Return to Innocence

Inocente e invariavelmente achei que poderias ser a tal. Eu também achava que depois daquele título em 93/94, e do hat-trick do João Pinto no 6-3 em Alvalade, iamos ser eternamente campeões. Andava tão enganadinho. E o tempo encarregou-se de me dar razão. A idade da inocência passou rápido. As minha vizinhas encarregaram-se de me explicar tudo. Cheguei à Faculdade  sem canudo nesse campo mas com bastantes aulas práticas. Acabaram por se revelar extremamente úteis. E lá estavas tu. Não perdeste tempo. Pegaste no único estereótipo decente de homem que tomavas por ideal, (o gadelhas grandalhão), e fizeste a tua jogada. Parecias o João Pinto a jogar em Alvalade e eu não tive hipótese.

96 era então o ano. Como ainda trazia resquícios do Cristão que havia sido no passado, emulei Cristo, fiz do “tomai e comei todos” minhas palavras e comi. Comi com sofreguidão. Como um pedinte na Ceia de Natal, quando se depara com inesperado repasto. Só não fui um bom cristão porque não partilhei. Não gosto dessas merdas de relações abertas.

Das rendas ao rimel, tudo nela me surpreendia. A voluptuosidade fedia nela e eu inspirava profundamente cada fragrância daqueles aromas. Estava cego. E como cego que estava, ia tacteando nela para não me perder. O que se tornava uma contradição porque perdido nela já eu estava. E não via. Toda a gente via menos eu. Umas pernas bem torneadas e abertas atiram-nos mais areia para os olhos que o Sahara no meio de uma tempestade.

Tu eras mais gajo que muitos gajos que conheço, Mónica. Bebias mais Casal Garcia ao almoço que o Pinto, o bebedolas da faculdade. Conseguias usar mais foda-se e caralho do que eu como virgulas. E por Deus, tu conseguias assobiar com dois dedos na boca, uns quantos decibéis acima de mim. Eu podia ter perdoado isso tudo. Menos os arrotos. Arrotavas como um ogre, caraças.

Caía pois por terra, toda e qualquer hipótese de um futuro com uma cerca de negro pintado, de janelas com cortinas rendilhadas bordeaux, de um jardim de rosas com espinhos, e de um Doberman chamado Lúcifer a correr pelo quintal. Foi ao som de um arroto teu que a realidade bateu. Ou disso ou do hálito a vinho. Nada te ia salvar, Mónica. O teu futuro ia ser regado a doses massivas de Casal Garcia e ao som de sonoros arrotos, e eu, felizmente, já não ia estar por perto para ver.

27 thoughts on “Return to Innocence

    • Da última vez que ouvi falar dela, ia a caminho do 2º filho do 2º marido.
      Mas sempre que passo na zona da Batalha, estou sempre à espera de ouvir aquele arroto tão característico. 🙂

  1. O que é feito dela, sabes?
    “um futuro com uma cerca de negro pintado, de janelas com cortinas rendilhadas bordeaux, de um jardim de rosas com espinhos, e de um Doberman chamado Lúcifer a correr pelo quintal” é um sonho lindo!

    • Xuxi, era o que ela achava.
      Eu preferia um Pastor Alemão chamado Rex. 🙂
      Ainda não foi daquelas personagens que me tentou encontrar pelo fb. Se calhar depois de ver este post ganha novo alento.

      Se calhar estou a acumular haters…Cool!

      • Nop. Sou um eterno potencial criador de um.
        Mas tenho uma garrafa de Pêra Manca tinto de 2003, para abrir numa ocasião especial. Calhando quando criar um blog… 🙂

        • Ui. Não te tratas nada mal, não senhor.
          Isso é quase para coleccionador de Vinhos. Que pomada! 🙂

          Se, e quando o fizeres, lembra-te da malta. 🙂

          • Longe disso de coleccionador. Foi uma oportunidade, somente, e possivelmente única. O preço foi “relativamente” em conta. De resto sou um “olho de falcão” para a relação preço/qualidade. Há vinhaça muito boa, e muito em conta.

            Quanto ao blog….duvido que algum dia faça um. Sei lá. Já estive para fazer e desisti, prái uma duzia de vezes.
            Não sou perfeito, se é que isso já te passou pela ideia… 🙂

          • Eu também dou n vezes por mim a fazer de voyeur nas prateleiras de vinhos do Jumbo. Aproveito sempre as promoções. Já tive mais boas surpresas que más experiências.

            Dos blogs, nunca pensei estar a fazê-lo, mas enquanto me der gozo vou continuar. Tenho para ali uma catrefada de posts antigos que vieram de outra praia, e foi dai que começou esta brincadeira. De depósito de artigos de viagens a blog. 🙂

  2. Oh homem, tu só me lembras coisas tristes?
    Não podias falar da mocinha (ahah! como pudeste verificar, nem todas as mónicas são belluccis – ou terá sido essa que te inspirou para o tal sonho?) sem teres que vir com a porra dos 6-3? Olha que é feio carregar nas feridas ouviste? Olha se eu a propósito de uma ida ao cinema, invocasse o dia em que o SCP deu 7-1 ao Benfas, sob a batuta do Manuel José? Não ias gostar, pois não? 🙂

    • Vdealmeida, “…pernas bem torneadas e abertas atiram-nos mais areia para os olhos que o Sahara no meio de uma tempestade…”

      Aqui não me estava a queixar. E noutras passagens também não.
      Se esta Mónica fosse como a Màlena, ai podia ser uma alcoólatra até hoje que eu não me importava muito. 🙂

      Não vamos discutir por causa dos 7-1, pois não? Isso não é ferida, é pústula. 🙂

  3. Fui pelas viagens que dei aqui com o tasco. Tens coisas deliciosas nesse aspecto. Só para te deixar com água na boca, este fds subi ao Almanzor. 2592m. Incha! 🙂

    • Fuck. For real??? 🙂
      LIndo!!! Gredos é do melhor.
      Se subiste ao Almanzor deves ter achado de meninos o meu trekking por lá 🙂
      Quando for grande quero ser como tu. 🙂

      • Sim, podes ser como eu, mas menos parvo 🙂 12h a caminhar por pedra e neve, mete crampons, tira, crampons, mete gorro, tira gorro, sobe a bandarra, desce a bandarra, dasssss…foi complicado.
        Cruzámo-nos com o João Garcia (juro!) que depois de nos cumprimentar, desatou a correr montanha a cima onde nós tinhamos passado em passo lento e a toque de bastão 🙂 um duro, o cabresto!

        • Muito bom. Já sabia que Gredos é um local de eleição do João Garcia para treinar, mas passar por ele no seu habitat natural deve ter outro feeling. 🙂

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