Diz-me o que ouves

Dir-te-ei quem és. Really? Será que é assim mesmo tão linear? Não. Não é. Permitam-me que tente desmontar esta afirmação.

Esta post começa com patrãozinho a passar por trás de mim ontem ao final da tarde.  A custo conseguiu passar por entre duas cadeiras na ilha de mesas em que me encontro. Por entre piadinhas sobre o engasgar com as amêndoas da Páscoa e o saber que no meu Norte, o compasso pascal obriga a suaves xoxos nos pés do Senhor na Cruz, foi-se aproximando. Até aqui nada de novo, piada gasta e usada o ano passado, e provavelmente no anterior, ainda que não me lembre. Eu podia gozar com a proeminente barriga dele, e com o esforço hercúleo que os botões da camisa travam com as casas dessa mesma camisa, para a custo lhe manterem a pança lá dentro, mas não, não o faço que tenho contas para pagar.

De repente, e num acto inovador, patrãozinho tira-me os phones dos ouvidos, para gáudio dos restantes “amiguinhos” co-workers, e para natural espanto meu. Nunca antes o havia feito. Os meus gostos musicais não são segredo para os poucos que me conhecem. Nunca me escondi na redoma do heavy metal, e sempre ouvi este mundo e o outro, filtrando depois aquilo que não me fere os ouvidos. Mas naquele momento estava a ouvir isto. O sobrolho retorcido com que me presenteou no momento seguinte, seguido de um “-Isto parece mesmo a música dos gajos satânicos pah-”  terá sido sintomático do que estaria a pensar. Sentiu necessidade de se rir dele próprio como só a malta sem piada faz constantemente, e olhou em volta a procurar apoio, como só a malta sem o minímo wit faz. Que Baphomet me perdoe, mas o gajo merecia ser sodomizado à bruta.

Não me cataloguem do que quer que seja. Se eu ouvisse Skrillex era azeiteiro? Se eu ouvisse o gajo que só fala em pegar naquilo que o Iran Costa já andava a pegar em 1995 era grunho? Era. Mas isso agora não interessa para o raciocínio que se quer sério. Foda-se. Eu não sou aquilo que ouço. Até podia ser mas não sou. E não foram os grilhões da sociedade que me impuseram merda nenhuma. É uma questão de evolução. Esta semana achei piada à musica destes tipos. A esta em particular. Serei uma pita daquelas parvas em fase de afirmação, que se veste de preto e se corta em segredo, e que só gosta deles porque o cabelo do vocalista até é parecido com o do Bill Kaulitz? Não.

Se em alguns casos, o que ouvimos nos define, no meu, não podiam estar mais errados. Eu, que aquando do último concerto da Joan as Police Woman, fiquei com pele de galinha quando ela começou a cantar a Eternal Flame, e anos antes, num concerto de Opeth em Londres em 2005, com a Harvest, havia repetido esse mesmo sentimento na pele.

 

 

33 thoughts on “Diz-me o que ouves

    • Pedro, é uma das minhas bandas preferidas. E também concordo contigo. Existem bandas bem mais pesadas, que eu próprio acho pesado e não ouço.
      Mas a ignorância nem sempre é uma benção. 🙂

  1. então eu sou esquizofrénica. é que ouvir Buraka, passar para Silverchair, depois para Bon Iver e eventualmente uma Rihanna…. faz de mim….. estranha, vá 😉

  2. 😀 um dia deixo uma playlist de um dia típico meu…
    Vai de motorhead a skrillex, passando por boy george, kraftwerk, pixies,AFI, beach boys, aphex twin, megadeth, RAM, Pink… 😀

    em trabalho a melhor música para mim costuma ser a electrónica do tipo techno quando estou a fazer tarefas em sequência, porque cria um ritmo forte, estável e dinâmico, com energia, mas ao mesmo tempo “absorvente”. Alguns de dubstep acabam por ser demasiado energéticos e distrair. O melhor disco de sempre para trabalhar (para mim) é o Ambient Works 85-92 do Aphex Twin. Aliás, é um dos melhores discos de sempre, recomendo-te. Kraftwerk também tem discos excelentes para trabalhar. Nisso dos géneros cruzados e do ecletismo, acho que há discos charneira, discos que introduzem pessoas a um género novo. Às vezes são discos desprezados pelos fãs hardcore do género. É o exemplo do Skrillex para o dubstep ou o Black Album dos Metallica para os puros metaleiros (hoje em dia já o consideram um clássico). Eu sei que tentei ouvir Slayer por exemplo, e admiro bastante a vários níveis, desde técnico, artístico, originalidade… mas não consigo “gostar” de facto porque me cansa um bocado a velocidade do ritmo. Adoro as partes mais lentas, quando aquilo desacelera e fica mastodôntico e brutal, mas quando tem aqueles bocados com a bateria rtrtrtrtrtrrtrtrtrtrtrtrtrtrtrtrrtrtrtrtrtrtrtr fico um bocadinho stressado O_O 🙂

    • Tolan, eu é mais por dias. Se na 2ª feira foi praticamente o dia todo a ouvir anos 80, com The Clash, INXS, Duran Duran, A-ha e Depeche Mode, hoje é Seattle, e amanhã pode muito bem voltar a ser Doom.

      O mood do dia escolhe o género musical por mim.

      De Aphex Twin não consigo falar muito. Lembro-me de um video marado que passava no Blah Blah Metal, quando via a MCM na parabólica dos meus pais. Era o “Comme to daddy”. Muito à frente. 🙂

      Blast beats também não consigo ouvir muito. Por isso é que nunca hei-de ser fã de Black Metal. Um meio termo é o ideal.

  3. eu por acaso acho que o tipo de música que as pessoas ouvem as define sim, não é linear…nem objectivo…o factor de se ter um gosto eclético também as define…são pessoas por norma abertas a novas experiências, não são pessoas quadradas nem têm uma visão simplista do mundo.
    não tenho tese nenhuma escrita sobre o assunto, só opinião 🙂 e a opinião é como as vaginas (como dizia o outro) e quem quiser dá-la, dá-la!

    eu gosto de ouvir kenny rogers 😀

    • É uma visão possível, Miss Kinky. Eu ouço este mundo e o outro, mas confesso que me consigo “rever” mais depressa em bandas como Katatonia,Opeth ou Alice In Chains, com um som depressivo q.b., do que com INXS, de que também gosto bastante.

      • Francisco, I wish. E não acredito ser eu o único com vontade de o fazer. Mas são mais as vezes que dou por mim com sorrisos amarelos depois de uma das suas piadas sensaboronas.

  4. Tenho sempre que levar com piadas gastas quando falo da minha paixão por Bon Jovi. Não me considero nem mais, nem menos bimba que todos os outros que ouvem coisas diferentes.

    Mas é mais fácil catalogar estupidamente a malta.

  5. O meu segredo musical que nao posso verbalizar alto, sob a pena dos meus amigos nao falarem mais comigo é a musica “find me in the club” dos 50 cent

    You can find me in the club, bottle full of bub
    Look mami I got the X if you into taking drugs
    I’m into having sex, I ain’t into making love
    So come give me a hug if you into to getting rubbed
    ……

  6. Pois, se o homem conhecesse o espectro de músicas que o meu dia abrange, devia pensar que estava frente a um demente esquisofrénico (bem, se calhar, não andaria assim tão longe da verdade).
    Pelo sim, pelo não, eu se fosse a ti, começava a ouvir Quim Barreiros ou então a colar os headphones às orelhas com uns agrafes! 🙂

    • Vic, um dia tento descobrir o que é que este tipo de pessoa ouve.
      Tirando Beatles, que isso sei que gosta. O problema é que a “A Hard Day’s Night”, é uma das minhas músicas preferidas, por isso por aí não posso ir. 🙂

  7. Fiquei com uma fama jeitosa por ter saído mais cedo uma vez para ir ao concerto de Katatonia. Desde aí já fiz saber que também fui a muitos mais e bem variados… The National, Alice In Chains, John Grant, Devendra Banhart… etc, etc.. Nada feito. Sou a dread metaleira, adoradora de satanás cá da zona. HAIL BAPHOMET!

    • Wow. Duas vezes wow. Tirando o John Grant que só conheço de nome, e o Devendra que vi por acaso no Alive enquanto esperava por Alice In Chains, eu gosto disso tudo, Alexandra. 🙂

      Katatonia rula!!!
      Que Baphomet te abençoe. -_-

  8. O teu patrãozinho é um triste, julgar as pessoas pelo que ouvem é alguém que tem a mente muito pequenina, eu sou bastante eclética tanto posso ouvir jazz como a seguir uma música rock, a diferença é que há pessoas que evoluem e outras não.

    • Rainha St, tenho de lhe perdoar. Ele não sabe o que faz. A música para ele acabou no dia em que o Mark David Chapman matou o Lennon. 🙂

  9. o que ouço não me define mas diz muito sobre mim. e eu defino o que ouço porque o que ouço depende de quem sou nesse momento.
    há umas duas horas estava a trabalhar com chemical brothers. agora estou a comentar com deftones.

    • ana, eu arrasto a asa para música melancólica, confesso. Mas também tenho dias alegres, musicalmente falando. 🙂

      Deftones…get booooored!!!! Muito bom. 🙂

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