Lose some, win some

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Devia ter uns seis ou sete anos da primeira vez que perdi algo. Recordo-me de sair à rua todo feliz com o meu primeiro chapéu de chuva para ir para a escola. Fui avisado para ter imenso cuidado com ele. Era um mini guarda chuva à homem. Sim porque isto de lhes chamar chapéus de chuva não existia na minha terra. Era um Guarda-Chuva e pronto. Era preto, com uma ponta de metal. Ao fim de uns metros já era uma imponente espada que estraçalhava sem dó, as ervas daninhas do caminho. Mas foi sempre na minha mão e não o largava por nada, ciente de que se o fizesse, ficaria com o rabo aquecido à base de porrada.

Mas eu tinha seis anos. Não me recordo bem do motivo que me levou a pousar a minha espada-guarda-chuva-com-ponta-de-metal. Pode ter sido por me terem escolhido para a equipa de futebol da malta que eu achava fixe. Já nessa altura não jogava a ponta de um corno. Era sempre dos últimos a serem escolhidos. O não ter ficado para o fim deixou-me de tal forma efusivo que nunca mais me lembrei do chapéu. Ficou sozinho no recreio. Quando cheguei a casa de mãos a abanar, fiquei de rastos pela perda, e com o rabo a ferver.

Mais tarde, já na escola secundária, perdi a carteira. Fui com a Estela ao bar comer um bolo. Comi o bolo, e depois fui para trás do pavilhão comer a Estela. Nessa altura ela não deixava passar da second base, isso veio depois numa visita de estudo à Serra da Estrela, mas era já bastante solícita e alinhava sempre em patuscadas gulosas comigo. Só me lembro de comer o bolo à pressa a galar-lhe as mamas. E reparem que era uma bola de Berlim, o meu bolo de eleição nos anos noventa. É incrível como a cegueira impera no reino do mamaçal. Passado o furo, sorridente e com a libido saciada, fui para a aula de educação visual e nunca mais me lembrei da merda da carteira. Ficou no bar. Ainda fui lá perguntar se a tinham visto, mas certamente algum cabrão comeu umas bolas de Berlim à minha pala. Acabei por apanhar mono, e recordo-em da carga de trabalhos que foi, convencer o motorista do autocarro a deixar-me ir para casa sem mostrar o passe. Foi ainda pior chegar a casa e contar uma história plausível. Safei-me de ficar com o rabo a ferver.

Ontem aconteceu novamente. Entrei no café do costume, tirei o meu gorro da sorte, folheei “A Bola”, gozei com a tanga dos tripeiros continuarem na taça da Liga, paguei o café e saí. O dia de trabalho passou demasiado lento como sempre. Na rua estava frio e apressei-me a abotoar o casaco. O gesto mecânico de ir à bolsa tirar o gorro, emperrou na ausência do mesmo. Voltei ao café e ninguém o havia entregue. Fanaram-me o gorro. Se por acaso se cruzarem por aí com um tipo a usar um gorro azul escuro, lindo, mesmo à pescador de bacalhau dos mares da Noruega, pode muito bem ser o meu.

4 thoughts on “Lose some, win some

  1. Isso foi o karma, quem goza com os tripeiros não é digno de usar um gorro azul…. 😉

    e que desculpa é que arranjaste ontem para te safares do “rabo aquecido à base de porrada”?

    • MisS, my bad, eu não devia ter escrito tripeiros, sendo que ainda me considero um deles, devia ter escrito adeptos do fequepê. 🙂

      Infelizmente já sou eu que pago os gorros. Não nunca me esquivo a umas palmadas no derrière. Desde que com intenções lascivas. -_-

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