Dark Passenger

Terei de começar por dizer que não foi o melhor dos fins de semana. Prometia, mas uma sucessão de casualidades acabou por transformar um pacato blogger num assassino. Em série, como na TV. Aviso feito aos mais susceptíveis, segue-se o prelúdio para a matança, em Dó menor. Sem bolinha, que tal como acontece com o Dexter, também vive em mim um dark passenger.

Na manhã de Sábado, depois de um camelo reconfortante, ligou-me o macho Alfa de um grupo de amigos e amigas. O café Camelo é assim assim, bebe-se, mas nas mãos da dona do café na esquina da minha rua, faz o Malkovich urrar de inveja lá em cima no céu da nespresso. Ao meu conhecido chamo-lhe macho Alfa pela piada da contradição latente. É o tipo mais parrochento e calmo que conheço e não faz mal a uma mosca. Subi e fui para a cozinha. Ia fazer a minha lasanha da praxe, sim essa mesma. Aquela que sai sempre da mesma maneira, e que toda a gente pede para repetir. Para além de misturar carne de porco e vaca, nada mais vos revelarei do segredo.

Julgava que as placas para lasanha perdiam a validade para lá do “consumir de preferência antes do fim de”. Afinal é apenas massa, e a preferência dá certamente para esticar umas semanas além do indicado. Aberta a caixa, apercebo-me que não estou sozinho no meu mundinho de wannabe Bourdain da periferia. Do escuro fundo do pacote das placas, olhavam para mim uns pequeninos pares de olhos. Ao lado dos olhos, umas enormes antenas que se mexiam sem cessar denunciavam o medo. Uma família de gorgulhos ilegais olhava-me com horror, antevendo a possibilidade de um triste fim.

Num primeiro momento senti-me a banca, a tirar a casa a uma pobre família, sem dó nem piedade. A filhota gorgulho olhava para mim com aqueles amedrontados olhinhos,  húmidos e tristes, enquanto o papá gorgulho lhe limpava as lágrimas da face, e eu só pensava se haveria alguma maneira de os colocar no rendimento mínimo e ficar-lhes com o guito. Afinal eram ilegais. Mas agora é mais complicado, não era uma opção. Acabei por fazer a melhor cara SS que consegui e decidi-me a cometer gorgulhocídio. Não me compadeci com olhinhos tristes, nem sequer com a destruição de um lar feliz. Reparem que nessa noite tinha uns amigos lá em casa. De que não gosto muito, verdade seja dita. Podia decidir simplesmente dar-lhes mais nutrientes a comer, sob a forma de pequenos e simpáticos gorgulhos, mas até um assassino como eu tem limites. E depois o amador do Hannibal já tinha feito algo parecido em 2001.

Sei que a imagem daquela família, que dava as patitas e gritava enquanto se afogava e desaparecia pelo ralo abaixo, me vai perseguir até ao fim dos meus dias, mas estou preparado para viver com isso.

 

14 thoughts on “Dark Passenger

    • Não fui capaz, Maat.
      Fui um fraco. Voltei a descer e fui à mercearia. Aqueles olhinhos dos gorgulhos, quase, quase no fim, fizeram mossa.

    • Filipa, senti-me um daqueles nazis que fugiram para a Argentina no fim da grande guerra. Eu era o miúdo que, munido de raid e um isqueiro, eliminava hordas de formigas no quintal lá de casa.
      Acabou por ser um regresso ás raízes. 🙂

  1. Ahahah! Coitados dos bichinhos. Foi mau, muito mau, Troll 😉
    Mas, espera lá… Tu preparas lasanha para “amigos de que não gostas muito”? És santo ou não tens amigos de que gostes efectivamente? ;p

    • Tento ser social q.b.
      O isolamento auto forçado, perde fundamento quando damos por nós a querer falar com alguém.
      Para além da lasanha, ainda levaram com uma bavaroise de ananás, que sobremesas não são o meu forte. 🙂

  2. Agora fiquei preocupada.
    Não sei se tenho amigos, que não gostem muito de mim e que pensem em fazer comida com gorgulhos =/

    Quanto ao gogulhocídio, sabes que vais para o Inferno Troll, não sabes?
    🙂

    • CP, tenho andado a provar um bocadinho de Inferno nestas ultimas semanas, aqui sozinho no departamento. Labaredas não serão o pior.
      Para quem aniquilou formigueiros inteiros na infância, uma família de gorgulhos, ainda que queridinhos, são peanuts… 🙂

    • Sol, acabei por não usar as placas, aka, casa da família gorgulho. No fim, destruí o lar de uma família feliz para nada.

      Eu tenho coração. Deixei que eles dessem as mãos e fossem juntos para o vazio. Não separei ninguém por género, raça ou credo. Não fiz distinções. 🙂

  3. Estou contigo no …cidio, eles é que nos forçam a sua presença na nossa casa. Como lhes costumo dizer nos momentos finais, “Nesta casa vive um” antes de os ver viajar pelo ralo até ao destino final. Outra forma de despachar a situação, também famosa dos assassinos de andar por casa, qualquer revista para matar melgas e um ocasional chinelo resolvem a questão.

    Lasanha, hum, uma das minhas especialidades. Também misturo as carnes e também está cheia de segredos. Um dia há que trocar impressões.

    • Ana, também sou o “mata sete” das moscas que se atrevem a visitar-me a casa. Mas isso dava material para um outro post sobre assassinatos. 🙂

      Temos de trocar receitas. -_-

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.