Na mesa dos miúdos como dantes

Eu não estava à espera de ouvir Vangelis como no Momentos de Glória. Não estava. A minha actividade física nos últimos dois anos, resume-se a movimentar com bastante agilidade os polegares oponíveis na Playstation. Diz que não chega, que é preciso mais qualquer coisa. Entrei pois de fininho no balneário e refundi-me o mais que pude. Era suficientemente mau estar ali por estes motivos. Ia fazer o meu teste de aptidão para natação livre, que nunca fui gajo para seguir ordens todo húmido. Era escusado ter levado logo com o nalguedo geriátrico de dois idosos que acabavam de tomar banho. Pimba. Logo para abrir a pestana. Não reparei se andaram a apanhar sabonetes. Mas sorriam. Deve ser um código. Eu nunca fui muito bom a ler nas entrelinhas. Ignorei e mostrei-lhes as nalgas enquanto vestia rapidamente o meu fato-de-banho-a-armar-em-gajo-bom. Se fosse esse o código, (o do nalguedo), tratei logo de confraternizar. Não. O fato de banho não foi por opção para excitar a malta. Era obrigatório e o meu ar de escandalizado quando me informaram disso deve ter dito tudo. Detesto andar com tudo assim apertado. Mas eu era a man with a mission.

Termo de responsabilidade entregue, e depois de me ter sido explicado o que esperavam de mim, fui-me encaminhando para a piscina. Novamente nem sinal de Vangelis. “…delicia, delicia, assim você me mata…”. Foda-se. Não era com esta música que eu queria entrar na água. Era o meu momento. Aparentemente também era o momento da aula de hidroginástica.

“Para lá crawl, para cá costas, para lá bruços, e para cá com o estilo que se sentir melhor.” Bitch, please. Eu no meu tempo fazia uma piscina debaixo de água. Challenge accepted. Ao fim da primeira piscina achei que algo errado se passava. Os meus braços começaram a não aceitar bem a ideia de se manterem em movimento constante. Comecei a pensar que o público presente reparava em mim, e fiz mais um esforço para me manter no ritmo.

Acabada a segunda piscina, comecei com bruços. Era o começavas. Seis metros. Seis míseros metros foram as minhas braçadas. Deixei-me ir ao fundo, enquanto imaginava a vergonha e os olhares da “audiência”. O professor chamou-me com um sorriso indecifrável. «Já não pratica desporto desde quando?» «Demasiado», foi a minha resposta.

Não tenho liberdade. Foi-me imposto o nível 1. Menos mal pensava eu. Até ver que o nível um eram os cotas do nalguedo. E uma senhora com obesidade mórbida. «É para melhorar a sua coordenação. E a condição física. Daqui por 3 meses voltamos a testar» Va a fare in culo, farabutto!! 

A minha próxima aula é paredes meias com a das crianças. Como nos casamentos. Com os adultos ao lado. Livres.

 

19 thoughts on “Na mesa dos miúdos como dantes

  1. natação… há anos que não faço isso. cheguei a andar praí 3 anos quando era miúda e não deixou muito boas recordações. isso dos balneários é uma seca, especialmente quando há aquelas tipas que adoram mostrar o seu corpo desnudo e então passeiam-se alegremente pelo balneário como se estivessem em sua casa. e hoje teria o mesmo problema que tu, a humilhação de não conseguir nadar nem 3 metros. eu também fazia piscinas inteiras debaixo de água, mas agora dá-me logo a falta de ar depois de 4 ou 5 braçadas.
    eu prefiro aceitar a minha flacidez e ficar no sofá, em jeitos de Forever Alone, a ver filmes enquanto como bolachas 🙂

    • Não!!! Não me fales das bolachas. São umas malandras. 🙂
      Não sei qual é o teu problema com gajas desnudadas a bambolearem-se à tua frente. 🙂 Não vejo nada contra. 🙂

    • Francisco, a vergonha foi mais comigo próprio. Desleixei-me. E tenho algum receio de já não conseguir recuperar. Mas é só para provar a mim mesmo que ainda consigo. 🙂

  2. Raios, eu cá tenho as melhores recordações da natação. Claro que tinha metade da idade que tenho hoje e, como tal, hoje faria figuras tristes – isto para nunca falar no motivo que me levou a abandonar a natação, que foi quando começámos no estilo mariposa e eu não tinha forcinha nos braços para vir ao cimo respirar (chegava quase ao fim da piscina e tinha de parar).

    Mas olha, foi nos balneários das piscinas de Loures que me ensinaram o teste do lápis para ver se temos as mamas descaídas. Ele há memórias que só Alzheimer levará de mim…

    • As coisas que se aprendem na natação. A mim não me falaram em lápis nenhum. 🙂 Mas também as coisas que os gajos poderiam querer medir não me iam interessar minimamente… 🙂

  3. Gentes! Há que tempo que não via alguém a usar o termo NALGAS!!!. è só nádegas para aqui, nádegas para ali…tudo a armar ao fino. Que vergonha! Nalgas, uma das mais belas palavras portuguesas…parabéns pelo arrojo.
    Quanto à natação, não sou especialista, falta-me logo o ar mergulhado em 10 cm de água, além de que só gosto de usar touca para dormir.
    As melhoras.

  4. Vdealmeida, o politicamente correcto não mora aqui, como já deves ter reparado. 🙂

    Se a palavra existe, é dar-lhe uso.

    Eu também, nunca tive aulas. Sempre achei que ter morado a 200 metros do Douro fosse suficiente. E era. Estar parado é que estragou tudo. Mas eu chego lá. As costas pedem.

    Me aguarde. 🙂

  5. É preciso força de vontade para voltar a praticar o que se deixa de fazer por muito tempo… E em breve ficas em forma novamente. Vai custar um bocadinho, vão doer músculos que nem sabias que existiam no teu corpo, mas depois vai saber bem. 🙂 Humm… Mas não ligues ao que eu digo, porque não sei nadar. :X Contudo, sei o que é deixar de me mexer e querer voltar ao estado anterior. É algo que me acontece muito. :X

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