Diário de uma Maria desconhecida

Querido diário, ele ontem disse que me dava o mundo. Eu estava por cima. Ele fica sempre assim emotivo quando eu fico por cima. Disse que me dava o mundo em pequeninos pacotinhos como se fossem de açúcar mascavado. Porque é assim doce o mundo dele, e que só mo dava em doses pequenas para que eu não morresse ali, nos braços dele, de felicidade. Eu nem sabia que se podia morrer de felicidade, querido diário.

Em pacotinhos pequenos vêm também a cocaína e a heroína, mas nenhum estupefaciente é maior que o amor que por ele sinto. Acho que ele prefere uma mistura dos três. Por vezes não corre bem. Acho que defraudo as expectativas dele. Não o conseguiu levantar esta noite e bateu-me. Por mais que me esforçasse. A princípio pensei que fossem apenas pancadinhas de amor, mas quando passei a mão pelo lábio e me apercebi de todo aquele sangue que também pingava no tapete bege do IKEA, vi que algo não estava bem. O amor não deve ser assim escrito com sangue nos lábios. E no lóbulo da orelha esquerda. Estou em frente ao espelho, a ver a obra de arte contemporânea  em que me deixou a cara.

Escrevo-te estas palavras num momento de acalmia, querido diário. A tempestade parece ter amainado. Os barcos ainda estão no cais, os pescadores estão a remendar as redes de pesca, e ele roubou-me cinquenta euros e saiu porta fora. Não acredito que fosse para comprar peixe. É domingo e a lota está fechada. Ele nem gosta assim tanto de peixe. Como as coisas mudam, querido diário. Se antes me imaginava a correr portos  por esse mundo fora com ele, num lindo barco à vela, entre oceanos sem fim, agora nos meus sonhos estamos a atravessar a costa Somali, somos interceptados por piratas que me levam com eles depois de o matarem à catanada. Não existe embaixada portuguesa na Somália, por isso vou passar um mau bocado, mas que se foda. Tudo será melhor que continuar com ele por perto. E depois acordo. E ele continua por cá.

33 thoughts on “Diário de uma Maria desconhecida

    • Fiona, eu acho que só quem passa por elas sabe o quanto custa e quão difícil é sair dessa situação. Não é porque se gosta da sensação, como é no caso das drogas. É algo que não se explica, e o ‘clic’ tem que vir sozinho e ser a própria pessoa violentada a ‘acordar’ do torpor em que se encontra. 🙁

  1. que triste 🙁
    quero referir tambem o surprendente valor alto da violencia actual entre os jovens namorados, onde ja não se justifica a situação de decadas atras em que a mulher não tinha autonomia financeira e as separaçoes eram muito mal vistas.

    muito bem escrito, parabens

    • freeculturelisbon. É isso. O acesso a informação, libertou a maioria das mulheres deste estúpido “jugo”, mas desengane-se quem pense que não acontece com mulheres jovens.

      • Infelizmente, não vai adiantar muito. A pressão psicológica é demasiado forte, ao ponto da pessoa pensar que a culpa é dela :(. No entanto poderá ser bom, porque no dia em que essa pessoa ‘acorde’ poderá ajudar a que acreditem no que ela diz, já ter uma ou várias queixas registadas na policia!

  2. só está aí uma coisa mal: se ele não o levantou, não era ele que lhe devia ter batido a ela, ele é que merecia levar 🙂

    (okok, eu sei que é um texto sério e tenho muito respeito/pena por essas situações. era só para descomprimir um bocado)

    • Maat, eu também tenho respeito pela questão mas tentei contornar a coisa com os peixes e tal. 🙂
      As relações humanas são das coisas mais fodidas e complicadas de que me consigo lembrar.

      • Troll, man, ora aí está algo com que concordo em absoluto. Tenho por hábito dizer exactamente isso, a coisa mais complicada do mundo não é o corpo humano mas sim as relações humanas, sejam entre quem forem.

        Há muito a ideia de que o corpo humano é o elemento mais complexo que existe. Porque não é completamente conhecido, controlado, “domesticado” pelos médicos.
        Mas as relações humanas, entre amigos, familiares, namorados, o que for, são de uma complexidade muito mais elevada. E por um facto tão simples: todos somos únicos, diferentes do nosso semelhante, complexos na nossa identidade.

        Esta merda da violência doméstica é um cancro de qualquer sociedade, e tem custos tremendos para o seu equilíbrio. Mas é uma realidade tão real que até dói…

        Enfim, ao menos que o Chelsea ganhe hoje, vá…. 😀

        • Francisco, é mesmo isso.

          Acho que ainda não estamos todos assim tão preparados para a vida em sociedade. Uns conseguirão melhor que outros. Se calhar as sociedades evoluiram mais depressa do que os homens conseguiram acompanhar, por isso é que andam por aí uns quantos animais a meterem nojo, e a pensarem que ainda estão na fase do caçador recolector.

          Auto-golo do David Luiz aos 90. 🙂

  3. uma realidade que acontece com mulheres jovens sim, mais vezes do que imaginamos, umas vezes violência física, outras vezes psicológica e quando tentamos aconselhar, ouvimos como resposta (como eu já ouvi) “eu também devia ter mais cuidado para não o irritar…” e perante isto… ficamos sem palavras…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.