A história de Graça, Maria da Graça.

O frio que se lhe entranha nas carnes fartas não é suficiente para a demover de subir todos os degraus que levam ao terceiro andar da grande casa. Aquela água quente tinha mesmo que encher a banheira do Dr. Osório. Já se sabe como o Dr. fica quando a água fica menos do que quase a ferver. O Dr. gosta de expiar os seus pecados, lavando a carne com água a ferver até ficar vermelho que nem um pimento, mas não é coisa que ouse sequer pensar alto. Maria da Graça é nova naquela casa, mas já sabe do seu oficio como poucas da sua idade. A arte de ser empregada doméstica não é, por esta altura, nada desprestigiante. Tomara todas as amigas que deixou em Peso da Régua, terem a sorte que ela teve, ao sair da escola antes de terminar a quarta classe para ir servir para o Porto, para casa de uma família rica, mesmo ali na Rua Costa Cabral, onde os Jardins do Marquês se cruzam com a Rua da Constituição.

Maria da Graça fez 17 anos no mês passado. Ninguém diria. Aquele aparato que a farda lhe dá, o cabelo apanhado como viu no Almanaque de Fevereiro a copiar as socialites da época, dão-lhe um ar bastante mais velho. Só o sorriso envergonhado e acompanhado pelos ombros encolhidos, lhe trai a idade. Sim. Parece bastante mais velha. E o Dr. Osório também acha. Aos Domingos de manhã, finge sempre algo importante para resolver, um negócio iminente que não pode esperar, e engana a família que o sabe ganha pão da casa. E existe sempre fartura de pão naquela casa. É então numa dessas manhãs frias de Domingo que encontramos Maria da Graça a encher a banheira do Dr. Osório.

Mas o rubor acentuado da sua cara, do seu pescoço e dos seus braços, não se deve desta vez ao esforço de carregar baldes de água quente escadaria acima. Desta vez não. Desta vez o Dr. Osório levou avante os intentos que lhe foi tentando contrariar nos últimos Domingos. Maria da Graça ainda dormitava quando ele lhe entrou no quarto. Azar dos azares, não estava de momento a partilhar quarto e ele sabia. Não faltaria muito para que o resto dos empregados da casa se levantassem, mas o que ele ali vinha fazer, não demoraria mais do que uns minutos.

E assim fez. Maria não teve hipóteses de se esquivar. Por entre lágrimas e ranho, e uma mão que lhe tapava os gritos, Maria via o Dr. Osório num frenesim entre as suas pernas. Foi tudo muito rápido. O dedo que lhe colocou na boca a pedir silêncio, e o pedido de água quente para um banho, foram os agradecimentos a que teve direito por dar, assim de bandeja, aquele que achava ser o seu bem mais precioso.

Meses mais tarde, e já com uma barriga proeminente e impossível de disfarçar, Maria foi despedida. Sem dó nem piedade, que vergonha meus Deus, uma empregada grávida cá em casa, o desplante. Na rua e sem nada, Maria manteve o seu silêncio. E assim foi até ao nascimento do filho rapaz. Entregou-o a uma alma caridosa que ali vivia perto. A vizinha Clarinda, que o havia de criar, e a quem chamei Avó até ao dia em que morreu. De Maria da Graça, sabe-se apenas que terá dito um dia querer voltar para a terra, e que terá desaparecido sem deixar rasto. Não viu o dia em que o neto desconhecido lhe prestou homenagem neste texto.

28 thoughts on “A história de Graça, Maria da Graça.

  1. Por vezes a exposição dos nossos bens interiores acaba por funcionar em relação aos outros por osmose.
    Esse é um retrato fiel do Portugal de antigamente – e do qual ainda sobrevivem reminescências – e da impunidade de que gozavam os poderosos.
    Poderoso, o teu texto, Troll…Obrigado pela partilha

    • Vic, depois de ler o texto do teu avô, disse-te que o faria. É daquelas histórias que sempre se soube, se ouviu falar, e nunca se quis contar.
      As coisas são como são.

      Obrigado.

      • Oh, obrigado pelas boas vindas. Já cá ando há algum tempo só não costumo comentar porque confesso o painel de comentadores habituais é tão bom e com os quais me identifico tanto, aliás tal como com o que escreve, que não me atrevo. Hoje foi o dia.
        Parabéns pelo blogue

  2. Uma imagem do Portugal não assim tão antigo. Se houvesse um estudo demográfico de crianças nascidas de situações más como esta, seriam mais que muitas.

    Gostei muito, e fiquei triste ao mesmo tempo. Pareceu-me bastante biográfico. É?

  3. E foram tantas as Graças que assim cairam em desgraça. É um Grande texto, Troll. Muito bom. Não tem graça mas é de facto um retrato fiel dos tempos de então, que agora apenas nos chegam já em discurso indirecto e no entanto constituem parte do cimento que nos molda o ser. Acho que grande parte de nós tem uma costela de Graça no corpo.

    • Anna blue, é infelizmente um retrato bastante fiel. Romanceei ligeiramente a coisa, mas o que é certo, é que se não fosse este infeliz evento, dificilmente estaria aqui hoje a responder-te. E é como dizes. Molda-nos o ser. 🙂

    • Obrigado CP. Não era suposto o texto ficar com esta aura de drama, ainda que sendo o tema tão forte, mas fui escrevendo e assim ficou.

    • Carina, obrigado. Quando soube disto, a revolta acompanhou-me durante anos. Depois passou. A leitura recente do post de um blog amigo, despoletou a vontade em contar.

    • Infelizmente não. Nunca lhe conheci o rosto. Papá Troll também não. A avó Clarinda dizia que eu era a cara chapada dela.

  4. Nem sei o que diga. Este teu texto despertou em mim um misto de sentimentos, todos eles contraditórios uns em relação aos outros.
    Portanto acho que me vou ficar por um simples:
    Good job Troll!

    • Mais do que despertar sentimentos, quis homenagear. Ainda que nunca a tenha conhecido. Mas sim, reconheço que o tema é forte.

      Obrigado, Mónica.

  5. Não queria vir só aqui escrever que gostei muito por isso pensei, pensei e acrescento: Gostei muito… e estava longe de imaginar que tínhamos aqui um Troll tão sensível. 🙂 Para afastar a lagrimeca que se me formou ao canto do olho, vou ter de gozar com a touca da senhora da foto, vou, vou…

    • Alexandra, um Troll é sensível, plagiando o Abrunhosa, “um Troll também chora, quando assim tem de ser”. 🙂

      A touca sei que é da época porque a saquei de um banco de imagens free. Quem me dera ter uma foto dela. Nem isso.

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