o serviço com um bocadinho de papel higiénico. Não é nenhum segredo de família para limpeza de óculos, por isso partilho.  Na verdade também serve com papel de rolo de cozinha, mas a casa de banho fica mais próxima. Por outro lado dizem-me que o papel dos rolos riscam as lentes. Ainda que não me tenha apercebido, é um facto que aprecio bastante mais a maciez de um papel fofinho, no que ao limpar do rabo diz respeito, do que propriamente a rugosidade do papel de cozinha. Eu sei, eu sei. No fim deste parágrafo, já estarão a pensar na real necessidade da frase que antecede o ponto final ali à direita. Não sei. Estava a falar em lentes e papel, daí a rabos…Quem nunca teve o azar de ir à despensa e se ver privado de papel higiénico, e olhou matreiramente para o papel de cozinha, que atire a primeira pedra.

Mas isto não era nada do que queria dizer.

A meio deste processo, ouço barulho, vozes e risos, no corredor do andar. Aproximo o olho direito, menos míope que o esquerdo, do olho mágico, e tento, em vão, espreitar o mais recente parvalhão que anda pelo andar. É a nova aquisição da vizinha da frente. Talvez a terceira ou quarta este ano. A magana parece andar sempre bastante atarefada e o dia não lhe deve render, por isso deve ser de noite que dá vazão ao que não consegue fazer durante o dia.

Quando chego tarde a casa, ou neste caso assim que coloco o pé fora do elevador, tenho por hábito evitar fazer barulhos desnecessários. Aplico a máxima do não querer que me façam a mim. Odeio que esta malta nova tenha perdido alguns dos pequenos valores sociais que fazem de nós, seres melhores. A merda da luz de presença não acende, por isso apesar de saber exactamente quem ali está, não os consigo ver. Algum copo a mais, uma pastilha a mais, e já se acham sozinhos e senhores do seu pequeno mundo. Procura as chaves, não encontra as chaves, ri, procura outra vez, ri ainda mais alto. O canito do lado de dentro da porta apercebe-se da presença da dona e ajuda à festa com os latidos do costume.  Dou por mim a acender a minha luz de presença e a exclamar um -Pouco barulho, caralho!!-  Sinto-me neste momento ainda mais surpreendido do que eles. Raramente falo antes de pensar. Calam-se, entreolham-se, e ela pede um atabalhoado -desculpe vizinho- virada para a minha porta, enquanto ele exclama um -LOL?– entredentes. Quando a incultura social e a falta de educação, dão as mãos e me batem à porta, tendo a reagir mal. Às vezes até me surpreendo a mim mesmo.

 

Beard New World

beard

Sabes que estás a entrar num mundo completamente novo, quando dás por ti a encomendar este tipo de artigos na Amazon UK. Isto quando ontem já tinhas encomendado este. Imagina que o Metrosexual e o Caveman em ti, se encontram para um café, e decidem testar os limites capilares do teu rosto. Esta demanda começou em Junho. Já estava habituado a cuidar bem das minhas pilosidades, foram quase treze anos de cabelos a roçarem-se lascivamente pelo rabo. Isto nunca teria acontecido sem alguns cuidados como sérum e condicionador sempre em separado. Sempre fui apologista de que se era para ter cabelo comprido, que estivesse sempre flawless. Seis anos depois de o ter cortado, o resultado desse trabalho ainda pode ser visto na forma de uma trança perfeita, imaculadamente guardada lá em casa. Ainda brilha.

Assim que assumi o aspecto lumberjack, isto porque nunca me consegui rever nos meus semelhantes e nas suas barbas de três dias, decidi que se era para manter, teria igualmente de estar flawless. Sou um gajo de pequenos projectos. Sou também um gajo acusado de deixar a maior parte desses projectos na gaveta. Este está a correr bem e recomenda-se. Lá para Dezembro, se ainda tiver blogue,  sou gajo para mostrar aqui o aspecto da coisa. Se por acaso se cruzarem por aí comigo, por favor não me atirem moedas. É mesmo por opção.

#ModoMetrosexualOff

Crazy Horses

Tive ontem uma epifania que decidi ser passível de partilhar com o mundo. Não foi uma daquelas epifanias brutais que nos provocam um baque nos sentidos, como se tivéssemos resolvido o mistério do filme x quando ainda mal o corpo da vítima está a arrefecer e já descobrimos quem foi o assassino, ou mais recentemente quem era o ardiloso agente alemão infiltrado na finca cubana do Hemingway, no “Clube dos Patifes” do Dan Simmons, o romance que eu julgava misturar sabiamente factos verídicos com a imaginação do autor, e que vim agora a saber que faz uns rip offs descarados ao “To Have And Have Not” do malogrado barbudo americano. Adiante.

Em 1992, papá Troll compra finalmente uma aparelhagem de som. Era um pedido de todos os natais, calhou ser naquele. Não era uma qualquer, era uma Technics enorme, um mastodonte com vidro espelhado que cabia no canto da sala e tinha umas colunas igualmente mastodônticas a condizer. Gira discos com agulha ponta de diamante, enfim, the whole shebang. Ele tinha uma colecção enorme de vinis 45 rotações que conseguiu trazer de Lourenço Marques, sem que tenha sido roubada no transporte, como aconteceu com quase toda a sua colecção de peças em pau preto. “Problemas alfandegários”, culpa dos retornados, segundo lhe disseram. Passei a ouvir aqueles 45 rotações com bastante frequência, o que serviu para achar que, actualmente, a minha cultura musical dos anos sessenta e setenta, bate a maior parte da malta da minha geração. Bem vistas as coisas, o meu gosto pela musica não começa com as k7’s dos The Cure que o meu irmão levava para casa, mas antes com estes vinis. Por entre vários Suzy Quatro, Procol Harum e Demis Roussos, estavam dois vinis que tornavam, (e talvez ainda tornem), aquela colecção especial e possivelmente valiosa. Um single dos Pink Floyd, a “Money”, retirada do álbum “The Dark Side of The Moon”, e o 45 rotações de uma banda de que nunca tinha ouvido falar, The Osmonds, com o single “Crazy Horses”.

Vinte e dois anos depois, ainda me lembro frequentemente desta música quando penso em cenas antigas. Ontem um pequeno circulo completou-se, Estava a ouvir Led Zeppelin no youtube, e a terceira sugestão que o gajo me deu foi qual? Exacto. Fiquei com um sorriso de orelha a orelha porque nunca me tinha ocorrido que poderia haver um video. Existem vários. Os The Osmonds foram considerados putos progídio nos anos setenta, e tiveram uma carreira que ainda dá cartas nos nossos dias. O puto com carinha laroca a tocar baixo, ainda recentemente andava na Broadway a cantar Andrew Lloyd WebberIsto disse-me a wikipédia. Para quem conhece Led Zeppelin, encontra facilmente riffs parecidos, e tal como estes, também os The Osmonds estavam bastante à frente no seu tempo.