Amanhã, em La Lys

Durante muito tempo usei umas palas enormes. Era um asinino de raça autóctone das Terras de Miranda e não sabia. Achava que tinha estofo e arcaboiço para ser um fuzileiro. Perdi centenas de horas de infância a preparar os meus combates com os tropas de plástico, e dos quais saía sempre vitorioso, qual Patton no cerco de Bastogne. Deixei que Mamã Troll e Papá Troll me perdessem no Museu da Marinha, da primeira vez que vim a Lisboa, só para poder apreciar condignamente as reconstituições de batalhas navais. Encontrava no ideal de militar, um conforto e segurança, que me assegurariam um futuro. Filho de militar de carreira, achava que ir para a tropa é que me faria homem. Afinal bastaram as minhas vizinhas. De baioneta sempre em riste, desbravei trincheiras de diferentes formas e feitios, e vitorioso, voltei à Pátria amada. Eram poucos, os metros que separavam os milheirais e as casas delas da minha, e não havia snipers a atrapalhar.

A importância de uma carreira militar na minha vida, teria actualmente uma importância semelhante à da trincheira da Paula. Sei que lá estive, mas as imagens desvaneceram-se por completo. Acho que na altura gostei. Não lhe queria retirar importância (à vida militar), mas a verdade é que muito provavelmente hoje estaria morto. Só eu sei (e o Tolan), como fico quando me sinto encurralado por um T90 no Caspian Border, no Battlefield 3. Teria desatado num frenesim de mortandade tal, que ao inimigo, não sobraria alternativa que não, a de me abater sem dó nem piedade.

Tive vizinhos que partilhavam comigo esse gosto, quer pelas trincheiras das vizinhas,(não ao mesmo tempo), quer pelos militares, e alguns deles acabaram por fazer carreira militar. Dois Rangers (daqueles que andaram na Bósnia, e no Afeganistão a ganharem uma pipa de massa), dois fuzileiros, um mecânico na Força Aérea, e um gajo que abriu a pestana e foi para a Faculdade. Este último sou eu. E esteve quase, quase para ser entrada directa via pupilos do Exército. Mamã Troll não deixou, e nunca lhe poderei ser suficientemente grato.

A tropa não era para mim. Veja-se La Lys. Sim,sim, eu sei que os tempos são outros e a tecnologia é mais que muita. Mas o nosso desgoverno continua por cá, provavelmente agora ainda mais. Nem o soldado Milhões me poderia valer nas trincheiras. Prefiro-me assim, cobarde mas vivo, jovem Padawan do Dual Shock, em guerras entre LED’s em HD.

 

41 thoughts on “Amanhã, em La Lys

  1. Tendo passado a maior parte da minha infância na Força Aérea, já que ambos os progenitores lá trabalhavam, também foi coisa que me passou pela cabeça. Desisti a tempo, não era para mim. Nem para os jogos tenho jeito.

      • Também eu me via como militar. Mas também me passou. Cresci e vi que não me enquadrava ali.

        Quanto a jogos de guerra, dão-me cabo dos nervos, de vez em quando ainda vá, mas por sistema prefiro outros 🙂

  2. Isso de “brincar” nos milheirais, não fazia comichão? Lembro-me de o fazer e ficar toda arranhada. Não o que tu fazias com as vizinhas, mas correr. 🙂

    Acho que todos os miúdos sonham em fazer guerras. Depois passa.

  3. “Tive vizinhos que partilhavam comigo esse gosto, quer pelas trincheiras das vizinhas,(não ao mesmo tempo), quer pelos militares”
    Quando li esta tua frase pensei: Olha, ele também tinha vizinhos destes. Tive uma vizinha que também tinha uma tara por fardas e aviou o quartel de bombeiros quase todo 🙂
    Mas depois li o resto.Enfim, acho que tenho que ir ao médico.
    Também acho muito melhor a tua opção. Sou ferozmente anti-fardas, sabes? Os meus tempos de tropa foram maus. Se já não gostava por princípio, depois passei a não gostar também pela experiência.
    O meu avô materno esteve em La Lys. Veio de lá gaseado, contaram-me que nunca mais foi o mesmo. Matou-se com um tiro no peito quando a minha mãe tinha 2 anos. Tenho em minha posse o relatório da autópsia. Um dia hei-de falar nisso lá pelo blog.

    • Vic, um avô em La Lys? Respect. Gás Mostarda era terrível para os pulmões. E tudo o resto não deverá ter feito melhor à alma.

      Acabei por não ir à tropa. 🙂 Mas fui 2 vezes à inspecção. Tem de contar para algo.

    • Eu gosto da força Aérea, e houve uma altura em que trabalhei no aeroporto e varios rapazes que lá trabalham (na placa, operaçoes, bagagem, etc) estiveram na força aerea, e dos que falei, todos adoraram, sao super nostalgicos a respeito disso. Penso que está tambem relacionado com os avioes em si, ha muitos amantes da aviação e tudo o que esta relacionado com isso.

    • Foi só por acaso, Alexandra. Assisti ao video dos fuzileiros e tudo. Mas felizmente fraquejei.
      Ou seja, se na Marinha, pudessem andar todos a la Captain Jack, até te terias alistado. 🙂

      • eheheh! Os marinheiros têm hábitos muito cu riosos, Troll. Deixa lá que ias bem. É possível é que nos primeiros dias te tivesses que sentar num pneu. 😉

  4. Coincidência ou não, quase todos os militares que conheço têm alguma pancada. São pessoas muito estranhas e com um mundo muito próprio. Eu gosto de alguma excentricidade, mas…

    • Anna Blue, também conheci alguns, e é um pouco como dizes. Então aquela malta que viu coisas más na Bósnia e no Afeganistão, tinham a mania.

      Já dos que estiveram no Ultramar, papá Troll incluído, pouco sei. O meu não gosta de falar no assunto.

  5. “A importância de uma carreira militar na minha vida, teria actualmente uma importância semelhante à da trincheira da Paula. Sei que lá estive, mas as imagens desvaneceram-se por completo.”

    Então andaste a espetar a foice em seara alheia e agora cospes no prato? 🙂

    Mais a sério, já tive um namorado marinheiro, e não é fácil. Durante alguns meses só o via pela Internet. Quando voltava, ao fim de uns dias já stressava com tudo e todos. A tropa não lhe fazia bem. Não deu certo.

    • Eish, Fiona, não cuspo nada. Só que já se terão passado perto de 20 anos. Por mais que me tente lembrar, não consigo. E sim, eu sei que as trincheiras não são todas iguais. 🙂

      Relações à distância são complicadas, por mais que se goste.

  6. A minha tropa foi um dia. Uma manhã inteirinha. 4h, pronto. Já vim almoçar a casa e tudo. Diz que eu não servia,e tal. Felizmente. Tinha acabado o curso e emprego à espera da tropa resolvida. E pimbas, fui logo trabalhar.
    Assim, de fardas o máximo que tive foi a dos escuteiros 😀

    • Rainha St, não era vida para mim. Não lido bem com demasiadas hierarquias, e ia esquecer-me de fazer continência a todos aqueles tipos. E depois, sinto-me sempre esquisito de cabelo curtinho. 🙂

  7. Sempre achei que as maes portuguesas se os filhos iam para a Bosnia, iam lá directamente busca-los com um puxao de orelhas a dizer ” mas onde é que tu vais sem a minha autorização, vai ja para casa e come os legumes todos, se nao levas!!!”.
    Nunca percebi como é que aqueles miudos de 18, 20 anos se safaram delas.

    • Nem todos freeculturelisbon. Um dos que refiro ali no post, veio com um envenenamento por chumbo, e nunca mais ficou igual. Sim, ganham muito dinheiro, mas não existe dinheiro suficiente que justifique arriscar a vida.

      • Não nos esqueçamos da quantidade de militares que temos atrás de secretárias a ganhar muito mais do que civis igualmente habilitados (falo de trabalho administrativo, por exemplo). Assim rende estar na tropa.

  8. Quando eu era puto o meu museu preferido era o da Marinha. Nunca me fartava e às vezes ainda vou lá mostrar aquilo aos meus primos mais novos. Infelizmente La Lys, por seu lado, desperta-me sentimentos muito tristes. Milhares de Portugueses sem equipamento numa guerra que não era a deles, a fazer de carne para canhão. Um capítulo muito triste, na minha humilde opinião.

    • É um pouco por aí. Acho que é uma página negra da nossa história recente, que tentam constantemente chutar para canto. Mas deveria ser exactamente o contrário. Hoje em dia é um bocado mais do mesmo. Embora melhor preparados, continuamos a mandar malta nossa para cenários de guerra que não são os nossos, e só para não dizerem que não fazemos nada.

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