En Garde!


Era muito mais simples resolver diferendos no século quinze. Não havia cá merdas de engolir sapos. Uma afronta, por mínima que fosse, um desacordo de ideias ou um suposto beliscar de honra, poderiam sempre ser resolvidas em duelo. Uma luva atirada para a cara do oponente, uma desculpa esfarrapada como ter olhado para o decote da donzela amada, havendo uma, ou uma simples observação jocosa e mal interpretada acerca da fealdade da peruca, e ao nascer do Sol no dia seguinte, já os contendores esgrimiam a sua perícia sob o olhar atento de duas testemunhas.

Hoje em dia não. Hoje em dia diz que a sociedade evoluiu e essas coisas já não são aceites. Mas a vontade que me dá em pegar numa rapieira e enfiá-la na goela de alguns tipos, faz-me pensar que naquele tempo é que era. Mas não era. No minuto seguinte já o pragmático em mim pensa no quão horrível seria estar a esgrimir a minha rapieira com um gajo que não toma banho há mais de um ano. Os eflúvios corporais a merda, mijo e suor a toldarem-me a mente e a fazerem-me lacrimejar. O duelo estaria perdido. Os olhos marejados permitiam uma estocada rápida no flanco. Seria uma derrota estúpida e mal cheirosa.

Imagino depois que por um feliz acaso, a ferida mortal, não era tão mortal assim, e o médico de plantão, (sim porque os meus duelos seriam à nobre com médico a assistir), profundo conhecedor das feridas do corpo humano, levava um dedo à boca imunda e fétida, colocava-o no ar, e decidia que o passo seguinte seriam umas sanguessugas, e um generoso sangramento seguido de repouso absoluto. Sem direito a banho, que é lá isso. Uma semana depois já o pus virulento caminhava a passos largos com a septicemia, garante de uma morte certa.

O século XVI não é para mim. Mas é nisto que dá sonhar acordado depois de sair de uma reunião de “equipa”. A vontade em resolver contendas à old fashioned way. Merda das regras sociais.

23 thoughts on “En Garde!

  1. De espada não sei, mas umas chapadas às vezes dá vontade. 🙂

    Viver noutro século teria a sua piada, mas depois também penso nas questões de saúde e higiene, e torço o nariz à ideia. 🙂

  2. troll, não estamos assim tão longe do tempo da rapieira (pessoalmente, prefiro a espada portuguesa do séc. XV. um dos melhores avanços militares da época).

    (a) há malta que continua a ser pouco amiga do banho. e se na altura ainda tinhas a vantagem de a rapieira ser comprida e dar alguma distância, actualmente, com o incremento do corpo a corpo pela proibição de usar armas, é pior. calha o gajo de te encaixar a cabeça debaixo do braço à bud spencer e morres ali.

    (b) vai a uma discoteca (dizem-me, porque eu não vou) e olha para o decote errado. se for numa aldeola alentejana, carregada de forcados então, nem tens tempo de ver a luva que (não) te atiram. quem pega touro, pega homem.

    (c) depois de uma luta dessas, não há médico. isso traz denúncias à autoridade. tens é o mítico “endireita” que ainda te mete sal nas feridas e dá-te uma corcunda para o resto dos dias.

    • Sempre achei piada à rapieira. 🙂

      A malta pouco amiga do banho ainda anda por aí, é um facto. Então hoje com este calor…

  3. Não desgosto de pensar como seria viver no século XVI, mas sem dúvida que a questão dos banhos (e outras mais) faz-me confusão. Quando estou a meio de uma leitura e percebo que a personagem só toma banho de mês a mês (para não dizer de seis em seis meses ou mais), fico meia incrédula e penso como seria possível viver assim, mesmo sabendo como era complicado terem acesso a um banho, por não existir àgua canalizada e que alguns pensavam que se tomassem banhos a mais seria prejudicial para a saúde. Nos tempos de hoje não consigo mesmo perceber essa questão dos banhos ou falta deles, conheço pessoas que “fogem da àgua” e eu “fujo dessa pessoas”.
    No que se refere ao engolir sapos, isso não é para mim e por isso dizem-me que tenho mau feitio. Mas também já tive a minha dose.

  4. Olá troll! Eu resolvo as coisas com agua, muita agua para ajudar a deglutir os sapos. Médicos só se for para receitas de xanax (ainda não cheguei lá) ou então para uma operação de alargamento da faringe e esófago.
    Breed in, breed out……….

  5. Meu caro Troll, como tu vives nas nuvens! Pensas que em todo o lado é como cá, que se um gajo não toma o seu banho diário é escandalosamente segregado?
    Pois olha que há uns tempos li um artigo em que constava que, por exemplo, as mulheres austríacas só mudam de cuecas uma vez por semana. E olha que havia muitos mais exemplos do género.
    Além disso, no séc. XV esse hábto só era comum nos cristãos. Em contrapartida, usavam-se os perfumes para disfarçar os cheiros. Imagina-te uma semana sem tomar banho, mas carregadinho de um Jean Paul-Gautier (eu sei que é perfume de bicha, mas não foi o que me veio à cabeça, não há aqui qualquer 2ª intenção, eheheheh)

    • Ok, as austríacas são umas badalhocas. Mas eu conheço a história, Vic. Sou um apaixonado por ela. Enquanto nós, ocidentais e ainda javardos não tomávamos banho, os muçulmanos e os orientais faziam do banho uma arte 🙂

  6. Ha uns dias criou-se no meu escritorio uma confusão louca e desnecessária por conta de uma cadeira. Elas não matam mas moeiem e esta moeu, nesse dia gostaria de ter tido a hipotese de colocar os planos homicidas e psicoticos que me passaram pela
    ideia, em ação. Bastards… ;p

    • Ana Piteira, bem-vinda 🙂

      O du ali em cima, aconselha para isso aulas de boxe. Diz que ajuda. Se não ajudar, da próxima vez estás mais do que preparada. -_-

      • Ana Rosado/Ana Piteira = Mais do mesmo. Já cá cheguei há uns dias, mas obrigada por ser sempre bem vinda ;P
        É o que dá andar a espreitar o blog pelo telemóvel na hora de almoço. Podia ser pior, a distração poderia dar para dizer palavras passe em voz alta enquanto as coloco ou deixar o nº de telefone onde não interessa. Pormenores…

  7. De facto a evolução civilizacional só serviu para nos tornarmos uns cínicos. Mas, se pudesse mesmo escolher, não era no séc XV que gostava de ter vivido mas, na era do grande Império Romano.

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