Como se um só Céu não chegasse

Não sou gajo de grandes saídas. Não sou. Nunca fui. Prefiro o conforto do covil. Pode ser bafiento e escuro mas ali toda a gente me conhece. Sair à rua sempre foi um incómodo para mim. Desde pequeno. Ainda gaiato, agarrado à penugem do rabo da minha mamã Sasquatch dizia-lhe sempre: -«Grraaar, aarrrg, grrrar», ao que ela me respondia: «Grrrooommf, ggghhmmarr». As mamãs têm quase sempre razão. Até as Sasquatch. Mas ao fim de uns anos um gajo farta-se de levar com malta sempre a esbracejar, em pânico e a correr à nossa frente. Foi o pêlo que Deus me deu. Não tenho outro.

Quando morava nas montanhas no Norte, parava sempre nos mesmo sítios. A malta já me sabia domesticado, e tirando expressivos olhares de soslaio com o medo estampado, não fugiam. Mas depois deu-se a mudança. Não foi nenhuma migração de Sasquatches que somos poucos mas bons. Mas até o mais assustador de nós precisa de trabalhar que o bucho não se alimenta sozinho. Vim para Lisboa, onde Montanhas é coisa que nem vê-las. Apareceu recentemente um par delas na Casa dos Segredos. Mas na altura não havia nada disso. E nem que me pagassem ia para lá morar.

Reservado como sou, foi com alguma apreensão que aceitei o primeiro convite para ir ao Bairro Alto, esse mítico local de contos e lendas com fauna, por vezes bem mais assustadora que este vosso humilde Sasquatch.

Sabia mais ou menos o que me esperava. Era suposto irmos para um bar. Um conceito humano para covil. Ao passar na Travessa da espera, junto ao bar Sétimo Céu, dou por mim a ser olhado. Nada de estranho. I’m used to it. Mas, estranhamente sorriam para mim. Quando estás a vida toda habituado a que fujam de ti a sete pés, é estranho. Parei meio embasbacado. Olhei para aqueles humanos. O sorriso mantinha-se. Na minha cabeça havia ali qualquer coisa de errado. Fujam seus parvos. Não fugiram. Olharam-me para o pêlo. Senti-me bem, retribui o sorriso, um provável esgar que se terá assemelhado a isso. E continuei o meu caminho para o covil. E foi assim que passei a gostar do Bairro Alto. Não porque aquele grupo de humanos do mesmo sexo me sorriu, mas porque o Bairro Alto é mesmo assim. Estás dentro da fauna. És só mais um. Sasquatch ou não. Sem diferenças. Com muito ou pouco pêlo.

Esta partilha da minha primeira ida ao Bairro Alto, não foi um manifesto Sasquatch do que quer que seja. Que eu até vi o Milk e adorei. Tivesse eu uma costela homossexual e teria ficado excitado com o bigode do James Franco.

10 thoughts on “Como se um só Céu não chegasse

  1. A tolerância é uma coisa muito bonita. Já o Bairro Alto tem os seus dias. Basta teres o azar de te cruzar com uns bald headed warriors mal humorados que não gostem do cheiro do teu pelo, para poderes passar um mal bocado. Aquilo é muita fauna diferente para o meu gosto, e eu sempre gostei de saber donde vinha o perigo para não levar com uma bola de golfe na cabeça.
    Portanto, prefiro o Bairro Alto de dia. E o covil ou avenidas bem iluminadas à noite. E sem levar comigo o cartão de crédito

    Vic
    (http://aruainclinada.blogspot.com/)

  2. A um Sasquatch aconselharia ficar em casa… O Cais do Sodré, desde que abriu a Pensão Amor e pintaram o chão de cor de rosa, é a puta da confusão. Mas eu gosto daquilo, nada a fazer. Quem me tira o Viking, tira tudo.
    Depois, na Calçado do Combro, há o Incógnito. Mas o Incógnito é outro nível.

  3. Tinha 18 anos a primeira vez que me levaram ao Bairro. Corria o ano de 1998 e a grande cidade ainda não fazia parte de mim, tinha vindo da terrinha assistir por convite a um evento de uma reconhecida marca de produtos capilares. Nesse ano e após terminar o secundário achei importante ganhar uns trocos e foi o que me lembrei, ir lavar cabeças para o salão de um conhecido meu na altura, tempos idos felizmente que nem de perto a minha ambição de vida ou algo que se assemelhe à minha profissão de hoje. Enfim, após o evento e depois de circularmos um pouco pelo maralhal de gente plastificada e sem importância o mesmo conhecido decidiu dar um telefonema a um nosso amigo comum que tinha vindo para cá estudar fazia uns poucos anos para o avisar de onde estávamos e se andava na noite pois gostávamos de o ver e possivelmente viver um pouco da movida naquela noite antes de voltarmos à terra de sempre. E assim foi, após aquele telefonema a minha vida mudou. O ponto de encontro foi no Bairro Alto onde ele já se encontrava com um grupo de Erasmus, no 7ºCéu. Na altura senti que gostei de tudo, das pessoas, do ambiente, todos coexistiam e tudo se fundia, nunca tinha sentido essa liberdade do ser. Eu que ia espremida dentro de um vestido preto de festa(simples mas não deixava de ser um vestido de festa), logo um pouco aperaltada não senti nem por um momento que estivesse a ser julgada, analisada, o que fosse, simplesmente deixaram-me estar, o Bairro vive de misturas e ninguém pede explicações ao facto. começava a divertir-me e a relaxar quando senti que uma das meninas do grupo me olhava sorridente e fazia questão de me perguntar se estava a gostar, de onde era, o que estudava, e eu sorridente também lá respondia em inglês pois ela vinha da outra ponta do velho continente à aventura do estudo, aproveitando para desbravar novas culturas e era esta a única forma de comunicação. Estava tão cheia de mim, estava na capital, estava na noite, estava no Bairro, estava com gente interessante que já tinha visto tanto do mundo e queriam saber de mim, queriam conhecer-me. Um pouco desta imagem caiu por terra após um encontro a dois(duas) que tive na casa de banho das senhoras do Frágil. A mesma rapariga que antes me tinha dado olhares e sorriso e conversa agora fazia-o cada vez com mais interesse e mais lascívia, foi quando pedi licença para me ausentar. Seguiu-me, encontrou-me na divisão de espera do w.c(onde de tão pequeno, cabe apenas uma pessoa de cada vez) e entre licenças e contorcionismos lá conseguiu entrar também, colando-me à parede e debitando palavras como “És linda”, “És como uma princesa” e “Eu gosto de ti” (aqui assustei-me a valer). Diga-se que quando a rapariga decidiu passar à acção(era assim, aventureira) e eu já quase a sentir que era ali que ia perder a virgindade de ser beijada por outra mulher, enchi-me de coragem, pedi desculpas, disse-lhe que também era bonita mas não para mim e que a minha praia era outra e fugi dali rápido que na altura era cobarde(vá, mais uma menina) e ainda não sabia enfrentar certas investidas. Ganhei o medo dos locais com demasiada mistura e ganhei uma enorme dor de bexiga por não me ter atrevido a voltar sozinha ao w.c toda a noite(obrigada amigos por não se compadecerem de mim e me terem obrigado a ficar ainda umas boas horas), ao menos a moça não se voltou a aproximar, apesar de ainda deitar um olhar ou outro.
    Hoje, passados tantos anos desta história e após viver há mais de uma década em Lisboa, rio-me quando penso nisto, afinal a médio prazo não causou dano, foi apenas uma má primeira experiência para uma jovem de dezoito anos que nunca havia lidado com nada do que se passou naquela noite. Vim para Lisboa no ano de 2000 e acabei por enfrentar o Bairro e descobrir mais para além do 7ºCéu e do Frágil, descobri mais e deixei de sentir que gostei para passar a saber que sim.
    Com os anos corri Santos e o Cais do Sodré, festejei nas Docas e no Calvário e de cada um deles trouxe uma história para contar. Aprendi a coleccioná-las, um dia vão ser as únicas saídas que me restam. 😉

    • Ana, bem-vinda.

      Só o facto de teres vindo aqui dar o teu generoso testemunho, já faz com que valha a pena escrever neste blog. 🙂

      Obrigado.

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