O Rato do Campo era um totó

Era uma vez um Rato que vivia no campo. Levava uma existência assim assim. Levantava-se de manhãzinha, lavava a tromba e escovava o pelo até ficar sedoso. «-Hoje vai ser um belo dia», dizia para si mesmo. Mas não era. Era um dia igual a todos os outros dos últimos anos. O Sol brilhava e o tempo passeava-se lentamente pela copa das árvores. Não era uma existência muita má para um rato mas este queria mais do mundo.

O que o rato do campo gostava mesmo, era de esperar pela noite para se deitar na erva. Macia. Fresquinha. Era Verão. E nas noites de Verão adorava contemplar as estrelas. Eram tantas!! E lindas. Não tão lindas como a Vera, essa rata parvalhona que o preteriu para o Carlos. Sim, Vera, eu sei. Se arrependimento matasse…

Se soubesses que ias dar o mote para o post de hoje, ias ficar horrorizada, Vera.

O rato ainda não conhecia o mundo muito bem. Nem as ratas. Sim, já tinha tido experiência com ratinhas mais novas (porque no campo o cheiro a feno torna os roedores bastante precoces no secso), mas nunca com uma rata com tudo no sitio. Quando a Vera apareceu, o nosso rato pensou que pudesse ter ali uma oportunidade de tornar a sua existência válida. Fez-lhe a corte. Deu-lhe queijo, deu-lhe bagas. Enfiou-se em duas ou três ratoeiras só para lhe provar como era destemido. Era a primeira vez que o nosso rato o fazia. Ela não lhe impedia os avanços. Percebia exactamente onde o rato queria ir, e alimentou o ego durante semanas com essa vontade. Puta.

Um dia o rato ganhou coragem e decidiu declarar-se à rata Vera. Queria namorar com ela. Que ele era rato educado e nesse tempo as coisas não avançavam para secso depois de um «dd tc?». Vera sorriu. E depois ficou séria. E depois disse ao nosso rato que só o queria como amigo, e que não conseguia vê-lo de outra forma. Tinham feito coisas juntos, tinham brincado bastante e que ele se tinha tornado no seu melhor amigo. E que tinha conhecido o Carlos. Bon vivant. Cigarro sempre na boca. Engatatão como poucos lá no campo. Daqueles ratos de quem até as ratas da cidade gostariam de ter ninhadas e ninhadas de ratinhos. Um fils de pute.

Não mata mas mói. Que se farta. Mas quando os ratos são novos recuperam depressa. É um facto que ratas é coisa que não falta. Mas aquela rata Vera foi a primeira a mexer com o nosso rato. É um clichê. Nos roedores também.

O rato mudou-se para a cidade e deixou de ouvir falar na rata Vera e no fils de pute do Carlos durante anos. Foi com satisfação muito pouco contida que, recentemente, numa conhecida rede social a Vera pediu amizade ao nosso rato. A mesma que, de mão beijada, lhe quis dar anos antes. Na verdade ter-lhe-ia dado o mundo. Na altura ainda não estávamos em crise.

A rata Vera é actualmente divorciada do Carlos. Trocou-a por uma rata melhor. Tem como foto de perfil, um ratinho/ratinha ao colo. E está gorda. Muito gorda. Eat shit. Fiz um enorme like mental e apaguei o pedido. Se o nosso rato é gajo para guardar rancores? É.

 

27 thoughts on “O Rato do Campo era um totó

    • Só é pena eu não estar a falar do Alberto João Jardim, ou do Duarte Lima, ou outros que tais. 🙂
      Não foi um final feliz. Para a Vera. Para mim foi. 🙂

  1. Os ratos são como os homens, perdem a cabeça por uma bela rata. Só que algumas não estão disponíveis. Como daquela vez que sonhei que pedia namoro à Scarlett Johansen. Também me disse que só me queria portuguesa. Disse-le eu que não, que para amigas preferia portuguesas É que assim não corria o risco de me perder na tradução.

    • O comentário saiu com uns lapsos. Eu repito:

      Os ratos são como os homens, perdem a cabeça por uma bela rata. Só que algumas não estão disponíveis. Como daquela vez que sonhei que pedia namoro à Scarlett Johansen. Também me disse que só me queria para amigo. Disse-lhe eu que não, que para amigas preferia portuguesas É que assim não corria o risco de me perder na tradução.

      • Se a Vera fosse a Scarlett Johansson, o nosso rato teria dado um enxerto de porrada no rato Carlos. 🙂

        Curiosamente com o Bill Murray aconteceu a mesma coisa. 🙂

    • Eu não queria vingança, Cláudia. Não depois de tantos anos. Estava mais do que sarada, a “ferida”. Mas aquele “pedido de amizade” fez um click.

      E depois foi o chorrilho que acima se pode ler. 🙂

  2. Está cientificamente comprovado que as ratas gostam é dos sacanas e dos cabrões. Devias ter ignorado e entalado a Vera numa ratoeira pejada de Napalm, em vez de lhe dar queijinho (aposto que do bom) e bagas (logo mirtilos e framboesas, seu totó).

  3. Estas coisas sabem tão bem. O meu rato foi o Sandro, gajo bom da turma da preparatória. Recusou-se a dançar comigo numa peça de teatro em que éramos Leonor Telles e Conde Andeiro. “Ah, e tal, ela é maior que eu”. Já nos teens quis levar-me a tomar ar atrás da Igreja, numa festa de Carnaval em que éramos Cruella de Vill e Mergulhador de Botija. Nem a visão no neoprene esticadinho nos peitorais do rapaz me convenceu. Se calhar era por estarmos sempre de fatiotas ridículas que a coisa não funcionava.

  4. Sigo este blog desde há umas semanas. Quer os posts quer os comentos são de um nível magnífico, possuidos por um humor, por vezes subtil, de fino recorte.
    Vou continuar por aqui.

    Era só.

    Saudinha da boa a todos.

    • Obrigado, Francisco.
      Começou por ser um espaço para guardar textos sobre viagens e trekking. Lembrei-me de repente de colocar aqui tudo aquilo que penso.
      É uma espécie de amuse bouche para quem me quiser ler. 🙂

  5. eu, aos 13 anos: óculos + aparelho nos dentes, a mais alta da turma (o que não era bom, na altura, digo eu pela forma como me chamavam “torre”)
    declaro-me ao Paulito que me diz, sem dó nem piedade:
    – Sabes quando vou gostar de ti?
    – Não? respondo, ainda esperançosa pela data
    – Quando as galinhas tiverem dentes! e abala a rir às gargalhadas deixando-me a chorar à entrada do liceu

    eu, aos 16 anos: gira, mesmo gira
    o Paulito declara-se a mim na discoteca e eu:
    – Ah, pois, não vai dar, ando com o sicrano. Mas, olha, Paulito, diz-me uma coisa, as galinhas já têm dentes? não resisti

    (just for the record: o sicrano tinha 21 anos, eu 16, o Paulito 18)

    e continuei a dançar

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