Com ele na boca

Nunca andei com frequência. Nunca senti necessidade. Os falos de que falo, (viram como sou bom?) costumam ter por média 8,2cm. Se por acaso algum macho se sentir beliscado na sua masculinidade por gozar com este comprimento, é bem feita. Não é para menos. Isso é merda que se apresente? É bom que dês finalmente uso a um daqueles quinhentos mails de spam do enlarge your penis, que recebes.

Eu fartava-me de ver o meu irmão e os amigos a fumarem às escondidas. Ele sempre o líder incontestado do grupo dos mais velhos lá na terra. Eram sempre os mesmos dois ou três totós incumbidos de roubarem escudos aos porta moedas das mães, sempre cientes de que tal descoberta, daria por certo porrada de cinto dos pais mais à noitinha, e lá iam eles, quais mártires, à mercearia da Dona Rosa comprar Kentuckys. Compravam-nos avulso. (Sim, sou do tempo que se vendiam cigarros avulso). Eram os mais baratos, e eram aqueles que estavam habituados a ver os velhotes da terra fumarem, tirando o velho Guisanda que fumava sempre tabaco de enrolar. Ainda me lembro de olharmos maravilhados para a forma eximia como enrolava em segundos o tabaco, antes de nos enxotar, e fumar descansado enquanto se sentava na mesma pedra, dia após dia, a ver os carros passarem.

Eu era o mais raquítico do grupo dos mais novos. Nunca nos juntávamos ao grupo dos mais velhos, toda a gente sabia que não havia misturas porque acabava sempre tudo ao murro, e eu, nem por ser irmão de quem era tinha notoriedade. Toda a gente sabia que ele não gostava de mim. Eles iam fumar  Kentuckys para o pé do rio, mesmo por baixo do castanheiro grande. Fumavam e comiam as castanhas que o Russo lhes atirava. O Russo era meio humano louro, meio macaco. Ninguém subia como ele às àrvores. Era destemido e colhia os ouriços do  grande castanheiro com intrépida rapidez.

Nós, os miúdos, sentíamos uma estúpida necessidade de emular as parvoíces dos mais velhos, e enrolávamos barbas de milho. Davam uma tosse desgraçada. A mim dava-me falta de ar. Mas fumava. Porque do outro lado estava o meu irmão a fumar Kentuckys.

Já na Escola Secundária comprei por duas vezes maços de tabaco. E sempre para impressionar miúdas. A Estela, quando fomos numa vista de estudo à Serra da Estrela, e a Cláudia Marina (o horror, eu sei, mas pensem que podia ser Cátia Vanessa), quando uma amiga dela me veio dizer que sim, que me achava giro e tal, mas que não, era muito novo e ela estava habituada a homens mais velhos. Tínhamos 16 anos porra!! Com a Estela a visita de estudo foi proveitosa, nunca saberei se por acaso, se por fingir que fumava SG Ventil como um Pro. Com a Cláudia Marina não resultou, trocou-me por um repetente do nono ano que o tempo se encarregou de me fazer esquecer o nome. Também fumava, o cabrão.

Na faculdade acabei por ser um fumador passivo em grande escala. Em dez, oito conhecidos fumavam e continuei a não achar grande piada ao assunto, a não ser que servisse para enrolar outras coisas. Aí achava piada e até me ria que nem um parvo. Ou então tinha grandes discussões que na minha cabeça eram extremamente filosóficas, até me contarem no dia seguinte que tinha tentado converter morcões para se passarem para o glorioso ou outra impossibilidade qualquer. E nunca soube dar uso às lições do Sr. Guisanda de como enrolar bem o tabaco.

 

26 thoughts on “Com ele na boca

  1. sorte a tua por nunca te teres viciado. eu comecei há quase 15 anos a fumar. na faculdade piorou. já tive problemas de saúde por causa do tabaco (quando fumava Ventil, aos 3 de cada vez. ah… como eu adorava Ventil) mas ainda assim continuei.
    em Setembro último consegui finalmente deixar. até à semana passada. aconteceram coisas que me fizeram voltar a precisar de fumar cigarros. mas estou de novo a tentar deixar e agora para sempre mesmo.
    sempre admirei pessoas como tu, que são capazes de fumar e que nunca ficam realmente viciadas. gostava de ser assim também.

  2. Já fumei muito, mas também há muito que deixei. É dos piores vícios que há e nós geralmente não ligamos. À doença do amigo, à morte daquele rapaz que passava todos os dias por nós… Tu tens sorte de nunca te teres viciado (acho que essas coisas dependem mais do nosso organismos do que da nossa vontade). Ainda bem. E fizeste-me lembrar a minha juventude/adolescência. Com a diferença de que eu era o irmão mais velho… 🙂

  3. Estes teus posts auto biográficos são do melhor. 🙂
    Também cresci numa aldeia, e as coisas tinham um valor diferente. Mas os escudos que roubava à minha mãe eram todos para chupa-chupas 🙂

    • Filipa, obrigado. 🙂
      Que aldeia era a tua? Eu também tinha malta amiga que roubava escudos para chupa-chupas. Não dava era uma história tão gira para contar aqui. 🙂

  4. Kentuckys, velha escolha…era isso, revistas Gina e o Boca Doce…bons tempos
    Fumar para impressionar miudas resulta e alias depois falar sobre isso tambem, mesmo passados tantos anos, nao sei explicar, mas ja ficaste com mais bom ar pa! E agova diz la ja nao te passas todo? Nem uma passinha?
    Ah e adorei a figura de estilo (cada dia mais fa tua.)

    • Xuxi, as revistas Gina do meu irmão (5 anos mais velho), eram enciclopédia para treinar com as vizinhas. E resultavam mesmo sem o tabaco 🙂
      Agora nem uma passinha. 🙂

  5. A mim nunca me bateu essa do fumar para ter estilo, percebi desde muito cedo que nunca ira ser uma miuda com estilo e resignei-me. Mas de vez em quando fumo , muitoooo raramente (uns dois maços por ano, nem se considera fumar) porque gosto, e nao fumo mais …porque gosto (e depois viciava).
    Ainda por cima eles agora fazem imenso tabaco para gajas, é o cigarro longo e fininho(que sabe bem) é o com sabor a chocolate, a baunilha (horrendos) o velhinho de mentol.
    So falta encherem de açucar, como aquelas bebidas de vodka com coisas em que uma pessoa pensa, ahhhhhh isto é suminho, quase nao tem alcool, e depois, pronto la se foi a vergonha.

    • Freculture, essa do tabaco com sabor a chocolate é novidade para mim. 🙂
      Mas sim, o que na secundária servia para status (fumar), agora torna-se ridículo. Mas não sei se as novas gerações mudaram assim tanto. É vê-los a eles e elas cada vez mais novos de cigarro na boca….

  6. Eu fumo e é um vício terrível, quando sei que estou num sítio que não posso fumar, parece que é quando mais vontade tenho e muitas vezes escolho certos sítios, só por esse critério.
    Os meus primeiros cigarros também começaram no liceu, em que juntávamos os trocos e comprávamos um maço, ou então roubava à minha irmã que é cinco anos mais velha do que eu, também comecei a fumar SG Ventil, só porque a minha irmã fumava essa mesma marca, e no crava não podemos escolher. Faz mal à saúde já para não falar do mal que faz à carteira.

  7. Eu fumei durante 16 anos.
    Comecei com SG Gigante. Fumei tantos que a dada altura já sabia fazer cimento e montar andaimes.
    Depois passei para o Ventil. Too short… cigarro pra maricas.
    O Marlboro foi o cigarro da minha vida. Se tivesse que apanhar um cancro do pulmão, que fosse de Marlboro.
    Foi o Marlboro que me fez ter das grandes questões ideológias da minha vida. Como a minha participação activa na causa terrorista. A propósito do tabaco sempre me interroguei se, ao comprar ganza, estava a contribuír para o enriquecimento de um qualquer árabe terrorista. Mas, por outro lado, sentia-me sempre descansado ao enrolar uma com Marlboro: “Que se foda, ganza árabe, cigarro americano. Tudo equilibrado!” Com Ventil não ia ter esta paz de espírito. 😐

    • Ahahaha 🙂
      “Que se foda, ganza árabe, cigarro americano. Tudo equilibrado!”
      És o maior Aflito. 🙂
      Fico contente é por ver aqui malta que largou o vício. Ainda bem.

  8. Nunca fumei, bebia moderadamente, nem comprei Ginas.
    Frequentei a catequese, andei nos escuteiros, e cheguei a ser acólito.
    Devo deixar de vir aqui? 🙂

    • Francisco, eu fiz a catequese, fiz o crisma, cantava no coro da Igreja (sou um tenor razoável), e cheguei a dar catequese. 🙂
      Depois abri a pestana no que ao catolicismo diz respeito e não voltei a entrar numa Igreja que não por obrigação.
      Não é por ai. 🙂
      Eu também não comprei nenhuma Gina, encontrava sempre por milagre as que o meu irmão comprava. 🙂

  9. Eu fumo e bebo uisque só mesmo pela cena da voz e habituei-me. De resto, é dispensável, fazes bem 🙂 Já agora, escreves muito bem pá, muito bem, gosto muito disto tudo aqui.

  10. Troll, estas tuas histórias sao imperdíveis!
    Mas deixa-me que o mecanismo de comentarios é um martírio. Isso e o facto de o teu estaminé nao aparecer na barra lateral do meu, apesar de já ter adicionado várias vezes. Cumé??

    • Jibóia, obrigado. 🙂

      Não consigo fazer muito para mudar o mecanismo. Quer-me parecer que é comum no wordpress. Nick+ url. Mail se quiseres feedback.

      Para já ainda não temos captcha. 🙂 *Bati 3 vezes na madeira*.

      Não percebo essa questão do adicionar o blog. Alguma malta do blogspot já me adicionou (bem hajam), mas ainda ninguém se tinha queixado desse stress.

    • S*, we win some, we lose some. 🙂
      Mas quando se tem 16 anos, as hormonas encarregam-se de apontar rapidamente antenas para outro lado. 🙂

      Já estou a ver que esse cliché dos bad boys fumadores e repetentes vos dava forte. 🙂

    • Miss S, se calhar é por essa mesma razão que não fumo. E que não gosto de milho. 🙂 A sério, não gosto.
      Folhas de videira vi fumar mas nunca fumei.

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