Bacalhau com Broa, o Ikea, e a mulher do outro

Ouvido ali naquele restaurante pequeno entre o Marquês e o Saldanha, sim, esse mesmo, o que faz um bacalhau com broa espectacular por cinco euros e cinquenta sem bebida, e te dá sempre um bocadinho de bolo com o café no final, o que te permite poupar na carteira e no bucho, sendo que em alternativa, ias por certo comer uma monstruosidade de mousse ou o caraças.

Dizia então ele para o amigo, na mesa atrás de mim: “Pah, então fomos para casa dela, tás a ver, e às tantas já nos comíamos que nem cães no sofá da sala. Mas era bué desconfortável mene, devia ser do IKEA ou o caralho. A dada altura estamos a dar-lhe à grande e eu a olhar para os móveis da sala. Aquilo devia ser da BOconcept ou Antarte porque tinha alta qualidade mene, pelo sofá não diria mas a gaja deve ter bué da papel.”

E fiquei sem saber o que pensar. Primeiro, porque o bacalhau com broa me leva a cometer o pecado da gula uma vez por semana, e me incomodou ter de rir com aquilo e com um bocado de bacalhau que foi para o lado errado e me fez tossir. E depois porque foi um momento à Querido Mudei a Casa, mas versão porno rasca. E fiquei a pensar o quão desactualizado estou. Para mim uma queca ainda tem a importância que tem. Ainda é um momento que tem a sua simbologia de intimidade pura entre dois seres e um gajo até se aplica porque dar e receber é o melhor e yada yada yada, e depois vêm estes gajos, imbuídos do melhor espirito SIC Mulher, e fazem análises interesseiras do décor enquanto estão a dar uma. Ultrapassados, digo-vos eu, estamos ultrapassados.

20 thoughts on “Bacalhau com Broa, o Ikea, e a mulher do outro

  1. Troll, ultrapassados por tipos desses? A olhar para a mobília em vez de aproveitar? (seria algum esforço?) O mundo está perdido. Por essas e por outras é que mais vale estar quieta… Agora, são eles que são bons a ‘enganar’ ou são elas que já nem se importam? Ou um pouco das duas?

    Deixa-te estar assim 🙂

    ps – (ahhhhh bacalhau com broa, tenho de ir investigar isso um dia)

  2. Ahaha, muito bom!
    Quer dizer o mene em vez de minimamente interessado no acto, e empenhado no mesmo, porque tal como referes “yada yada yada”, e em vez disso sabe as marcas do mobiliário todo etc…

    Ainda bem que ele não abriu a boca enquanto estava com a mulher, senão nem apreciava (se é que o fez) a queca, nem o mobiliário com palavreado desse… e um homem perceber tanto de mobiliário e depois falar dessa maneira…
    Não te sintas ultrapassado, sente-te antes orgulhoso por não seres aquela figura… 🙂

    • CP, desconheço os pormenores, ele teve o bom senso de omitir se estava a ser bom ou não. Não sei se estava a ser bom ou não.

      Mas quer-me parecer que é sintomático do estado materialista da sociedade, ou de uma facção da mesma.

  3. Ahahahahah! Bem, esse mene é um cromo mesmo. Mas, para ele dar tanta importância à mobilia, das duas uma. Ou a queca não era assim tão boa. Ou o moço tem queda para o outro lado e ainda não se assumiu.

    “momento que tem a sua simbologia de intimidade pura entre dois seres”, não me parece, de todo, algo ultrapassado, Troll. E o aplicar-se porque “dar e receber é o melhor”, também não. Fica descansado 🙂

    • Mam’Zelle, já vi que, pelo menos nisso, somos velha guarda. 🙂

      Assusta-me é pensar que de facto, exista malta que banaliza o sexo ao ponto de se distrair com decorações.

      • Fosse como fosse a situação em si exigia do homem outro tipo de (des)concentração, não?? Ao que o mundo chegou……não hão-de elas passar a vida a queixarem-se!

        (dum gajo que diz “mene” palavra sim palavra sim não se podia, no entanto, esperar melhor, não?)

  4. O 1º sofá da minha sala era exactamente igual ao da foto, e posso assegurar que não era assim tão desconfortável para a brincadeira. O klippan sempre passou no teste 🙂

    O que me ri!! 🙂

    • 🙂
      Desculpa Fiona, o Klippan é o ex-libris dos sofás IKEA. Foi a primeira imagem random que saquei.
      Mas apraz-me saber que pelo menos este modelo sempre serviu os teus propósitos. É uma boa publicidade para eles. 🙂

  5. Boa, como se uma mulher já não tivesse coisas suficientes com que se preocupar numa situação destas, ainda faltava isto…mas por outro lado se as mobílias afastam a atenção da celulite…

    • RBM, os amigos gozaram com ele, e o assunto morreu por ali, pelo menos não consegui perceber mais nada. 🙂
      Mas o facto da mulher ser uma personagem secundária na história que ele contava, e serem o sofá e o recheio da sala a brilhar, já faz do tipo um verdadeiro paspalho.
      Não quero acreditar que os yuppies são todos assim.

  6. Acho que não estamos ultrapassados! Acho mesmo é que há gajos que são uns palermas, que nem tem a percepção do que realmente querem. Neste caso o interesse no “papel” da senhora era superior ao interesse de uma boa noite de sexo. Depois vêm gajos queixarem-se que as mulheres fingem orgasmos…Imagino a rapariga, a pensar para onde estaria a olhar em vez de se aplicar e desde logo pensou que o melhor era dar seguimento à coisa e a ele também.
    Se eu ouvisse isto num café, engasgava-me de tanto rir. Em relação ao bacalhau com broa, nem me fales nisso, é simplesmente divinal mene (teve de ser ;).

    • Sol, o “mene” era dele, não meu. :p

      Eu até posso gostar de um aparador da BOConcept, que gosto, sim senhor, de tal forma que até tenho um em casa, dai a ficar a apreciar um novo modelo ou coisa que o valha, quando tenho por perto umas pernas abertas, não me parece.

      Banalizar a este ponto é revelar como alguns pensam. Sexo nunca pode ser trivial. Ou melhor pode. 🙂 Mas sempre com empenho.

  7. Caríssimo, estão-se a inverter (salvo seja) os papéis. Antes, eram os homens que se queixavam que as gajas só lhes faltava comerem tremoços durante a pirocada. Outras, diziam para eles se porem noutra posição para elas poderem ver a novela…Como vês,uma vez é da caça, outra do caçador.
    Agora. só não percebo é como o gajo consegue gozar ao mesmo tempo que admira a paisagem…

    • Vic, tinha de conhecer a história toda. Não ouvi tudo.
      Mas um gajo que “desliga” naquele momento para ver o que se passa em volta, é parvo. Não percebi quem caçou quem. 🙂

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