Consultório Sentimental

Querida Maria, o meu nome é Mara, tenho 32 anos e escrevo-lhe do Cacém. Tenho muito para lhe contar, mas nestas coisas, como em tantas outras na vida, o difícil é começar. Menos quando estamos apertadinhos para fazer cocó e temos quase a certeza que vem lá uma diarreia das bolotas com um sabor estranho do dia anterior. Mas divago, querida Maria, desculpe. Os problemas começaram quando nos mudámos para o Cacém. O Joca, o meu namorado, é um esquilo rude, impetuoso e muito macho. Não me liga nenhuma e agora não me dá carinho. Mas nem sempre foi assim.

Quando morávamos na floresta, o Joca era um amor de esquilo. Subia sempre aos carvalhos mais altos para me trazer bolotas, apanhava sempre as melhores folhas para forrar o nosso leito de amor, e lambia-me o pelo com afinco até ficar lustroso e deixar as minhas amigas cheias de inveja. Na nossa toca, era ele que limpava as caganitas todos os dias, e sempre com aquele sorriso lindo de esquilo maroto,  encaminhava-se para as folhas secas do nosso leito de amor à minha espera. E no leito éramos uns doidos. Uma vez filmamos tudo. O nosso computador avariou e foi para arranjar. Foi um instante até esse video caseiro estar online e a inspirar todo o tipo de mamíferos. Mas não nos importamos. Amávamos e isso era tudo.

Na floresta, todos achavam que éramos um casal modelo. Tudo parecia correr bem e a vida era linda. Mas depois tudo se desmoronou. O Joca aceitou um trabalho para carregar  bolotas num parque urbano no Cacém. Era uma decisão difícil, mas ainda assim ele pediu-me opinião. Eu faria tudo pelo meu esquilo. E então viemos. E tudo mudou. E eu não aguento mais. Ele nunca está na toca, diz que está sempre a procurar bolotas que com isto da Troika, até as bolotas escasseiam, e como nunca quis que trabalhasse, fico em casa a ver as caganitas acumularem-se. Eu até queria limpar, mas entrei numa tal depressão que a sujidade se acumulou. Não queiram ver um esquilo deprimido. É terrível, é terrível!!

Peço algum tipo de ajuda, querida Maria, porque não sei o que fazer. Não sei se ele me ama, e o que nos reserva o futuro no Cacém.

Resposta da Revista Maria- (via email) Cara “leitora”, a Direcção reserva-se o direito de recusar a publicação de cartas, exceptuando os casos de direito de resposta previstos na Lei de Imprensa, o que aqui se aplica. Este é um espaço sério que pretende ajudar os que nos procuram, e brincar com estes temas não se coaduna com a nossa maneira de trabalhar. Lamentamos, mas por esse mesmo motivo, o seu texto não será publicado.

Resposta da Mara- (via email) 

 

13 thoughts on “Consultório Sentimental

  1. Ahahahahahah

    Eu percebo perfeitamente a posição da Revista Maria, vê-se logo que é mentira, que disparate, agora um parque urbano no Cacém… com bolotas… e esquilos… 😀

    A cara da Mara na foto está de sonho ahahah

    • Vic, passou-me ao lado a do maneta. 🙂
      Isto é apenas mais um caso da vida, ainda que dos esquilos. Também terão os seus problemas.

    • Alexandra, faltou-me o “baseado nas fábulas da floresta verde” 🙂

      Eu também gostava do Raposinho, mas colocá-lo aqui como amante do Joca, pareceu-me demasiado novela da TVI.

  2. Muito bom!! 🙂
    A direcção da Maria julgou mal o email. Não aceitar o pedido da Mara é errado.

    Mas estou com a Alexandra, se são o casalinho das fábulas da floresta verde, eram marmotas. 🙂

  3. Isto há com cada um!
    Mas muito ali como o Vic, eles querem é casos sórdidos que não lembram a ninguém, já um casalinho de esquilos fofinhos que vivam muito bem e sem caganitas e que agora estão com problemas, inclusive com imensas caganitas, isso já não lhes interessa.

    • CP, mesmo à tuga, terminares o post a falar de…caganitas. 🙂
      Mas sim, a decisão da Maria foi precipitada e errada.

      Temo que esta situação não tenha um final feliz.

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