Corre o ano de 2057

Corre o ano de dois mil e cinquenta e sete em Portugal. No resto do mundo também, mas é neste país que vamos encontrar o ancião trollofthenorth, agora com a provecta idade de oitenta anos e quatro meses, por isso é natural que comece o texto desta forma, se não gostam, tivessem começado pelo segundo parágrafo.

Depois da saída de Portugal da zona Euro em dois mil e treze (ou dois mil e quatorze, que a memória já lhe anda a falhar desde dois mil e trinta e sete), o velhinho trollofthenorth e todos os portugueses que não conseguiram sair do País e fugir a décadas de crise, encaram o dia a dia da mesma forma e com o mesmo sentimento de resignação do passado. A ele em particular, custa-lhe imenso levantar-se da cama por causa da ciática mas ainda o faz em dias especiais. Este é um desses dias. Hoje é dia de sair da cama e esperar pela vinda da Hortense. A simpática e prestável pretinha é uma senhora que se compadeceu dele, e vem uma vez por semana limpar a casa e dar-lhe banho. Resquícios da sacanice do passado ainda perduram na alma do velhote e constantemente insiste em pedir a Hortense que o ajude a aliviar-se manualmente, que é velho mirrado mas ainda tem vontades. Diz que lhe paga alguma coisa mas ela recusa. Acha-o um velho divertido e simpático, não duvida que no passado seria o Don Juan da rua dele, mas que se devia dar ao respeito que na idade dele já não se pensa nisso. Que enganada estás Hortense, pensa o velho Troll, agora parece que ainda me dá mais vontade, caraças. Também pode ser da constante vontade de urinar.

Às sucessivas tentativas de corruptos governos ao longo de décadas, conseguiu-se finalmente um acordo com oito macacos: três chimpanzés de esquerda, quatro babuínos de direita, e um sagui pigmeu a representar as minorias. Trabalham a troco de bananas da Madeira, e é a primeira vez em muitos anos que alguém ousa pensar numa saída para este interminável martírio. Traçaram um plano que passa pela exportação massiva de bananas, e a todos parece tão boa ou melhor ideia que as anteriores.

Hortense saiu, mais uma vez sem anuir às pretensões dos apetites sexuais de troll. Está sentado à janela a tremer de frio. Não existe dinheiro sequer para um candeeiro, quanto mais aquecimento. Pensar que um dia ousou imaginar-se com um mínimo de dignidade na velhice. E algum dinheiro. Pelo menos o suficiente para convencer Hortense.

 

6 thoughts on “Corre o ano de 2057

    • Fiona, eu não vou ter dinheiro para um lar.
      Mas o plano dos macacos não é pior. No máximo podem roubar-nos para bananas. Nunca ficará tão caro como o BPN.

  1. Xiiiiiii… fazer uma prospecção de quarenta e cinco anos?! Isso é muito tempo! Isso é extremamente deprimente, Troll! Já me basta este tempo cinzento-chuvoso para me desanimar. pfffff…
    Fui! ;p

    (Sabes uma coisa?Ttentei comentar ontem e só me apareceu uma mensagem a dizer que os comentários não eram autorizados. Depois dos micróbios, optaste pela técnica da dissuasão, foi? Olha que eu, para além de corajosa, também sou teimosa… ;D)

    • Mam’Zelle M, eu sou pessimista por natureza.
      Por aqui também chove a cântaros.

      Não percebi o que se passou com os comentários, mas corrigi logo que me apercebi. 🙂

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