Nas chuvas de Invernos agrestes

A minha mãe nunca me deixava andar a brincar à chuva. As mães dos outros miúdos lá da rua também não, mas não eram eles que levavam com os poderosos açoites da minha mãe. Não havia portanto aqui suspeições por acatar as decisões dela.

Os outros miúdos vinham para a rua de galochas vermelhas e verdes. Menos o Paulo que era mais pobre do que nós e andava sempre com as Sanjo brancas para parecer sempre cool e não pobre. Parvo. Sempre me perguntei porque é que ele tinha umas Sanjo e eu não. Eu queria ter umas Sanjo. A minha mãe achava-as demasiado brancas, e depois olhava para as do Paulo enlameadas e dizia: “a mãe dele é uma desleixada. Pobre mas arranjadinho”. Arranjadinho esteve para ser o nome deste blog, mas depois a blogosfera ia cair-me em cima a chamar-me hater e imitador.

Falava eu de chuva. Eu cresci a achar que quem andava à chuva, para além de se molhar era estúpido. O Gene Kelly era o rei deles todos. Dançar à chuva, para além de panisguice, molhava as meias. O Filipe também partilhava a minha repulsa por andar à chuva mas o caso dele era diferente. Não gostava de tomar banho. Eu detestava meias molhadas e nunca percebia como é que as galochas metiam água. Percebi depois que não eram boas para dar chutos nas pedras e jogar à bola. Rasgavam-se e depois molhava as meias. (Se as Hunter existissem na altura tinham feito sucesso. Dizem que são mesmo muito boas. Será que dão para jogar à bola?)

Já com as hormonas uber alles dei uma vez um beijo na boca à Fabiana. Foi ao pé do rio. Estava a chover miudinho e tinhamos faltado à Catequese. Foi uma coisa gira. A Fabiana não era gira, mas eu ainda não era esquisito com essas coisas. Ela tocava acordeão. Eu nunca lhe toquei grande coisa que a mãe dela era catequista e fazia-lhe a cabeça para que fosse casta para o casamento. Eu não queria casar com ela por isso nunca insisti. Ela a mim também não tocou grande coisa porque não percebia nada do assunto. E dedicava todo o seu trabalho de mãos ao acordeão. Ainda que não tocasse a ponta de um corno nunca lho disse, sempre na esperança que ela algum dia mudasse de ideias. A Fabiana gostava de saltar nas poças de água. Tinha umas galochas fofinhas amareladas, talvez predecessoras das Hunter. As dela não metiam água por isso andava sempre com os pés quentinhos e provavelmente achava piada ao Gene Kelly. Nunca lhe perguntei.

O Paulo continuou a usar as Sanjo dele. Mesmo quando já tinham passado de prazo e de moda. Aposto que ele passou aqueles Invernos todos com os pés molhados. Eu continuo a não conseguir saltar para uma poça de água quando passo por uma. Obrigado mãe. Invejo os putos que se divertem a fazê-lo. O Filipe em algum ponto da vida deve ter começado a tomar banho porque casou. A Fabiana continua feia. Não sei se ainda toca acordeão. As Sanjo voltaram mas agora já não me apetece ter um par.

 

 

 

 

38 thoughts on “Nas chuvas de Invernos agrestes

  1. eu tinha umas galochas aos morangos que também começaram a meter água. também tive umas sanjo herdadas da irmã. mas nunca saltei para poças – preferi sempre correr e espantar pombas ou calcar folhas secas. pés molhados são coisas que a mim não me assistem, porque fico sempre doente.
    agora confio nas botas de cano alto. e confiaria numas hunter se alguém mas desse 😉

    • ml, galochas com morangos. 🙂 Do melhor.
      Eu tenho visto Sanjo recentemente mas já não têm nada a ver com as originais.
      Espantavas pombas? Eu tinha uma pressão de ar. 🙂

    • bluesy, não sei. Mas da última vez que a vi, não me pareceu que tivesse perfil/corpo para strip. Se bem que com o acordeão à frente até enganava os pouco exigentes voyeurs.

      *NoteToSelf*: ir ao Viking um dia destes.

  2. Pés molhados também nunca foi comigo. Nem pés nem coisa nenhuma, que raio de ideia a de andar à chuva… mas partir à pedrada as poças de água congeladas nos invernos rigorosos, nos intervalos da escola ou antes de sair para lá, isso sim era coisa para me entreter uns bons minutos.

    • Blue, ainda hoje fico piurso com pés molhados. 🙂
      Não consigo partilhar daquele feel good dos filmes de andar à chuva em ambiente romântico.

  3. Pés molhados também nunca foi comigo. Nem pés nem coisa nenhuma, que raio de ideia essa de andar à chuva… Já partir o gelo das poças congeladas, no intervalo da escola ou ainda no terraço de casa, naqueles invernos rigorosos, era coisa para me entreter uns bons minutos.

  4. Eu tive algumas Sanjo. Adorava as rodelas de borracha que protegiam o artelho 🙂
    Gostava de não morrer sem aprender acordeão.
    O Gene Kelly tinha um piquinho a azedo, e ao Viking nunca fui.
    Acho até que devias dar uma valente reprimenda a quem assume que usava botas de borracha para espantar pombas.

    Koniec! 😉

    • Fiona, a keeper?
      Nahhh. Não me conheces. Também consigo ser uma mega besta de vez em quando.
      Uma ogre como tu não tem um pântano onde escrever? 🙂

    • 🙂
      Rucanor só me lembro de serem as chuteiras que a malta tinha dinheiro para comprar.
      Eu não que era sempre o último a ser escolhido e tinha que ir sempre à baliza.

  5. Primeiro que tudo, acho que a Sanjo e a Hunter te deveriam pagar pela publicidade que lhe fazes.
    Segundo, também detesto sentir os pés molhados ou humidades onde quer que seja, especialmente em alguns sítios do corpo.
    Terceiro, concordo com o Francisco. Também acho que o Gene agasalhava o palhaço, embora nessa altura fosse tudo mais recatado e com alguma classe. Hoje vêm-se muitos a dançar à chuva (desde que chova) ali para os lados do Conde Redondo, Princípe Real e outros que desconhecerei por não frequentar.

    • V, ainda não me pagam para fazer publicidade aqui no espaço. Eu é que sou mãos largas.
      Não tarde nada estou a abrir um espaço físico ali na baixa. Com o nome Troll’s Den é que não devo ter grande clientela. 🙂

      O Gene tinha ali um piquinho. Pelo menos parecia.

    • S*, eu até posso fazer um esforço, o de saltar nas poças, mas depois ia estar sempre a ver a minha mãe a torcer o nariz, e ia estragar sempre o momento. 🙂

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