E lavou sempre mais branco

Levantou-se bastante cedo. Como era e é seu costume. O gosto de acordar com as galinhas nunca me pareceu forçado, antes um gesto de autómato, um sentido de dever. Sentia-se bem assim e não de outra forma. Era um hábito adquirido de anos e anos, que fazia sem questionar. Tinha de ser feito, e se não o fizesse, não seria a vizinha a vir fazê-lo. Nunca concordei, mas também nunca lho disse, que respeitinho era e é coisa que nunca faltou naquela casa.

Eu ficava sempre mais umas horas na cama e, quando acordava, e olhava pela pequena janela da cozinha, já os lençóis alvos e os toalhões de um branco sem mácula, esvoaçavam uma e outra vez, pendurados que estavam por entre o limoeiro e a antena UHF. Adorava ver o Sol por entre todo aquele branco. Era uma vida simples e eu se calhar até era feliz e não sabia.

Tínhamos um tanque de lavar, daqueles à antiga. Ficava mesmo ao lado do quintal, e era um dos meus sítios preferidos. No Verão era a minha piscina quando ela se ausentava. Às escondidas, ali fui o Costeau, o Aquaman e o Namor juntos. O facto de morar ao lado do Douro não era sinónimo de piscina gigante. Que nem me atrevesse a ir sozinho para o rio. Eu ía, mas ela nunca soube.

Junto ao tanque de lavar roupa estava sempre o sabão azul e branco. Ainda hoje o seu aroma inconfundível está presente na minha memória olfactiva. A roupa cheirava sempre da mesma maneira e dava sempre por certo o seu bom cheiro. Hoje em dia não. É um tiro no escuro, a escolha de um detergente. Então os que prometem o aroma do sabão azul e branco de casa das nossas mães, esqueçam. Esses são dos piores.

O que acabou por me levar a falar hoje sobre sabões, foi esta notícia. O Tide, não sendo sabão azul, é também dos mais antigos detergentes de que me lembro. Ou os americanos andam ainda mais nostálgicos, ou andam a usar detergente como moeda de troca.

Por esta ordem de ideias, quantos gramas valerá uma barra de genuíno sabão azul?

 

19 thoughts on “E lavou sempre mais branco

  1. A minha avó lavava a roupa no tanque comunitário da aldeia. Nas férias ia sempre com ela “lavar” a roupa, e chegava sempre a casa toda encharcada. Crianças e água é uma atracção do caraças. 🙂

    Os americanos são estranhos. 🙂

    • Fiona, na minha aldeia também existia um tanques desses, mas não ficava assim tão próximo de casa que justificasse a ida, por isso era em casa mesmo. 🙂

      Os americanos são exqzitos. 🙂

    • as minhas ferias de verao tambem eram passadas assim, eu adorava ir com a minha avó ao tanque, era o maximo deixavamos a roupa ali estendida , e era o sitio em que se sabia as novidades todas da aldeia, ainda me lembre do cheiro a sabao daquele lugar.
      opaahh agora fiquei com saudades, agora, os avós morreram a casa foi vendida pelo meu pai, e nunca mais voltarei a linda aldeia da minha infencia.

  2. Tomar banho no tanque, também tenho essas memórias, aliás eu aprendi a nadar num tanque que tinha na quinta da minha avó, o teu post de hoje transportou-me para esses tempos!!

    • Gija, eu se calhar exagero um bocado nas viagens pela memory lane, mas elas é que fizeram de mim quem sou, por isso acaba por ser inevitável. 🙂

      Tanques cheios de água eram do melhor. 🙂

  3. Ai, as memórias, as memórias… Hoje, passados quase 20 anos ainda me lembro do cheiro da minha avó. E da sua voz. São recordações que não se esquecem, fazem parte da massa da qual somos feitos.

    Eu já tinha visto a notícia. Como diria a minha avó: tá tudo dôdo.
    (Qualquer dia é vê-los a traficar papel de alumínio e colheres de chá)

    • S*, sabes que a medica da minha mae disse-lhe para passar a usar sabao azul ou de glicerina para a higiene, e esquecer os perfumados, pois o perfume miutas vezes implica mais produtos quimicos .
      O sabao azul era e ainda é usado para lavar a roupa à mao, e é uma barra grande que algumas pessoas vao cortando aos poucos consoante necessitam. Ainda se encontra à venda.

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