Constrição

Em casa, refastelado a comer os meus cereais com maçã e canela da marca Pingo Doce, dei por mim a ressacar o bacon crocante e o sumo de laranja natural pela manhã. As férias acabaram e o meu risonho futuro apresenta-se-me obtuso e com cara de poucos amigos. Penso no que posso fazer para alterar este meu distópico futuro pessoal e não se me ocorre nada. Deixar a água correr por baixo do moinho é adiar o inevitável. Estou fodido.

Repare leitor que até sou um gajo que vai tendo ideias. Surgem-me, por regra, de forma pouco ortodoxa. Não é na casa de banho,como a maioria,  a dar trabalho aos senhores que trabalham nas ETARs, que me surgem as melhores ideias. Não é. É na cozinha a limpar o fogão, ou na banheira a esfregar manchas persistentes de calcário. Eu sei, eu sei, é estranho. Mas tão válido quanto ter ideias enquanto se defeca, n’est pas?

Ainda mais complicado, é que alguma destas raras epifanias veja a luz do dia. Sinto-me cada vez mais como o tronco de madeira onde se enrola a Pitão do reptilário do Jardim Zoológico. Ou se calhar só preciso de mais férias.

Se isto fosse um exercício de auto-comiseração, teria referido ali em cima o facto de ter despedido a senhora que me fingia limpar a casa duas vezes por semana. Mas não. Reparem que na prática até me revelo um tipo multifacetado que limpa a casa melhor que a mulher a dias que me estragou duas camisas e deixava o calcário formar-se de tal maneira, que pelo menos uma vez fiquei com a  impressão de ter encontrado a cara de Jesus no bidet.

2 thoughts on “Constrição

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