Doppelgänger

Hoje levantei-me cedo, como de costume. Vesti uns calções justos da Nike, e uma T-Shirt Puma da mesma cor. A playlist do IPod tem o Born To Die pronto a tocar, porque apesar de todas as críticas, aquilo ouve-se demasiado bem, mesmo que às vezes pareça que a Lana pediu à Kate Bush para fazer uma perninha na Blue Jeans. Caguei para o botox. Aperto rapidamente os cordões aos Lunarglide e desço para a rua. Às seis da manhã partilho a rua fria com os homens do lixo. Antes disso cumprimento com um levantar do queixo, as empregadas de limpeza que esperam pacientemente o autocarro que as levará para as limpezas matinais dos escritórios de Lisboa. São todas pretinhas e simpáticas e riem-se bastante enquanto lançam uns impropérios que nunca saberei traduzir.

A meia hora de corrida intensa tonifica-me a alma e o corpo. Suado e novamente em casa, e depois de duzentos abdominais, um banho rápido prepara-me para mais um dia de trabalho no escritório. De permeio já consegui ver as cotações que me interessavam, e que o proletariado insiste em greves de tanga que não os levam a lado nenhum. Pobres coitados. O meu Ermenegildo Zegna preferido já veio de limpar a seco, o Q5 ainda tem gasóleo, e se passar a ponte antes das 08:00 não apanho trânsito. O hábito de tentar ser o primeiro a chegar já vem desde os tempos do Técnico. Os outros, pobres de espírito, gozavam com a minha perseverança. Hoje atiro os CV’s deles para o lixo depois de lhes reconhecer os nomes. Que comam bolos.

Não lhe atendo o telefone. Duzentos euros no Gambrinus para impressionar, e atira-me com uma dor de cabeça já com a conta paga. “Compenso-te amanhã”, diz-me. “As Vieiras com caviar de Arenque não me caíram bem”. O sangue já começava a encher o marsápio com a promessa de festa e ficámos ambos desapontados. Mais o marsápio. Não te maces mais com isso. “There’s plenty of fish in the sea”. Pensei mas não disse. Não que seja cavalheiro, mas ainda não perdi a esperança de lhe saltar à cueca. Tento mais uma vez e  depois desisto.

Já eu, acordei, estiquei-me todo como um gato, cocei os tomates, mais por hábito que por real necessidade, arrastei-me para a casa de banho e pensava em mais um dia de merda que iria provavelmente ter, enquanto o primeiro xixi da manhã corria diligentemente pela sanita abaixo percorrendo o mesmo caminho de todos os dias. Como eu.

32 thoughts on “Doppelgänger

  1. ahahahahaha, muito, muito, muito bom post, meu ganda maluco 🙂

    logo a começar na 2ª frase, ahahaha, calções justos e uma t-shirt da mesma cor 😀

    a rotina da vida é uma coisa lixada, oh se é, em especial a do pobre 😉

    • Jibóia, é muito fino, não gosta de petinga. Agora se o convidares para esse arroz de feijão com umas pataniscas de bacalhau a acompanhar, é gajo para a levar. 🙂

  2. Tirando os calções justos, substituindo as “pretinhas” por coelhos bravos, o Q5 por outro carro alemão e sendo certo que 200 euro no Gambrinus implicam ter vindo para mesa um bom vinho, que deveria ter efeitos imediatos que não uma dor de cabeça, o meu caro está quase lá…

    (deveria começar o post com “Levantou-se cedo…” e continuar a falar na terceira pessoa, para que o último parágrafo tenha outro impacto)

    • Pipoco, na Margem Sul não existem coelhos selvagens, e as pretinhas também conseguem ser bravas. 🙂

      A ideia passou por ser um outro eu, numa outra realidade, que não tem obviamente nada a ver com a minha. Daí não ter optado pela 3ª pessoa. Antes tivesse, no que à componente física diz respeito. 🙂

  3. oh pá! 🙂 🙂 enganaste-me quase até ao fim…porque se fosses tu já tinhas conseguido saltar-lhe para cima (desculpa mas o termo que inclui cuecas não me soa bem) os pobres têm outro encanto…

    • dani, bem-vinda(o)

      Nunca sei bem o que diriam os americanos. A mente de um americano é sempre um tiro no escuro. Já os conheci parecidos connosco na Sicília, e depois vejo-os nos talk shows. 🙂

      O Cosmopolis parece-me bem. Vou tentar ver.

  4. Gostei… Mas acho que se as mulheres estiverem interessadas, não precisam de muito, só o incentivo certo e esse incentivo não é de valor monetário!

    • Hipsterluke, isso era mais para conduzir um Porsche com o farolim partido, vestir uns Jeans e uma T-Shirt preta e foder que nem um coelho. Sempre com um dito jocoso.

      Pá, agora deixaste-me a pensar. Acho que prefiro esta nova opção. Mesmo que a inspiração falhe entre gajas. Promete-me a Carla
      Gugino e I’m in -_-

    • CP, obrigado? 🙂
      Mas olha que o outro eu também tem alguma pinta, mesmo que o Pipoco goze com facto de o gajo usar calções justos. 🙂

  5. Se esses são os teus sonhos de grandeza, ainda acabas como o Frasquilho com aquela barba de merda que parece que ainda não aprendeu a comer e até borrou todo a comer um bolo de chocolate, a fazer discursos da trampa para enganar o pagode.
    Ganda post, Troll. 🙂

    (para a outra vez, passa a noite com os tomates em gelo, que vais ver que já não precisas de os coçar de manhã)

    • Vic, o coçar da tomada é quase acto reflexo. 🙂

      Acredita que não quero definitivamente ser o outro eu. Tirando a parte do desporto que bem preciso. Houvesse tempo. Eu quero comprar uma casa no Talasnal, restaurar aquilo e ter um turismo rural. That’s it. Mas depois acordo. 🙂

    • Filipa, olha que ele trata mal as mulheres. Tu não queres isso. Queres? 🙂
      O sentido de humor não tem. Ficou aqui com o proletariado.

    • Disseram ali em cima que eu estava a imitar o estilo de duas figuras conhecidas da nossa praça blogosférica. Mas juro que não foi intencional. 🙂

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