It’s my party, and I’ll cry if I want to

Nunca soube a fórmula certa para se dar uma festa de sucesso em casa, daquelas de arromba de que se fala durante os meses seguintes, à filme teenager americano, com barris de cerveja, beer pongs e miúdas giras em bikini. Isto porque nunca dei uma festa em casa dos meus pais em miúdo. Sempre quis mas nunca tive coragem. Lembro-me de os meus pais saírem de casa com alguma frequência, para fazerem coisas de pais que não queriam que os filhos ouvissem, e até ficava sozinho de uma dia para o outro, sendo que o meu irmão, mais velho, já não morava lá em casa. Não ousava sequer imaginar um magano a vomitar as carpetes, ou podre de bêbado, atracado à perna de um sofá a fazer o sexo, ou a descer a escadaria na gaveta de uma cómoda. Um casalinho apanhado em flagrante em cima das imaculadas cobertas lá de casa a lambuzar, isso então, era inimaginável.

Já adulto e a dar festas em casa própria, esse encanto das festas camones desvaneceu-se por completo. Agora é copos de bom vinho tinto com base para não sujar o aparador, conversas em torno do fogão, de como vai a vida e o Benfica e o trabalho e tal, enquanto se termina a entrada de revuelto de setas. Um ou outro puto traquina a espalhar brinquedos, porque agora os há em barda, e uma playlist com som ambiente cool a bombar na soundbar, (inserir aqui patrocínio Spotify). A festa termina quando os putos começam a ficar rabugentos do sono, e quando te apercebes que o quinto copo começa a bater. A conversa estava boa mas não houve beer pong. E vais para a caminha com a miúda. Que ainda é gira como sempre, mas que não é a desconhecida que nem imaginas como conseguiste engatar.

Em baixo, exemplos de festas fixes, com música ainda melhor a acompanhar.

A curious case of inner satisfaction

Antecipo a repetição de uma nova fase em algumas semanas. Muito poucas. Agora mais conhecedor, ligeiramente mais sábio no que ao tema diz respeito, sinto-me capaz de levar a bom porto esta nova demanda. Mas os níveis de ansiedade também aumentam e quando isso acontece viro-me para o Doom. Sei que vai tudo correr bem mas sou um crónico pessimista. O mid tempo acalma. A mim pelo menos. Estes WindHand são um caso aparte. Não são doom mas parecem, consideram-se orgulhosos stoners . Mas se me fixar nos acordes e na melodia da voz, consigo ouvir o gótico dos Type O Negative, e o refrão parece ter sido sacado pelo Billy Corgan na sua melhor fase grunge.

Gostava de ter tempo para escrever amiúde aqui, mas a verdade é que não me apetece. A desculpa oficial até podia ter sido:

a) andar nos últimos três meses a escrever artigos pagos para sites de turismo, algo que me deu contido prazer

b) Perdi-me na subida ao Naranjo de Bulnes e durante todo este tempo sobrevivi comendo apenas nutritivas caganitas de cabras selvagens enquanto bebia, sôfrego, o leite das suas pequeninas tetinhas.

c) Fui convidado para ir pescar caranguejos gigantes no Alaska, ali para os lados das Aleutas. Gostaram tanto da minha técnica que me convidaram para voltar no próximo ano.

Idiossincrasias

Eles aproximam-se demasiado de mim, no metro, no elevador, em locais pouco arejados e abafados, e aí fico ligeiramente perturbado, e coloco um dedo a marcar o livro do momento, que hoje é o “A Morte do Pai” do Karl Ove Knausgard e paro de ler. Eu nunca uso o dedo como separador, tenho um em metal entrelaçado que trouxe da Irlanda e me custou umas 3 libras. Odeio que se aproximem assim de mim mas sei que é uma inevitabilidade da hora de ponta, e mesmo os decotes generosos e ligeiramente suados de Verão me incomodam. Como a morte. Também é inevitável mas tendo sempre a pensar que ainda vem longe, quando na verdade pode estar já ali em cima à espreita, numa passadeira da Fontes Pereira de Melo. Não me vou alongar na questão da mortalidade, que me transtorna. Este Karl Ove tem umas ideias muito fixes em relação a isso. Já agora fica o conselho.

Achava que a idade já me tinha curado do pormenor da aproximação humana à minha pessoa. Somos todos animais sociais mas nem todos desenvolvemos as skills necessárias para viver em sociedade, ou então demoramos muito mais tempo. Eu até fui bastante precoce nisso, aos 8 já andava nas cabanas improvisadas com as minhas vizinhas a brincar às casinhas, aos 15 já cantava no coro da Igreja, aos 18 já tinha bandas e andava entre concertos e festivais locais a socializar. Mas agora, nos trinta e muitos, algo mudou, e eu sei reconhecer um retrocesso quando o vejo. Fujo de multidões, fujo de conhecidos, recuso convites de amigos. Da minha toca vejo as janelas suburbanas dos meus vizinhos a socializarem com os seus amigos e conhecidos e tenho ciúmes porque já fui assim. Se calhar preciso de ajuda e nem sei.

A letra é merdosa, sempre a falar do solinho a brilhar, a sua luz no no trombil, do Céu e o caralho, e a música nem é brilhante, sempre em D, C, G, acordes de caca, mas misturando tudo e levando ao forno em lume brando fica uma cena audível. Eu tocava isto para caraças. Aliás, quando ainda não tocava originais, esta estava sempre nas nossas playlists. Na altura em que era sociável.

Better late than never

À sua frente estavam as escadas que lhe iriam permitir sair da escura e húmida cave. Aos apalpões, o nosso herói decide-se por parar momentaneamente junto à parede viscosa que acabou de apalpar. Câ nojo!! Tenta adaptar a visão ao breu. Não é fácil. Sobretudo não dar passos em falso, isso podia deitar tudo a perder. E é tão fácil falhar um passo que se quer em frente. Acima de tudo nas caves onde o espaço é curto. O ar que lhe sai dos pulmões condensa-se em contacto com o frio, e um leve vapor assoma-se-lhe aos olhos. Isto é apenas possível porque o vislumbre de uma luz surge uns três metros à frente. Ténue, mas suficiente para lhe dar esperança.

Vou sair da cave. Já é mais do que tempo.

 

Gosto muito da música ali de cima. Da miúda também.

Two kidney stones walk into a bar

20140923_083013

O barman pergunta: “Bom dia! O que vão tomar?” Ao que as pedras respondem com um sorriso sarcástico: “Oh, nada! Estamos só de passagem”. E era tão bom que esta anedota, como na vida real, funcionasse da mesma forma. Mas não. No mês passado penei aqui um dia e meio para me tirarem um calhau que ficou preso no ureter. Doeu como o raio, mas como experiência social foi fixe. Tinha um velhote asmático e casmurro à minha esquerda, e em frente, um tipo que comia por uma palhinha porque se partiu todo numa queda de mota. Tirando a parte em que o motard remendado sorvia a sopa de nabos por uma palhinha, ninguém dava por ele. Alternava dormitar com olhares ininterruptos para a Sic Notícias. Visitavam-no constantemente as filhas e os namorados delas. Olhavam-me de lado. Mais os namorados. Com um pijama gasto, emprestado pelo hospital, e a minha barba de meses, devia parecer-lhes um sem abrigo a quem foram deixar à porta do hospital. Nem lhes passou pela cabeça que ninguém deixa malta sem abrigo às portas de hospitais privados. Já a filha do velhote asmático, ofuscava-me os olhos de cada vez que o veio visitar, tal era a camada de bling bling espalhada pelo pescoço lisinho, benesse de um mais do que provável lifting.

Já em casa, sofri um bocado, as dores de ter um stent são bastante random. Alguma malta usa-o como se de um acessório de moda se tratasse, outros sofrem um bocado, enfiando analségicos à bruta pelo bucho. Como não podia deixar de ser, o meu corpo é um coninhas e sofre. Isto era obviamente impeditivo de aproveitar o estar em casa para subir de divisão no FIFA15, ou de colocar trinta e quatro filmes em dia. Mas tudo se aguenta, e a fase má, pensava eu, já tinha passado. Jurei a mim próprio fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para não voltar a ficar nesta situação, vai daí, comecei a beber água decentemente. Mais de um litro e meio por dia. Instalei uma app que me avisa de hora a hora para beber. Acabou por funcionar um bocado como a psicologia experimental do pavlov. Aquela cena apita, eu levanto-me e vou beber água.

E viveram felizes para sempre.

Errado.

A lei das probabilidades é forte por estes lados, e, como tal, desce um segundo calhau pelo ureter oposto. E também não sai. São uns cinco milímetros bastante persistentes. O meu urologista pensava que estava a gozar com ele. Mais uma moedinha, mais uma voltinha, e estou de regresso à casa de partida. Já não me apanham na curva e levo um pijama decente. Só espero não levar outra vez com o motard da palhinha. E que alguém tenha mudado para a FOX. Sempre ajuda a passar mais o tempo.

Penumbra

olho

 

São vinte e três e cinquenta e sete. Estou a limpar os óculos com um daqueles paninhos microfibras que dizem fazer maravilhas pelas lentes com dedadas. É uma mentira de todo o tamanho. Por mais que limpe, acaba sempre por ficar com alguma impureza. Levanto-me para concluir o serviço com um bocadinho de papel higiénico. Não é nenhum segredo de família para limpeza de óculos, por isso partilho.  Na verdade também serve com papel de rolo de cozinha, mas a casa de banho fica mais próxima. Por outro lado dizem-me que o papel dos rolos riscam as lentes. Ainda que não me tenha apercebido, é um facto que aprecio bastante mais a maciez de um papel fofinho, no que ao limpar do rabo diz respeito, do que propriamente a rugosidade do papel de cozinha. Eu sei, eu sei. No fim deste parágrafo, já estarão a pensar na real necessidade da frase que antecede o ponto final ali à direita. Não sei. Estava a falar em lentes e papel, daí a rabos…Quem nunca teve o azar de ir à despensa e se ver privado de papel higiénico, e olhou matreiramente para o papel de cozinha, que atire a primeira pedra.

Mas isto não era nada do que queria dizer.

A meio deste processo, ouço barulho, vozes e risos, no corredor do andar. Aproximo o olho direito, menos míope que o esquerdo, do olho mágico, e tento, em vão, espreitar o mais recente parvalhão que anda pelo andar. É a nova aquisição da vizinha da frente. Talvez a terceira ou quarta este ano. A magana parece andar sempre bastante atarefada e o dia não lhe deve render, por isso deve ser de noite que dá vazão ao que não consegue fazer durante o dia.

Quando chego tarde a casa, ou neste caso assim que coloco o pé fora do elevador, tenho por hábito evitar fazer barulhos desnecessários. Aplico a máxima do não querer que me façam a mim. Odeio que esta malta nova tenha perdido alguns dos pequenos valores sociais que fazem de nós, seres melhores. A merda da luz de presença não acende, por isso apesar de saber exactamente quem ali está, não os consigo ver. Algum copo a mais, uma pastilha a mais, e já se acham sozinhos e senhores do seu pequeno mundo. Procura as chaves, não encontra as chaves, ri, procura outra vez, ri ainda mais alto. O canito do lado de dentro da porta apercebe-se da presença da dona e ajuda à festa com os latidos do costume.  Dou por mim a acender a minha luz de presença e a exclamar um -Pouco barulho, caralho!!-  Sinto-me neste momento ainda mais surpreendido do que eles. Raramente falo antes de pensar. Calam-se, entreolham-se, e ela pede um atabalhoado -desculpe vizinho- virada para a minha porta, enquanto ele exclama um -LOL?– entredentes. Quando a incultura social e a falta de educação, dão as mãos e me batem à porta, tendo a reagir mal. Às vezes até me surpreendo a mim mesmo.

 

Crazy Horses

Tive ontem uma epifania que decidi ser passível de partilhar com o mundo. Não foi uma daquelas epifanias brutais que nos provocam um baque nos sentidos, como se tivéssemos resolvido o mistério do filme x quando ainda mal o corpo da vítima está a arrefecer e já descobrimos quem foi o assassino, ou mais recentemente quem era o ardiloso agente alemão infiltrado na finca cubana do Hemingway, no “Clube dos Patifes” do Dan Simmons, o romance que eu julgava misturar sabiamente factos verídicos com a imaginação do autor, e que vim agora a saber que faz uns rip offs descarados ao “To Have And Have Not” do malogrado barbudo americano. Adiante.

Em 1992, papá Troll compra finalmente uma aparelhagem de som. Era um pedido de todos os natais, calhou ser naquele. Não era uma qualquer, era uma Technics enorme, um mastodonte com vidro espelhado que cabia no canto da sala e tinha umas colunas igualmente mastodônticas a condizer. Gira discos com agulha ponta de diamante, enfim, the whole shebang. Ele tinha uma colecção enorme de vinis 45 rotações que conseguiu trazer de Lourenço Marques, sem que tenha sido roubada no transporte, como aconteceu com quase toda a sua colecção de peças em pau preto. “Problemas alfandegários”, culpa dos retornados, segundo lhe disseram. Passei a ouvir aqueles 45 rotações com bastante frequência, o que serviu para achar que, actualmente, a minha cultura musical dos anos sessenta e setenta, bate a maior parte da malta da minha geração. Bem vistas as coisas, o meu gosto pela musica não começa com as k7’s dos The Cure que o meu irmão levava para casa, mas antes com estes vinis. Por entre vários Suzy Quatro, Procol Harum e Demis Roussos, estavam dois vinis que tornavam, (e talvez ainda tornem), aquela colecção especial e possivelmente valiosa. Um single dos Pink Floyd, a “Money”, retirada do álbum “The Dark Side of The Moon”, e o 45 rotações de uma banda de que nunca tinha ouvido falar, The Osmonds, com o single “Crazy Horses”.

Vinte e dois anos depois, ainda me lembro frequentemente desta música quando penso em cenas antigas. Ontem um pequeno circulo completou-se, Estava a ouvir Led Zeppelin no youtube, e a terceira sugestão que o gajo me deu foi qual? Exacto. Fiquei com um sorriso de orelha a orelha porque nunca me tinha ocorrido que poderia haver um video. Existem vários. Os The Osmonds foram considerados putos progídio nos anos setenta, e tiveram uma carreira que ainda dá cartas nos nossos dias. O puto com carinha laroca a tocar baixo, ainda recentemente andava na Broadway a cantar Andrew Lloyd WebberIsto disse-me a wikipédia. Para quem conhece Led Zeppelin, encontra facilmente riffs parecidos, e tal como estes, também os The Osmonds estavam bastante à frente no seu tempo.

 

 

About ageing

Acabamos ontem a noite numa demanda quase insana, em que lhe mostrava algumas das coisas fixes que ouvia no Walkman na escola secundária. Já eram mais do que horas de estar na cama, mas foi mais forte do que eu. Senti que lhe estava a deixar um bocadinho do meu legado musical. Isto aconteceu porque encontrei o meu velho walkman ao limpar umas caixas, daquelas que aguardam pacientemente anos a fio nos armários dos escritórios, que nos lembremos que elas lá estão. A lembrança na verdade está sempre latente, a vontade em mexer-lhes é que é nula. Está assim ao nível da Ibanez RG470 para canhotos, com picks ups DiMarzi0, que envelhece no estojo. Eram DiMarzio porque nunca houve guito para uns Seymour Duncan, mas isso já não interessa para a conclusão desta história.

Achou aquilo maravilhoso, nunca tinha visto uma K7, quanto mais umas BASF de Chrome das boas. Ficou toda excitada com a velha novidade mas o walkman não funcionava e a excitação deu lugar ao desapontamento. Acabámos no Youtube a mostrar-lhe algumas músicas mas não é a mesma coisa. Lembro-me bastante bem desta fase e das faixas que estavam naquela K7. Eram tempos difíceis, era o desmame pós Nirvana. Esta faixa ali de cima, ficava entre a “Pretend We’re Dead” das L7 e a “The Day I Tried To Live” dos Soundgarden. Ainda se conseguem ler os nomes das músicas, imaculadamente escritas a caneta de acetato.

Terminou com um: “Isto é música de papá?” que me desarmou. “Não, respondi-lhe. Pelo menos não de todos os papás. Mas são do teu, por isso são especiais”. Não soube o que lhe dizer mais.