Two kidney stones walk into a bar

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O barman pergunta: “Bom dia! O que vão tomar?” Ao que as pedras respondem com um sorriso sarcástico: “Oh, nada! Estamos só de passagem”. E era tão bom que esta anedota, como na vida real, funcionasse da mesma forma. Mas não. No mês passado penei aqui um dia e meio para me tirarem um calhau que ficou preso no ureter. Doeu como o raio, mas como experiência social foi fixe. Tinha um velhote asmático e casmurro à minha esquerda, e em frente, um tipo que comia por uma palhinha porque se partiu todo numa queda de mota. Tirando a parte em que o motard remendado sorvia a sopa de nabos por uma palhinha, ninguém dava por ele. Alternava dormitar com olhares ininterruptos para a Sic Notícias. Visitavam-no constantemente as filhas e os namorados delas. Olhavam-me de lado. Mais os namorados. Com um pijama gasto, emprestado pelo hospital, e a minha barba de meses, devia parecer-lhes um sem abrigo a quem foram deixar à porta do hospital. Nem lhes passou pela cabeça que ninguém deixa malta sem abrigo às portas de hospitais privados. Já a filha do velhote asmático, ofuscava-me os olhos de cada vez que o veio visitar, tal era a camada de bling bling espalhada pelo pescoço lisinho, benesse de um mais do que provável lifting.

Já em casa, sofri um bocado, as dores de ter um stent são bastante random. Alguma malta usa-o como se de um acessório de moda se tratasse, outros sofrem um bocado, enfiando analségicos à bruta pelo bucho. Como não podia deixar de ser, o meu corpo é um coninhas e sofre. Isto era obviamente impeditivo de aproveitar o estar em casa para subir de divisão no FIFA15, ou de colocar trinta e quatro filmes em dia. Mas tudo se aguenta, e a fase má, pensava eu, já tinha passado. Jurei a mim próprio fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para não voltar a ficar nesta situação, vai daí, comecei a beber água decentemente. Mais de um litro e meio por dia. Instalei uma app que me avisa de hora a hora para beber. Acabou por funcionar um bocado como a psicologia experimental do pavlov. Aquela cena apita, eu levanto-me e vou beber água.

E viveram felizes para sempre.

Errado.

A lei das probabilidades é forte por estes lados, e, como tal, desce um segundo calhau pelo ureter oposto. E também não sai. São uns cinco milímetros bastante persistentes. O meu urologista pensava que estava a gozar com ele. Mais uma moedinha, mais uma voltinha, e estou de regresso à casa de partida. Já não me apanham na curva e levo um pijama decente. Só espero não levar outra vez com o motard da palhinha. E que alguém tenha mudado para a FOX. Sempre ajuda a passar mais o tempo.