A Fábula da Floresta e do Guaxinim

forest

Uma bétula, ferida de morte pelo passar dos anos  e pela moléstia, cortesia de um bicharoco mau, está prestes a cair numa qualquer floresta. Um queriducho guaxinim surdo é a única presença em redor. Apercebe-se a tempo, e apenas por um feliz acaso, de que a árvore em queda o vai  esmagar. Dá um salto para o lado e salva-se por milagre. O seu pequenino coraçãozinho de guaxinim bate descompassadamente, olha para um lado e para o outro, ainda sem acreditar muito bem na sua sorte, e desaparece aos saltos num matagal próximo.

Nas cidades também caem àrvores, ainda que num rácio bem menor. E velhas. Também caem velhas nas cidades. E quando caem, são geralmente muitos os guaxinins surdos e em particular cegos, que fingem não se aperceber da queda da velha. É mais fácil virar a cara para o lado e fingir que o atraso é enorme. Eu, lontra assumida, corro logo a ajudar a pobre coitada, mais preocupada com o saco do Pingo Doce a espalhar compras pelo chão, do que propriamente com o joelho esfolado e os collants opacos rotos. Se fosse uma árvore, estes cabrões destes guaxinins citadinos reparavam, como era uma velha, continuaram cegos e surdos a caminhos dos seus matagais na periferia.

Como é cada vez mais raro um post por estes lados, lembrei-me de uma outra questão pertinente. Sendo o guaxinim da floresta surdo, será possível considerar-se que naquele preciso momento, a árvore ao cair fez barulho?

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