O Hondo, a cobra deste, e a Baló-Baló

O Joe, o Índio, nunca gostou de mim. Não que me lembre mas contaram-me, que tendo eu ainda pouco mais que meia dúzia de meses, e ele, obrigado que foi a olhar por mim uns minutos, achou que cuspir-me nos olhos, me traria a paz e sossego que as cólicas não estavam a dar.

E assim começa a história. A progenitora nunca ficava toda preocupada com os ciúmes do mais velho, e ia a correr aos forums online, apaziguar as dúvidas sobre a personalidade do primogénito. Nada disso. Duas galhetas bem aviadas, eram a receita que a sua própria Mãe lhe havia receitado anos antes, por isso vai de mezinhas caseiras.

O problema, é que o Benjamim começou cedo a pagar a factura de tais receitas caseiras. Tinha três anos, e já era obrigado a imitar a Rosa Mota nas corridas de fundo, sob a ameaça de um pau de vime. Era ver-me a correr porta fora, com o cabelinho comprido com canudos pelos ombros, e meias de renda quase até ao joelho. Os cinco anos de diferença entre nós, faziam dele um temível Golias, e eu, fraca amostra de David, e sem fisga, corria pela minha vida sob a ameaça de vergastadas.

Ele era o Mao Tsé-Tung, o Staline, e o Adolf Hitler juntos. Os meus dias eram como os deste. E as noites não eram melhores. E porquê? Porque o Mao também era um filho da mãe com uma imaginação fértil. O medo do escuro que hoje, pragmático, tendo a rejeitar, ainda se encontra alapado no meu inconsciente. E a ele o devo.

Contava-me ele, noite após noite, que sempre que eu me acabava por me deixar embalar por Orfeu, saíam do nada escuro e profundo, seres horrendos. Qual homem do saco, qual boogieman,  qual quê. Eles tinham nome. Hondo, o temível hondo, (sim, também descobri mais tarde que havia um western com o Jonh Wayne, com o mesmo nome, mas na altura não havia google), a sua cobra gigante que nunca teve nome, (nagini teria sido giro), e Baló-baló, um ser que imaginava peludo, e gémeo daqueles com cabelo até aos pés, das máquinas voadoras. E com estes horríveis seres controlava-me as brincadeiras,  a vontade de ir mais além. Preferi durante muito tempo, ficar sempre ali por perto, onde havia luz e o mal não entrava.

Não sei como é que terá sido a infância de todos aqueles, que estoicamente sobreviveram a irmãos mais velhos, a minha teve sempre por companhia, o Hondo.

 

34 thoughts on “O Hondo, a cobra deste, e a Baló-Baló

  1. (Essa frase do vime não me soou muito bem, mas enfim.)
    O teu irmão bem te lixou o juízo. Por isso é que não consegues fazer nada do cabelo, ainda está todo ouriçado (ou será eriçado?).

    [aposto que tens um desses maravilhosos quadros do menino da lágrima por cima do psiché (mais uma linda palavra, hein?)]

    • Vic, a alternativa era verga. 🙂

      O meu irmão só o é porque temos os mesmos pais. Cessa aí, praticamente toda e qualquer afinidade.

      Não tenho, mas em casa da minha avó havia um, claro. 🙂

  2. sou irmã mais velha e além dessas, deixei também cicatrizes físicas. é o nosso papel. se a vida vos vai dar umas estaladas e vincar-vos uns traumas, mais vale que seja assim, sem grandes surpresas e das pessoas que um dia mais tarde até vão gostar de vocês. =)

    • Ana, físicas?? Tu eras má, não eras? 🙂

      A vida continuou e continua a dar-me uns estalos de quando em vez, mas o que eu queria mesmo era que a tua última frase, tivesse algum fundo de verdade aqui para os meus lados, mas não.

  3. Não tive esse problema, sou a mais velha! Mas provoquei alguns danos aos que vieram depois de mim, acho que é o nosso papel, prepará-los para a vida!!

  4. “O medo do escuro que hoje, pragmático, tendo a rejeitar, ainda se encontra alapado no meu inconsciente.”

    Eu tenho um medo que me pelo do escuro. E não tive irmãos a meterem-me medo. Alguma susto em criança se calhar. 🙂

    • Filipa, se calhar a baló-baló tinha família aí para os teus lados. Sim, porque até os monstros devem ter família. 🙂
      Será que os monstros são assim maus, porque também eles tinham irmãos mais velhos a infernizarem-lhes a vida?

  5. Eu sou a mais velha, não sofri muito, mas o medo que a minha irmã tem do escuro, foi presente meu.

    Com 7 anos de diferença eu nos meus 10, achava que ele era uma chata, e começei a meter-lhe medo do escuro para não me chatear, hoje tenho pena 🙂

    • CP, estou a encontrar neste post um padrão de irmãos/irmãs mais velhos a concordarem que sim senhor, assustávamos os mais novos e tal…e não estou a gostar. 🙂

      Maus. Todos vocês. Maus.

      • Nem tudo é um mar de rosas, quando lhe chegava a roupa ao pêlo (que é como quem diz, dar um encontrão) ela berrava como se a tivesse a matar e fiquei muitas vezes de castigo por enfardar na mais nova.

        Ela foi aprendendo a usar o mal que lhe fazia contra mim, aprendeu comigo 🙂

  6. bah, não é coisa dos rapazes. a minha irmã dava-me estalos, e se eu lhe desse um de volta ela ia queixar-se.
    era um estafermo mas agora é fixe – e eu não sei que fazia sem ela 😉

  7. Deixa estar Troll que os indios (na america) estatisticamente tem mais problemas de desemprego ,alcool e sofrem muito de discriminaçao racial. Ok tem quase o monopolio dos casinos, mas gastam lá todo o seu dinheiro, pois tem uma taxa imensa de jogadores compulsivos.
    Ja estás mais contente? com este rol de desgraças que o futuro reserva ao teu irmão Joe o indio? Neste momento a vantagem que ele leva sobre ti, é que as indias (pelo menos as dos filmes) sao muito mais lindas que as caras pálidas.

    • Assim de repente, e tirando a Pocahontas, que mesmo tendo aquele ar de sonsa é engraçadita, não me lembro de nenhuma Índia assim giraça.

      É que nem mesmo a Q’orianka Kilcher do New World com o Colin Farrell.

      De discriminação racial, não posso dizer que sofra. Talvez daqui a uns 20/30 anos. 🙂

        • Vic, por acaso estive quase a falar de um filme em que a Elisabeth Taylor faz de Índia, mas não encontrei o título. Tenho quase a certeza que era com ela. Mas ia gozar com o facto de ser uma branca a fazer de índia. 🙂

  8. Também sou o mais velho. Aquele que enfardava pelas próprias asneiras e pelas dos irmãos, que a irmã era menina e o irmão era o mai’novo. Oh vida ingrata 🙂

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