Já te tinha topado, ainda tu estavas a tentar vender a “mercadoria” ao tipo de boina a uns metros de mim. Tinhas um ar quase normal, ainda que sebento. Como quem apenas toma banho quando a chuva é demasiado forte. Lembro-me de ter pensado se não seria demasiado cedo para transacções daquelas.
Quanto mais te aproximavas, mais eu me apercebia da real necessidade que tinhas de um banho, e achava que seria impossível que me fosses perguntar o que acabaste por fazer segundos depois: “Jovem, queres comprar?”
Em 2002, teria achado normal a abordagem. A roupa preta, as Doc Martens, ou mesmo o cabelo pelo rabo, tornavam-me num alvo fácil para estes tipos. Era um estereótipo andante. Ainda que não o fosse.
Mas não. O eu de 2012 dificilmente seria reconhecido pelo de 2002. Aliás, se se cruzassem um pelo outro na rua, não se reconheceriam. O de 2012 é tão diferente que até poderia ser confundido com um metrossexual.
É da crise, pensei para comigo. A puta da crise já obriga os gajos que vendem ganza a dirigirem-se a qualquer alvo que mexa. A troika fodeu o tráfico de haxixe. Já o ainda passar por jovem foi porreiro da tua parte. Obrigado e boa sorte nos negócios.


“Tinhas um ar quase normal, ainda que sebento.”
Muito bom.
Obrigado. Mas não foi das melhores experiências olfactivas que tive. Isso é certinho.
confesso que adorei a parte do “podia ser confundido com um metrossexual” x)
O tempo encarregou-se de me dizer que o Camaleão em mim tinha de vir ao de cima. E assim é.