Mala Matiana

Começou por ser uma simples maçã, deixada como que por magia na mesa dele. A tez cabo-verdiana dele eliminava-o como possível vitima da bruxa má, e assim, tal como a Branca de Neve mas sem as rendinhas e os folhinhos à volta do pescoço, comia aquela maçã verde como se nada fosse. Não era venenosa, era até bastante saborosa, estava lavada, e caía bem às dez da manhã, why not?

Depois passou a ser um croissant com fiambre e queijo, deixado na secretária com um smile desenhado num post it amarelo. Era um clichê saboroso que lhe confortava o estômago. E continuava a não fazer a mais pálida ideia acerca de quem lhe deixava diariamente tais oferendas. Devia estar a sentir-se um Deus. Faltava uma virgem como oferenda mas a cavalo dado não se olha o dente.

Depois alguém a viu a deixar um croissant. E contou-lhe. Era a C. do outro departamento. Engraçou com ele, e ainda que nunca tivessem trocado mais de dois monossílabos, achou-se no direito de lhe oferecer coisas, e não lho disse. Devia ser tímida. Com trinta e oito anos ainda se é tímido? Presumo que sim, ainda que ache que a partir dos trinta todo o tempo é pouco, e nada deve ficar por dizer.

Ao fim de algumas semanas ele estava farto de saber que era a C. a deixar-lhe os regalos matinais na sua secretária. E fez o quê para resolver a situação? Nada. Absolutamente nada. A não ser comer-lhe o croissant com fiambre e queijo, intercalado pontualmente com a maçã verde. O resto da equipa achava que ele a andava a usar, mas sem a parte do secso. Ele ria-se e dizia que ainda ganhava coragem para resolver a ausência do secso. Nos círculos mais próximos da empresa, granjeou fama de fodilhão, ainda que jurando a pés juntos que é mais fama que proveito. Ela, desconhecendo todo o bruá que os seus avanços culinários estavam a causar, mantinha-se na ilusão da conquista de um homem pelo estômago que lera em algum lado.

Veio então o dia em que confrontada com a dura realidade, dele a cortejar uma outra qualquer ao pé da máquina do café, chorou. Nunca saberei se a pensar num futuro rodeado de crianças mestiças a gritar em crioulo “Mamã queremos maçãs”, que não se ia realizar, se a pensar no investimento a fundo perdido que foi a ida diária à mercearia e ao café da esquina. A secretária dele nunca mais teve comida pela manhã.

15 thoughts on “Mala Matiana

    • Filipa, eu sei. Dei a minha opinião em relação à questão da insegurança.
      Mas ninguém reage da mesma maneira.

      Fui seguindo mais ou menos o pós incidente. Para ele foi como se anda tivesse acontecido. Mas foi muito pouco cavalheiro. Eu teria falado com ela.

    • Vic, acredita. Não teria sido o mais esplendoroso serviço gourmet, mas não se terem comido (ou sido comidos), foi um desperdício. 🙂
      Mas se calhar em tendo havido troca de fluídos a história não seria tão gira.

  1. Isso não foi nem de longe, nem de perto a pior forma de “usar” uma mulher. Como por certo saberás, podia ter sido muito pior. Se ficou pela oferta de comida, ela sobrevive. O coração fica magoado, mas ela sobrevive. Com 38 já não deve ser nada de novo para ela.

    • T, bem-vinda. 🙂

      Eu sei disso, e eles também saberão por certo. As paixões platónicas enchem os livros de tanta e tanta pseudo literatura. 🙂
      Gostava que tivesse dado em algo. A parte do deixar-lhe comida, nunca tinha visto.

    • Pulha, as C’s desta vida são as menosprezadas. Era fácil encontrar equilíbrio com qualquer uma delas, mas temos uma tendência para procurar sempre mais. E nem sempre é melhor.*

      *(Fuck, isto parecia uma análise Arrumadinha. Juro que foi sem intenção).

  2. Eu vou na linha do “foi melhor assim”. Provavelmente irá recuperar mais depressa do que se tivesse havido secso. Diria mesmo que a atitude dele teve um quê de cavalheiresco. Por outro lado, se tivesse havido troca de fluidos talvez a C. acabasse por sair do seu mundo abstrato e ideial e começasse a aproveitar a vida tal como ela é. Aos 38 anos ainda vai bem a tempo…

  3. Acho que nessa história falhou inovação alimentar.

    (eu, após o dinheiro gasto com a 2.ª maçã e o 1.º croissant e não havendo retorno, tinha desistido)

  4. Boa história, acho que a C. fantasiou uma possível relação com essa pessoa! A C. criou no mundo dela o que seria o início de uma conquista, de um amor. Provavelmente ele nem iria corresponder às fantasias criadas por ela. O Menino sabendo da C. deveria ter sido mais elegante (homenzinho) e se de forma frontal seria constrangedor para a C., no minimo devolvia-lhe a maçã com um bilhetinho do género, sei quem és e agradeço os presentes, mas não me parece seja apropriado, visto não existir retribuição da minha parte…algo do género.
    Isso dos 38 anos, não concordo. As pessoas têm medo de sofrer e muitas vezes é mais fácil sonhar.

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