A Small Victory

Devotado fã e acérrimo defensor destes meninos, foi com mal disfarçada emoção, quase ao nível de uma criança quando se sabe a caminho da Eurodisney, que comprei o meu bilhete para finalmente os conseguir ver ao vivo. Corria o ano de 2010, e nem o facto de ter sido obrigado a estacionar a demasiados quilómetros do Passeio Marítimo de Algés e fazer o caminho todo a pé, foram suficientes para me retirarem o sorriso traquina do rosto. Ia a caminho de um dos concertos da minha vida, depois de Opeth em Londres.

Foi uma surpresa não ter ficado chateado com o facto de Alice In Chains,  se apresentarem em palco com tanta ou mais pica para tocar do que antes, já sem o fantasma Layne Staley por perto. O novo vocalista faz um trabalho bastante decente, e do que eu gostava mesmo era das back vocals do Cantrell e essas continuam iguais. O tempo passava-se entre tendas, ora para espreitar a maluca da Florence, ou o tipo com ar de ganzado surfista do Devendra. Era apenas mais um na multidão de desconhecidos, e sempre à espera dos mestres. A noite chegava e com ela um inesperado frio.

Deu tempo para quase ficar com uma erecção quando a Anneke subiu ao palco para cantar com os Moonspell, e para comer duas bifanas a preços astronómicos. Gostei bem mais da Anneke, mesmo nunca lhe tendo comido a febra. As bifanas estavam salgadas. A Anneke saltou tanto que suava, e eu fazia apostas mentais sobre se a pele dela estaria mais salgada. E isso explica um pouco o motivo da quase erecção do início deste parágrafo.

Já passava meia hora da meia noite, quando se acenderam as luzes a anunciarem a entrada do Mike e dos amigos. Foi o delírio. Meu e da multidão. Saltei e cantei as três, quatro primeiras músicas. E depois parei. Ouvi mais duas. De seguida senti uma necessidade horrível de me sentar. Estava cansado. Muito cansado. E acabei por me vir embora antes do fim do concerto. Já nem a imagem da Anneke aos saltos e a suar me conseguia animar. Foi a 8 de Julho de 2010 que me senti a envelhecer e que a partir dali nunca mais ia aguentar um concerto inteiro a abanar a cabeça.

18 thoughts on “A Small Victory

  1. esse cansaço recorda-nos que já não temos 20 anos.
    tem-me acontecido de há uns tempos para cá. chego a 3/4 do concerto e já me sinto cansado.
    comecei a adoptar a táctica de ver, de verdade, o concerto. sossegado com a minha cerveja na mão, headbanging q.b. e apreciar o espectáculo e os putos a correr lá à frente.

    • É inevitável, du.
      Para além de serem cada vez menos, os concertos a que me convenço a ir, dou por mim a analisar as hipóteses de me conseguir sentar naqueles a que vou. 🙂

  2. Eu acho que muitos aguentamaté ao fim essas maratonas à custa de uns speeds. Confesso que nunca fui grande fã desses festivais, prefiro o concerto clássico com um grupo (ou um cantor solo) e um menos famoso a fazer a abertura. Mesmo nesses estamos sujeitos a muitos precalços e a máozinhas marotas, e então assistia (agora não vou, simplesmente) sempre bem encostadinho a uma parede.
    E nunca tive nenhuma erecção, até porque aquilo é sempre muito macho aos saltos, e esses não me provocam reacções desse género.

    (claro que as mãozinhas de que falo são de carteiristas, nada de más interpretações 🙂 )

    • Era quase obrigatório uma ganza nos concertos, Vic. Fosse nas poucas vezes que estive em palco ou na grande maioria como espectador, era quase mandatory. 🙂

      Já tive amigos a serem gamados, nunca me aconteceu.

  3. Ai a PDI, a PDI… Deixa lá, eu nem te digo há quanto tempo não vou a um concerto para não me humilhar publicamente. Mas acredita que não és só tu a dar conta que isto já não é o que era.

    • Anna Blue, hoje em dia já tenho de filtrar muito bem aquilo a que vou. E são de facto muito poucos. Este ano por exemplo ainda só fui a um. 🙂

  4. Isso já não é de agora. Mas pessoalmente já nem é tanto pelo cansaço físico. Já não me revejo naquela malta nova no meio de poeira sem fim e pingos de suor por todo o lado. Prefiro e faço por ir a concertos onde possa estar sentada a apreciar.

    Também estive no Alive esse ano. Fui no dia 10 para ver Pearl Jam. 🙂

    • Nem me fales disso. Foi muito complicado abdicar da ida no dia 10 para ver Pearl Jam. Mas fui pragmático no que ao guito diz respeito e, pesados os prós e os contras, ganhou a diversidade do dia 8.

      De poeira, tirando queima das fitas, não tenho grande experiência. Nunca fui ao Sudoeste, por exemplo.

  5. Também lá estive 🙂

    Os Alice in Chains já não são os Alice in Chains e, como dizes, só nas faixas em que o Cantrell canta é que a coisa ainda faz sentido. Em fase anterior dos concertos desse dia, só mesmo ouvir um ou dois clássicos dos Machine Head e ver o viveiro em que consiste a plateia de Florence & The Machine e mais tarde XX.

    Em relação aos FNM, enquanto o Mike Patton mantiver a qualidade que tem como frontman, o passar do tempo também fica mais ténue do lado da plateia. Orgulhava-me de ter ido ao último concerto deles, no Coliseu quando a banda “acabou” depois da tournée do Album of the Year mas depois tinham voltado, tinham vindo ao Sudoeste, que eu falhei e tinha dúvidas se voltaria a ver. Tive sorte e esse Alive deu-me essa alegria.

    Tal, como em salvo erro 2008, quando os Rage Against The Machine vieram pela segunda vez a Portugal depois de eu os ter visto em 1996, em delírio quase infanto-juvenil.
    No dia a seguir sim, sinto que a idade atrasa “um pouco” a recuperação mas, levado pela música, ainda me arrisco a números artísticos 🙂

    • Mak, o Mike é um entertainer por excelência. Quando está bem disposto, puxa como poucos pelo público. Em 98 não os consegui ver, sempre tive aversão ao Sudoeste, por isso tinha mesmo de ir ao Alive. Só tive pena de me sentir tão cansado e em baixo de forma nesse dia.

      Eu já sou muito coninhas com concertos e dou por mim a pensar na hipótese de me conseguir ou não sentar. 🙂

  6. O Devendra Banhart tem uma pinta do caraças. 🙂 Tive pena de não o ver nesse concerto.
    Sim, os day after dos concertos das bandas preferidas são chatos e tal, mas não se leva muito mais desta vida. 🙂

    • Fiona, a Natalie Portman também acha, que já por lá andou. 🙂

      Não sei o que me custa mais nos day after, se o cansaço, se o piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii nos tímpanos que nunca mais termina. 🙂

  7. No way! A sério que vieste embora sem ver o fim? Eu andei por lá aos saltos, também. Percebo o cansaço, senti-o o ano passado cinco minutos antes do concerto dos Arcade Fire começar no SBSR, mas assim que a música começou esquecesse-se o desgaste do corpo e o prazer da mente compensa. Se bem que o du tem razão, agora vejo mais e pulo menos. Também me sinto a envelhecer, geralmente no dia a seguir a ter bebido uns copos a mais.

    • Sofia, true. 🙂
      Estava desolado, mas ainda mais cansado. Devia ter sido mais comedido em Alice In Chains. Isso, e minimamente em forma, o que não era o caso.

  8. Eu, garota dos tempos de Faith no More no Campo Pequeno, de levar com uma bota da tropa no concerto de Smashing Pumpkins (só nós os que vivemos o grunge dos anos 90 é que dizemos Smashing Pumpkins, os putos abreviam para Smashing, tal como abreviam tudo) e dos 30 ou 40 que ouviam Temple of the Dog e Madder Rose, senti esse “envelhecer” de que falas no concerto de Editors no Campo pequeno. Tive de me sentar nas bancadas. No ano passado, esta condição e “idosa ” tomou proporções ainda piores quando mandei calar por várias vezes, os putos que não me deixavam ouvir Portishead e Arcade Fire.

    • Sara, bem-vinda.

      Temple of the dog…nice. 🙂

      E pensar que houve um tempo em que até para o mosh pit eu ia.
      Agora é como dizes. E se calhar em ser um concerto sem grandes chances de me sentar, sou gajo para me abancar no chão. -_-

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