Oh brother where art thou

Sou canhoto. Assumido. Sai do armário por volta dos 3 anos quando, uma vez roubado o bâton da minha progenitora, me dediquei a gatafunhar o chão da sala. Curiosamente foi nessa mesma altura que comecei a ter a percepção de causa/efeito. Neste caso sob a forma de uma valente palmada no dèrriere.

A visibilidade desta característica, que me proporcionava alguma involuntária atenção na escola primária e secundária, algo entre um freak show e um -mostra lá como dobras a mão para escrever, oh freakzóide!!- ; atenuou-se na faculdade, quando, entre 62 desconhecidos, fui encontrar onze canhotos (pasme-se), um deles guitarrista ambidextro. Não é para todos.

Fiquei a saber então que éramos mais que poucos. Quase como aqui. Também tínhamos uma canhota, mas não como a Demi Moore. A nossa era feia. Teria sido mais gira a minha faculdade com a Demi. Adiante.

Procurei sempre informação sobre os canhotos e a sua origem. Em 2009 descobri isto. Assume o autor que a maior parte dos canhotos, são gémeos sobreviventes ao síndroma  Vanishing Twin.

Ora, isto tanto podia dar um filme de terror fraquito do M. Night Shyamalan (com um fraticídio canibal como história principal), como uma análise sentimental ao assunto. Eu preferi de longe a segunda abordagem.

Sinto tantas saudades tua mano. (Não confundir com o mano do -yo tasse bem). Teria sido tão bom crescer contigo, brincar contigo, dividir por dois a porrada que o nosso irmão mais velho me dava.

Irmos os dois roubar maçãs e teres ficado tu em cima da árvore, quando o Sr. Silva soltou o Rambo, enquanto eu fugia com os outros miúdos, só porque tive medo de saltar. Coninhas. Termos dividido uma das maiores sovas da minha vida, quando a mãe descobriu que tínhamos atravessado o rio (Douro) numa jangada com os outros miúdos. Tu podias ter sido o meu Huckleberry Finn, mano. Foda-se. Ao invés disso fui o Tom Sawyer e o Huck juntos. E tive que levar sozinho com o nosso irmão Joe, o Índio.

Mas eu perdoo-te, mano. A sério.

 

15 thoughts on “Oh brother where art thou

  1. pensa no potencial disso. se isso resultou numa quimera genética, ter dois dnas pode ser fantástico para uma carreira no mundo do crime ou contornar testes de paternidade. =)

  2. Ana, nunca tinha pensado nas coisas por esse prisma.
    Mas da maneira que as coisas estão, já estou a encarar seriamente a tua ideia como plano B.

  3. Agora fiquei com pena de não ser canhoto. Ou não. Ia-me dar um trabalho do caraças procurar acessórios para canhotos. Mas ao menos podia sentir que essa parábola se me encaixava na perfeição excepto na parte do irmão mais velho que nunca tive.

    • VdeAlmeida, cresci a habituar-me a manusear os artigos para destros.
      Se pego numa tesoura para canhotos sinto-me mal, nem sei o que fazer com ela. 🙂
      A parábola foi sentida. 🙂

  4. Eu só sou canhota a escrever, isso faz de mim o quê?

    (Uma grande mimada que teve sempre os paizinhos a cortarem-lhe a comida e nunca precisar de usar a mão esquerda 🙂 )

    Quer me parecer que a sova foi bem dada… Que grande maluco!

  5. Cláudia, faz de ti normal, que é o que somos. É provável que, como eu, te tenhas habituado a utilizar o mundo dos destros. 🙂

    Por mais que tivesse tentado explicar que a jangada era de qualidade e segura, não a convenci. Ainda hoje me fala disso. E depois, a malta é jovem, não pensa 🙂

  6. Deixa-te de coisas pá: em Timor tive uma aluno – o Júlio – que era canhoto.
    Nada de especial, dizes tu. Acontece que o Júlio tinha dois polegares. Isso mesmo: onde deveria haver apenas UMA cabeça de polegar canhoto, havia DUAS.
    Beat this, Shyamalan.

  7. Olha eu quando era mais nova quase que apanhava uma sova por ser canhota. A minha avó não achava lá muita piada e insistia que era feio, que não era bom nem correcto. Graças ao meu pai, a violência não passou a ser física. É também graças a ele que hoje sou canhota, e raios, com muito gosto! Só não dobro a mão para escrever, ao invés disso rodo a folha. 🙂

    • Ahh o rodar da folha. Às vezes também me dava para isso 🙂
      Bem-vinda Riuta.

      Os meus pais sempre tiveram o bom senso de não me contrariarem a escrita com a mão esquerda.

      Eu também tenho orgulho da minha canhotice 🙂

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