Les Fleurs du mal

Encontram-me por esta altura a tentar chegar, a custo, a um ramo de azáleas vermelhas. Para mim, na altura com uns sete ou oito anos, são apenas flores giras que quero roubar. Apenas umas grades que o tempo se encarregou de enferrujar, me separam de um final feliz. Achava eu que flores seriam um bom agradecimento para os dois beijos trocados com a Luísa. Com nove anos bem rodados, só os mais velhos se podiam gabar de lhe terem tirado beijos. Os mais velhos e eu. Mas não consigo chegar às azáleas. Decidido que estava a não desistir, ganho coragem e abro o portão. Da porta de entrada da casa nem vivalma. Avanço. O ranger do portão estraga todo o modo stealth com que achava que ia concluir o roubo. Quando já tenho nas mãos uma quantidade generosa de flores, a mão da dona Etelvina a puxar-me bruscamente a orelha esquerda, alerta-me para a dura realidade que seria a minha vida, na pele de um fraco criminoso. Nem as miseras flores de um jardim. O caminho desde o jardim da dona Etelvina até casa torna-se demasiado longo. Pelo caminho a Luísa e as amigas vêem-me com as flores na mão. Não tenho oportunidade de lhe dizer que eram para ela. Não consigo fazer peito à homem porque tenho oito anos e estou a ser levado por uma orelha. É a descrença total. Já em casa, Mamã Troll  faz-me ver com veemência, que uma vida de crime nunca compensaria. Sou rápido a concordar, antecipo-me num pedido de desculpas para evitar males maiores, mas obrigam-me ainda assim a explicar a razão. Envergonhado pela reacção delas à minha confissão, sob a forma de risos, começo assim uma horrível relação com flores, e a sua parca utilização como acessório na conquista de mulheres.

Anos mais tarde, já com o modo conquista actualizado com as últimas drives, dei um ramo de flores à Vera. Leiam a história e saberão onde isso me levou. Lembro-me também de ter apanhado umas flores do campo e as ter dado à Cláudia. Assim como quem dá uma medalha a um soldado por bons serviços prestados. Ainda que também não me tenha levado longe. Jurei para nunca mais. Foi a promessa que mais vezes deixei cair por terra. Continuei a fazê-lo contrariado, porque li algures que elas gostam, mesmo as que dizem que não gostam. Mas fartei-me. De há uns anos para cá dei o meu grito de Ipiranga. Sirvo-me de outros subterfúgios para agradar. Flores nunca mais. De azáleas então, fujo a sete pés.

21 thoughts on “Les Fleurs du mal

  1. Não acredito que exista uma mulher que não goste de receber flores. Algumas poderão até dizer que não ligam a isso, mas no fundo apreciam o gesto.

    Apanhado a gamar flores para uma dama….tss, tss 🙂

    Adorei.

  2. Por acaso, nunca percebi essa mania com as flores. Parece uma tara. Olha se lhes dá para adorarem receber árvores. Estávamos bem lixados, todos armados em lumberjacks 🙂

    • Ahahah, ofereço-te este sobreiro como forma do meu amor por ti!! 🙂

      “Surpreendida pelo soberano, que lhe inquiriu onde ia e o que levava no regaço, a rainha teria exclamado: São eucaliptos, Senhor!” -_-

      Boa, Vic.

        • Só dás credito à minha aversão a dar flores, Alexandra. Se o teu Avô te tivesse oferecido um ramo de flores, no máximo dos máximos, terias feito uns motivos florais e emoldurado a coisa para a posteridade. Assim tens azeite da terra. -_-

  3. A unica vez que alguém me deu flores, também eram roubadas de um quintal.
    Com a diferença que o dito cujo já era adulto, teria uns 23 anos.
    E as flores eram feiosas ainda por cima, mas ele nao era nada feio, o que compensava o facto de ser forreta e ladrão de jardins.

    • freeculture, não teria sido bastante mais prático e útil se, ao invés de ter roubado flores de um quintal, tivesse roubado batatas, ou nabos? Umas cenouras? Era pouco romântico. Era. Mas se o moço te tivesse feito uma sopinha das boas, ainda hoje te lembrarias disso. 🙂

      • Isso é que era, juro-te um homem roubar para me fazer uma sopinha de beldroegas. Aiiii senhor isso sim, era para a vida toda.

  4. Quando tinha os meus 9 anos um amigo tirou as rosas do jardim da mãe para me oferecer, eu adorei o gesto e ele foi devidamente recompensado. O pior foi quando a mãe dele deu por falta das rosas, o coitado levou uma tareia, mas disse-me que valeu a pena!!
    Por isso caro Troll insiste nas flores porque olha que a recompensa por norma faz valer a pena!!

  5. Oh tão querido… Certo, a parte de teres passado em frente à Luisa com a D. Etelvina a puxar-te a orelha não foi bonito mas enfim…

    Eu nunca fui muito adepta de ter flores, mas se mas oferecerem (desde que não sejam rosas) é um gesto bonito e que gosto mas, tal como uma menina disse acima, se forem chocolates melhor (Chocolate negro/leite/branco tanto faz)!

    • CP, a D. Etelvina era má. Foi um risco mal calculado. 🙂

      Chocolate sempre!! Menos branco. Nunca dei no branco. Não gosto.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.