Nature nurture

De todos os forwards de emails que recebo, sendo que quando se trabalha numa empresa de grandes dimensões não são assim tão poucos como isso, os que mais detesto são aqueles PDF’s com naturezas espectaculares, os fiordes da Noruega, ou os geisers na Islândia, daqueles que dão mesmo vontade de largar tudo e ir visitar. Porque as mesmas pessoas que me enviam essas naturezas de cortar a respiração, são as que nunca as hão-de visitar. Eu conheço-as. Alguns até arranjam desculpas para descer quatro andares de escadas. Tudo isto se torna ainda pior quando se está à demasiado tempo sem rapar um saudável frio no meio da neve, sem crampons, e ainda que agasalhado, a quilómetros do refúgio mais próximo. Sentes os tintins enregelados mas olhas em volta e sorris. Ou no meio do Wadi Rum, na Jordânia, a achar que havaianas terão sido a pior escolha possível para caminhadas no deserto. Só o chá oferecido pelos beduínos parece mitigar a dor dos pés queimados. Ou na pior molha da tua vida nas Terras Altas da Escócia, entre charnecas e o Ben Nevis, só porque achaste que aquelas nuvens não eram nada de especial e o oleado que trazias te iria proteger da intempérie. Mas a companhia é boa, e umas boas gargalhadas e sorrisos cúmplices parecem afastar as nuvens escuras. Recuando ainda mais no tempo, sabes que eles nunca hão-de correr por entre milheirais e ficar com comichão pelo corpo todo, porque aqueles dióspiros roubados iam saber muito melhor depois de uma corrida, ou atravessar o Douro em jangadas artesanais com remos feitos à mão e madeira roubada de uma Serração próxima, ou entrar em grutas a que chamam banjas, munido apenas de uma lanterna das baratas e uma corda que te amarra o tronco ao amigo da frente.

O mundo é grande e conheço muito pouco dele. Queria conhecer mais e não posso. Mas estes cabrões conhecem ainda menos. E fico mesmo chateado com emails destes. Ainda mais do que quando me mandam pornografia. A essa apago sem abrir. À merda dos PDF’s de natureza tento resistir mas não consigo. Isto lembra-me que tenho de ir à arrecadação procurar os crampons. As botas estão velhas. Mas já me apaixonei por umas novas e a um preço não tão acessível quanto isso, mas que se foda. Vão ser a minha prenda de Natal. Vou voltar ao trekking na neve. Depois faço um PDF com as fotos e mando-vos.

8 thoughts on “Nature nurture

  1. Nem todos pensam como tu. Eu sofro um pouco porque não consigo viajar ou não consigo conhecer algum país que me faz vibrar…custa-me não ter disponibilidade financeira para ir mais longe, conhecer mais e viver mais intensamente o que vemos nas fotografias.
    Acho bom receber essas imagens, faz-nos pensar, sonhar e se for o caso tornar essa foto num objectivo, objectivo de ir conhecer… Faz-se aos poucos, mas faz-se!
    ah…isso de apagar mail porno…deve ser verdade… 😉

  2. Eu sonho dia e noite com destinos agrestes, Alasca, Sibéria, desertos e grande Canyon. Dispenso Cubas e Mexicos de coktail na mão. Não são feitos para mim, são para os outros.
    A falta de dinheiro só me permite sonhar mas chegarei lá.

    ps: Que bom que estás a voltar aos poucos, gosto de te ler.

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