Profilaxia

Quando era pequenino não comia cereais. Nem fazia a miníma ideia que os Kelogg’s já andavam nas bocas do mundo quando eu ainda me passeava do direito para o esquerdo. Os cereais no meu pequeno almoço apareceram na mesma altura em que o Poborsky fez aquele chapéu ao Vitor Baía no Europeu de 1996. Mais ou menos por aí. Lembro-me de estar parado, colher na mão e boca aberta, a ver a repetição no dia seguinte. Até aí, mamã Troll não me deixava comer Nestum porque já não era nenhum bebé, e que tivesse juízo, e eram o pão com manteiga e o café com leite, que faziam as delícias de toda a gente lá em casa. Menos as minhas.

Não era tão mau como as sopas de cavalo cansado de alguns dos meus vizinhos. Quando andava na terceira classe, não sabia na altura porquê, mas lacrimejava sempre nas conversas de recreio com o Pedro. Sei agora, décadas mais tarde, que tal se devia ao seu hálito a vinho. Só podia. Tínhamos oito anos e já o fígado do Pedro era um adulto que tinha aberto a pestana para o álcool. Ele era folgazão e fazia rir, e onde todos achávamos que estava uma genuína alma que nos sorria, ninguém imaginava estar um pequeno alcoólatra em potência.

Do que eu gostava mesmo, era de ir dormir a casa da minha Avó Belmira. Para benefício futuro do meu fígado, a vovó Belmira não achava grande piada ás sopas de cavalo cansado e criticava quem o fazia. Abençoada. Como qualquer boa padeira que se preze, aproveitava toda a broa que saía do forno, que a malta era pobre e tudo se aproveitava. A que não saía para venda, era desfeita numa malga. Uma colher de sopa de açúcar servia para adoçar o caminho para o café que ali vinha. Enquanto Belmira se virava para tirar a chaleira da lareira, eu deitava às escondidas uma segunda colher de açúcar e ficava depois a ver o café a dissolver a broa e o açúcar. Era o meu menu infantil para as sopas de cavalo cansado.

E a modos que é isto. Lembrei-me da broa com café e açúcar hoje de manhã enquanto comia os mesmos cereais de sempre. Caraças, e como me apeteceu café com broa. E ao lembrar-me da broa lembrei-me da minha avó padeira e da sua luta inglória pelos fígados pueris.

32 thoughts on “Profilaxia

  1. acho que só aderi aos cereais por volta de 98. entre outras coisas que todos os putos ingeriam alarvemente e eu só descobri bem depois de ter barba na cara.

  2. Também fui bastante tardia, na minha iniciação aos cereais. O impressionante é o vício que se torna. Passa a ser a única opção pequeno-almoceira à face da terra. E não tem nada a ver com o facto de ser o mais fácil e rápido de se fazer. Ou seja, não tem absolutamente relação nenhuma com o síndrome “vontade de fazer nenhum” e a preguiça de cada um… ;p

    • Mam’zelle, mas o mais estúpido é que quando altero o sistema e como coisas diferentes, nas férias por exemplo, bebo suminho de laranja e frutinhas e tal, e penso sempre porque é que não como daquilo mais vezes… 🙂

    • As avós tinham um dom especial para contornar as proibições das mães. Pelo menos a minha tinha. Broa quentinha com manteiga era-me sempre passada para as mãos às escondidas. 🙂

  3. A broa só me faz lembrar a Olívia Wilde.
    Quanto às sopas de cavalo cansado, imagina só o quão leves elas eram em comparação com as “bonecas” que se usavam para adormecer os putos, e eram bocados de pano embebidos em águardente. Isso é que era de homem, Troll 🙂

    • Alexandra, fui agora ler o teu. 🙂
      Combinado não teria saído melhor. Parece uma campanha pela refeição mais importante do dia. -_-

  4. O meu paizinho não se safou das sopas de cavalo cansado, muitas histórias me conta ele de como se sentia algo agoniado nuns dias ao ir para as aulas, no entanto ele é o primeiro a dizer que na grande maioria dos dias as aulas até pareciam alegres depois desses requintado pequeno almoço!

    Eu gosto mesmo é de iogurte, banana e bolcha Maria 😀

    • As sopas de cavalo cansado provei-as por birra, já adulto. 🙂
      E aquilo de facto é de uma pujança do caraças. Um tipo até vai com vontade trabalhar. Aos ssss, mas vai. -_-

    • Seriously? Também tinhas uma avó Belmira? (Neste caso bivó). 🙂
      Um dia destes marcamos o encontro dos saudosistas das sopas de broa com café. 🙂

  5. Na minha terra o pequeno-almoço podia ser um de três; sopas de leite, torradas e leite com chocolate ou fatias fritas e caldo de farinha 33. Saudades…

      • 🙂 A Farinha 33 tem um leve sabor a chocolate e supostamente serve para fazer papa(assim como a velhinha Predilecta e Maizena) misturando leite quente e um nadinha de açúcar se necessário. Mas lá em casa(para que durasse mais(€€€) e porque até sabia melhor) a mamã fazia com água quente e uma colher de mokambo(delicia) ou então com leite extra para que ficasse liquido, ao estilo leite com chocolate. Eram as farinhas(alimentos) dos pobres(ainda existem), mas não havia pequenos-almoços melhores para mim. 😉

        • Quais pobres quais quê! Mokambo é muito,muito bom. 🙂
          Se eu tivesse broa e tempo, contava-te como seriam os meus pequenos-almoços. 🙂

  6. Uma tigela de café com sopas de pão ou broa… o que me foste lembrar… o meu divertimento e dos meus primos era pôr a colher de pé do meio daquele “entulho” todo!:)

    • Cristina, aquela mistura de sabores, sabia mesmo bem. 🙂
      Com os meus primos era mais a luta para ver quem não ficava com as côdeas. Toda a gente se mandava ao miolo. -_-

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