Error 1990

Todos aprendemos com os erros. Esta é uma daquelas frases feitas que assumimos como certa, e com a qual fomos crescendo. Mas antes da chegada desta sociedade da informação em que vivemos, o crescimento e o conhecimento corriam devagar, lado a lado, a tropeçarem constantemente um no outro, e a única fonte de informação de que dispunhamos era passar pela situação em si e tirar, depois de lambidas as feridas, as devidas ilações.

Como daquela vez em que, chegado de fresco a uma escola secundária, decidi armar-me em forte, e atestei um sopapo no meia leca que estava à minha frente na fila para o bar. Ainda andava parvo com a crescidela que o meu corpo tinha dado no ano anterior, e já me achava o maior. Estávamos no 7º ano. O meia leca era o Mosca, cão de fila do Brasileiro, o pior badass da secundária. O Brasileiro já tinha sido suspenso uma semana por dar porrada em dois gajos ao mesmo tempo. Essa informação chegou invariavelmente tarde e a más horas.

O Mosca sorriu e debandou em lesta corrida para contar ao Boss. Eis que minutos depois, e passado o primeiro nível daquele jogo infernal, me deparei com os quatro níveis seguintes e o Boss juntos. Não mais passei de nível. Levei um enxerto à antiga e lasquei dois dentes. O Mosca devolveu-me o sopapo elevado ao cubo. O Brasileiro era afinal Português. De Valbom. Ainda me passou pela cabeça fazer conversa para lhe perguntar a origem da alcunha, mas ocupado que estava a enfardar, tornou-se difícil.

Qual bullying qual quê. Era porrada. Carnificina pura e simples. Sacudia-se a poeira, limpava-se o sangue e corria-se para a aula seguinte. Mas nunca me chibei. E é essa a moral da história. Aprendi que se não queria ser esmurrado novamente, ou me calava, ou arranjava amigos mais velhos ou enfardava o resto do ano. Arranjei os repetentes todos do oitavo ano, no ano a seguir.

Nas aulas de Francês, ao lado da biblioteca, as janelas davam para um jardim de portentosos chorões. A professora Lídia, tímida e permissiva, deixava que os meus novos amigos, os repetentes, fizessem dela gato sapato. A piada era irem saltando um a um da janela para os chorões, até ela reparar que faltavam os gajos quase todos. Isto era uma constante. Quase fazia parte do programa lectivo para as aulas de Francês. Era a risota total, faltas disciplinares a rodos exibidas como troféus de caça, mas ninguém se chateava verdadeiramente.

Certo dia, apercebendo-me que ninguém saltava, decidi finalmente juntar-me aos bons e, num ímpeto, saltei. Desvendei em 2 segundos o mistério de todo o saibro amontoado à porta da escola no dia anterior. Aparentemente toda a gente sabia que tinham trocado os chorões por saibro para que mais ninguém saltasse. Toda a gente menos eu. Moral da história. Falta de informação. Se o grupo deixou, por algum motivo, de fazer a merda do costume, tenta perceber porquê, antes de tentares salvar o dia, e andares de joelhos e cotovelos esmurrados o resto do mês.

A lista dos erros é grande. Agora que me vou lembrando, está ao nível do saco do Sport Billy. Termino com um que me saiu caro. Não a mim, mas ao meu pai. O furo proporcionado proporcionado pela gravidez da professora de Química, nunca é uma boa alternativa  para saíres vencedor de uma discussão sobre quem tem melhor pontaria. E acertar no Swatch da queixinhas da Diana, com uma pedra, a uns bons 80 metros, não faz de ti o Vassily Zaitsev de Gondomar. O teu pai fica uns 50 euros mais pobre e os teus amigos vão gozar-te nos anos vindouros.

29 thoughts on “Error 1990

  1. o Brasileiro tinha de vir dessa terra de badasses que é Valbom. por isso é que eu sou assim má. não é culpa minha, é das origens 🙂 (e não, nunca ouvi falar desse Brasileiro, provavelmente não será do meu tempo).

  2. Tenho histórias tão escabrosas do meu tempo de liceu, que algumas até tenho vergonha de contar. E joelhos esfolados? Era mato. Faltas de castigo? Igual.
    Repetentes? Mais que muitos. Acho que são os tempos mais divertidos das nossas vidas.
    Belas recordações, Troll. 🙂

    • V., acho que foram todas essas experiências que acabaram por moldar quem sou. As boas e as más.

      Eram outros tempos. Não diria melhores, mas extremamente profícuos em aventuras. 🙂

  3. Às vezes questiono-me como é que sobrevivemos aos tempos de liceu, nós e alguns dos professores (também tenho episódios de sair pela janela, com a professora de trabalhos manuais, que começava a aula com vinte e tal marmanjos e, invariavelmente, quando soava o toque de saída, só restavam quatro ou cinco).
    Um clássico na minha escola era começar a frequentar as traseiras dos pavilhões (para fumar e dar beijos ou para não fazer nada mais que ser “cool”, fosse lá o que isso fosse), coisa que só a partir do 7º ano era permitido, os miúdos do 5º e do 6º que tivessem essa infeliz ideia tinham a folha feita.
    Ahhh, bons tempos, quando a minha turma do 9º partiu um poste de iluminação e fomos todos supensos…

    • Apple, tens de contar essas maluqueiras todas. 🙂

      Conheço malta que sofreu horrores na preparatória e secundária e nem gosta de ouvir falar disso. Eu acho piada. Mesmo tendo sido um época com alguns enxertos de porrada à mistura. 🙂

  4. Grande Troll 🙂 não se pode dizer que não tenhas tido uma adolescência estudantil macambúzia e molengona, pá. Grandes historietas, essas tuas. Eu, a que tenho assim mais engraçada foi no 1º ano da Universidade, para não ser praxado, escondi-me na casa de banho das gajas. E aquelas vacarronas fizeram um escarcel do camandro que a malta que estava praxar foi lá ver o que era. Lixei-me, pois tá claro. 🙂

    • Francisco,
      Felizmente sobrevivi para as contar. 🙂

      Ahahah, as vacarronas. Tens de contar essas histórias. Quando é que inauguras um estaminé de tua autoria?

  5. eu sempre fui menina na escola…não tenho histórias escabrosas, jogava ao bate pé…mas não passava do 3.
    só no 10º ano é que comecei a ir para trás do pavilhão e a dar estalos aos miudos que me apalpavam…(só no 10º ano é que fui apalpada pela primeira vez…antes disso não tinha interesse…desenvolvi tarde)

    posso pagar a alguém para conseguires comentar-me? ou preciso de chamar o Brasileiro para ele enfardar em alguém?

    • Miss Kinky,
      Por acaso apalpador alheio nunca fui. Sim, apalpei bastante, mas era sempre consentido. 🙂 E obviamente sempre atrás dos pavilhões.

      NÃO CHAMA BRASILEIRO NENHUM!!! 🙂
      Vou tentar espreitar mais logo.

  6. Fogo, pelas histórias acho que tu próprio eras um badass e nem sabias. 🙂

    Eu, menina bem comportada que era, ficava a ver os badasses a serem ele próprios, e a suspirar pela maior parte.
    Sim, nós gostamos deles assim mais do que queremos admitir.
    Por isso é que te venho sempre ler. 🙂

    • Fiona,

      É sabido que as miúdas gostam de um bom bad boy. Era assim e continua a ser. 🙂

      Agora catalogar-me de bad boy…faz-me sorrir. Porque não sou. Ladro, mas raramente mordo.

  7. Meu Deus! O saco do Sport Billy… Eu ando sempre a dizer que a minha mala parece o saco do Sport Billy e ninguém percebe patavina do que estou a dizer. Cada vez gosto mais de ti, caramba.

  8. Troll,

    Antigamente as coisas eram resolvidas ali na altura, não havia cá comissões de protecção e mais mil e umas associações, levavas, levantavas-te e toca a andar, tantas coisas se passavam aqui no liceu, e hoje em dia rimo-nos dessas situações e não fizeram mal a ninguém, tirando umas cicatrizes e umas boas histórias para recordar!

    • É verdade Rainha St. Nos dias de hoje ou chamam os papás para resolverem os problemas por eles, ou chamam a TVI.

      Mas a verdade é que se tivessem filmado com telemóvel algumas das tareias a que assisti, fariam as honras de abertura do Jornal das 20h da TVI. 🙂

  9. Rapaz, tu tiveste uma infância muito infeliz, não foi? 😉
    A minha escola também tinha chorões, íamos sempre plantá-los no dia da árvore, mas nunca me lembraria de lhes saltar para cima, que aquela porcaria mancha a roupa.

    • Nem por isso, Alexandra, até foi bastante rica em experiências. 🙂
      E se todas juntas fizeram de mim quem sou, porque não partilhar algumas?

  10. (arranjaste aqui uma reunião de condomínio bonita 🙂

    Não me estou a lembrar aqui de nenhuma história, aliás, partilho a mesma história com centenas de miúdas que andaram num colégio – a tentativa de fuga diária para o café em frente.

    De resto, joelhos esfolados, lábios rachados e cabeças abertas … aconteceu tudo até aos 6. Depois, deixei-me disso.

    Oh, o saco do Sport Billy. Quase todos os dias me lembro dele. E também ninguém percebe.

  11. Eu também costumo dizer que no meu tempo não havia bullying era porrada mesmo, tudo se resolvia na hora ou fora do portão, a famosa “vou-te fazer uma espera”! Mas mesmo assim algumas mães eram uma seca, havia um menino que tinha a mania de nos bater e nós como é claro respondiamos da mesma forma, no dia seguinte, lá estava a senhora à nossa espera para nos questionar o porquê dos arranhões do menino…

    • Bem-vinda, Cristina 🙂

      A malta comia e calava. Não ia para a televisão chorar.
      Se hoje levavas, com sorte amanhã já eras tu a dar. 🙂

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