A Felicidade mandou-me cumprimentos

Disse-me ontem o meu pai. Passou por ela na rua. Já não pensava nela há anos. A Felicidade era uma espécie de patinho feio lá na terra. Para além da Mãe Natureza não ter sido nada meiga com ela, tinha um problema bastante comum, mas que nela era levado ao extremo. Sofria horrores com unhas encravadas e andava constantemente de sandálias ou chinelos, os dedos dos pés ligados, as ligaduras ligeiramente manchadas de vermelho, cortesia do Betadine. Se no Verão o gozo era menor, no Inverno vê-la de meias e sandálias levava ao delírio os miúdos que a gozavam. Isto obviamente não a fazia feliz, e as piadas constantes do resto da malta não ajudavam. A Felicidade era pobre e andava sempre com umas saias compridas e a malta gritava o tempo todo: “Oh Felicidade levanta lá uma das tuas sete saias!”. Ela não levantava. Baixava a cabeça e afastava-se a arrastar os chinelos e as ligaduras sujas de Betadine. O Paulo dizia que era mercúrio-cromo mas ninguém lhe ligava. Era sabido que ele dizia qualquer coisa para que a malta não fosse falar nas suas Sanjo. 

Antes do advento do bullying e de merdas dessas, a malta dava uns sopapos, dava sim senhor, mas mais do que isso, gozava à força toda com os que, por um qualquer azar ou problema, tivesse algo que os diferenciasse dos demais. O Zé Carlos foi o primeiro puto que me lembro de ver a usar aparelho nos dentes. A sua cremalheira tornou-o no alvo de chacota número um, da malta. Eu não gozava com ele porque a irmã era gira e lá tinha as minhas razões. Em vão. Dali nunca levei nada. Foram morar para outra terra e nunca mais lhe pus a vista em cima. O Victor, certo dia, calou-se bem caladinho na aula de Meio Físico e Estudos Sociais e não disse a ninguém que tinha vontade de fazer xixi. Corria o ano lectivo de 1987. O Victor começou a chorar compulsivamente, e a professora Maria Luísa, preocupada, aproximou-se para ver o que se passava. Quase, quase escorregava no xixi do pobre Victor. A canalhada irrompeu histérica em gargalhadas e ainda hoje, mais de vinte e cinco anos depois, alguns se lembram do mijão.

Podia falar em mais algumas infelizes vitimas de gozo infantil. De muitas outras esqueci-me para todo o sempre. Talvez me lembre deles quando já muito velho e esquecido, começar a misturar passado com presente, e a realidade com o que nunca aconteceu. Se por acaso se lembrarem de episódios da vossa infância, partilhem aqui, para que a culpa não morra solteira.

 

29 thoughts on “A Felicidade mandou-me cumprimentos

  1. Eu nunca fui alvo de bullying, mas como não pertencia a nenhum “grupo” e não gozava de “protecção” também não me atirava para fora de pé, não fosse a coisa correr mal. Mas lembro-me da Vera, que era muito magrinha e desengonçada e que para além disso tinha um sotaque muito próprio, essa sim, era alvo de muitas piadas. Não a hostilizava mas também não contribuia para que tivesse um dia a dia menos sofrível…e se ela tinha dias maus… Vi-a no outro dia e apesar da figura continuar franzina achei-a mais confiante e com uma andar mais seguro. Mais uma que sobreviveu.

    • A questão é precisamente essa Anna Blue, antes ninguém ia chorar para o youtube sobre o facto de lhe chamarem gorda, ou caixa de óculos ou qualquer outra coisa. Cheguei a levar sopapos e não ia a correr queixar-me a toda a gente.

    • Blue, não me recordo de nenhum que tivesse consequências dessas. Mas também é verdade que nunca mais tive qualquer tipo de contacto com os gozados de que me lembro.

  2. Coitada dessa jovem com pés mumificados 🙂

    Estas tuas memórias são do caraças. 🙂
    Eu era uma santinha e não gozava com ninguém. Mas via muitos a serem gozados e não fazia nada. Se calhar fui pior do que os que gozavam.

    • Fiona, às vezes não se faz nada para não sobrar para nós.
      Pessoalmente, prefiro ser um cobarde vivo, do que um herói morto.

  3. deixa cá ver… eu era a ‘caminhos de ferro’ por causa do aparelho. e tocava às campainhas quando vinha da escola e depois corria e deixava quem viesse atrás levar com as culpas (e uma vez levei uma lambada da minha tia à custa disso).
    tinha um amigo com quem me sentava no meio da rua principal da terrinha – para ver quem tinha coragem de ficar mais tempo.

    e na primária um tipo chamado Daniel encostou a mão ao meu rabo na fila para a cantina… e eu esperei por ele ao portão da escola e dei-lhe o maior estalo de que me lembro.

    e pronto.
    é isto. x)

  4. Nesse aspecto sempre me portei bem. Excepto com o Orelhas, e…deixa lá ver…Ah, o Peidas, esse também dava algum gozo. E o 3 têtas. Mas eu não era muito dessas coisas, porque tinha telhados e vidro 🙂

  5. Eu não sofri muito, tive uma alcunha de Catatua, porque na altura estava a descobrir a arte da maquilagem (só me pintava na escola porque a minha mãe dizia que era muito nova, e era), como eu gostava de verde e azul, fiquei assim intitulada, mas nada demais – hoje sou alergica a pós e pózinhos para o focinho, enfim…

    Gozar, nunca fui daquelas raprigas más, mas ainda cheguei a gozar, principalmente com alguns rapazes que se achavam os maiores e no fim eram uns bananas…
    Não posso dizer que me orgulhe 🙂

    • Em algum ponto da vida, todos os rapazes passam por bananas. Uns conseguem depois sair por cima, outros são bananas toda a vida. Eu acho que alguns desses que conheceste trabalham comigo. 🙂

  6. Uma vez vomitei na aula de português, mas ninguém gozou comigo porque tive um timing excelente: Uma colega minha estava a ler alto para a turma uma tira da Mafalda, de quando os pais lhe dizem que vai ter um irmãozinho e ela desmaia e cai ao chão com um “BONK”. O meu vómito saíu ao mesmo tempo que esse som. Tive uma ovação de pé e tudo. E fui mais cedo para casa.

    • E era preciso vomitar por causa da Mafalda? Não é assim tão mau. 🙂

      Prefiro tiras da Mafalda, às do Charlie Brown por exemplo.

  7. Lembro-me no 5º/6º ser gozada …. por causa do tamanho das mamas…. ora vejam só….. o que fez com que durante muito tempo só andasse com camisolas largas…
    Anos depois percebi: os rapazes estavam naquela fase tótó em que não dão o devido valor e as meninas … inveja 😉
    Sobrevivi sem traumas de maior.

  8. Bom, comecei a usar óculos na 3.ª classe numa escola da zona saloia, mas curiosamente, gozavam comigo pela minha maneira de dizer “iceberg” (segundo eles, deveria dizer “aissebérgue”) e pelos meus ténis de pano (I know, right? E hoje anda tudo quanto é hipster de All Star). Depois, do 5.º ao 8.º tive fama de fufa, só porque não andava aos melos com tudo quanto mexia na Póvoa de Sto. Adrião (quem conhece a zona perceberá que, no fundo, eu tinha era critérios). Na faculdade, voltei a tê-la durante pouco tempo, porque até foi a época em que mais facturei, apesar do cabelo curto e da mota (coisa muito pouco de menina de Letras), convenhamos. E pronto, foi a minha experiência com o bullying. Ah e levei com um ovo num Carnaval qualquer, isso também deveria contar!

  9. “Já não pensava nela à anos.” Oh troll corrige lá isso senão não me consigo concentrar no resto do texto… É que eu gozava com os miúdos que davam erros de português.

    Joking! (mas corrige lá…)

    • Joana, bullying para cima de mim??? Seriously? -_-

      Ainda bem que me encontras erros. Torna-me humano. Coloca-me no meu lugar e evita que o sucesso me suba à cabeça.

  10. Também tive uma colega na catequese que fez chichi no chão durante uma aula. Essa enfiou-se debaixo da mesa a chorar e a catequista viu-se e desejou-se para a tirar de lá, envergonhada… 🙂

    • Antes de mais bem-vinda, Teté 🙂

      A catequese podia ser terrível. A minha foi assim durante uns anos. Sim, fiz toda a catequese, fui crismado e menino de coro. Nunca calhou fazer xixi no chão, mas faziam dos católicos uns bichos papões intolerantes, que não sei como nunca aconteceu.

      O meu coração está com a tua colega. Mesmo depois de todos estes anos.

  11. Deixa-o lá subir para onde ele quiser (o sucesso claro), é mais do que merecido!
    Não levas a mal pois não? Só corrijo pessoas de quem gosto. E gosto muito de “ti” ler! Agora então que sei que és humano… 🙂

  12. A infância, tão distante e aomesmo tempo tão presente.
    Quer-me parecer que transportamos mais dos miúdos que fomos do que queremos admitir.
    Ficámos a modos que condicionados, marcados por toda a nossa existência.

    • Bem-vinda, Pérola 🙂

      É como dizes. Apesar de ter o discernimento suficiente para separar o homem-rapaz do homem-homem que sou, dou por mim mais vezes do que gostaria, a desejar a meninice e a ausência de responsabilidades de volta.

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