Genética

Estação de Metro de Entrecampos, nove e vinte da manhã, um cheirinho forte a café ali do lado, cortesia da Buondi, um aroma ainda mais intenso a catinga, o Channel Nº 5 de eleição de alguns dos bípedes que hoje me rodeiam. Ela ganhou-me. Dei o meu melhor ainda que de botins e calça com vinco à foda-se e ela ganhou. Sinto-me mal. Podia estar a convencer-me  de que a deixei ganhar mas não. Perdi. Detesto perder.

A Estação de Metro de Entrecampos é, pelo menos àquela hora da manhã, um dos pontos mais multiculturais da cidade de Lisboa. Esta estação está para as outras, como o Martim Moniz está para o resto da cidade. Brancos, pretos, asiáticos, camones de chinelo no pé, e mesmo malta da Margem Sul como eu. São demasiadas as manhãs em que ao sair do comboio me sinto num daqueles episódios do National Geographic em que  assistimos à migração sazonal dos gnus em busca de àgua. Ainda que me considerando o gnu cool ali no meio, pisoteio e uso os cotovelos quando necessário, tão bem como qualquer outro. Hey, temos sempre todos de estar em algum lugar a horas, certo?

Apercebi-me dela ao cimo das escadas. Desliguei o pokerist.com, já tinha feito 3.2k em poucos minutos. O dia prometia. Ia em terceiro, ela passou por mim esbaforida. Parecia atrasada. Balofa e com os flancos horrivelmente apetitosos para qualquer predador. O estereótipo de gnu lento e fraco que cai e é comido nos primeiros segundos da perseguição. Eu, armado em gnu Alfa, estuguei o passo para lhe mostrar quem mandava. Ela fez All In nas passadas. Não tinha jogo para ela e nunca mais a consegui apanhar. Confesso que tentei.

Fui encontrá-la segundos depois na mesma zona da estação onde costumo parar. O brilho de suor na testa e no buço, faziam um contraste interessante com o tom de pele, e o torso que se contraía repetidas vezes, traíam-lhe a aparente calma. Ela ganhou-me. A mim, ao sherpa do grupo do trekking. Provavelmente ter-me-ia ganho com uns crampons enfiados nos pés. Atribuí a derrota à genética e não à modorra que se me instalou na alma.

7 thoughts on “Genética

    • Fiona, se calhar até já nos cruzamos e tudo. Isto do anonimato é engraçado e tem a sua piada. 🙂

      Sim, sou mais gnu do que gostaria de admitir.

  1. Correndo o risco de ser repetitiva, mas só de ler fiquei ofegante.
    Chegou a ser quase emocionante.

    Mas não te preocupes, numa outra migração irás conseguir recuperar o teu lugar de gnu alfa, sim porque foste destituído 😛

    • É triste cair assim, CP.
      Na montanha duvido que ela me tivesse conseguido vencer. E dai…já passaram mais de 3 anos desde que subi acima dos 2000 metros…
      Mas na marcha entrego o meu lugar a outro. 🙁

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