Com um afinco assustador, encontro-me neste preciso momento a fazer as contas para os pagamentos do mês. Primeiro pago ao Piotr, o agiota russo que mora no fundo da rua, na esquina daquele café novo todo pipi com tons fuschia. Os juros de 23% que ele cobra conseguem ser atractivos. No fundo são empréstimos impossíveis de igualar ali no mercado paralelo do nosso pequeno bairro de proletariado. Contando que se consiga sempre pagar no fim do mês. A Dona Hermínia falhou no mês passado e o Piotr atropelou-lhe o Rex. No fundo o bairro agradeceu. O Rex fartava-se de morder nos miúdos e estava sempre a tentar acasalar nas pernas alheias. Mas a Dona Hermínia ficou inconsolável e aprendeu a lição. E pagou com juros e tudo.
Fiz uma pequena pausa para ir mondar ali o cebolo. Tenho um plano que creio ser infalível. Depois de juntar sacos de cebolas, vou vendê-las na rua. Toda a gente usa cebolas para cozinhar e se forem como eu, só reparam que se acabaram as cebolas quando forem à despensa e não houver nenhuma. Vou repor os stocks nacionais de cebolas das despensas portuguesas. Mas divago, desculpem. Baby steps, baby steps. Primeiro a rua, depois o bairro, de seguida o mundo. Existem sempre riscos, claro está. Na Rússia de Trótsky e Kamenev, os espiões alemães usavam muitas vezes o disfarce de vendedores de cebolas para circularem livremente por Petrogrado. A maior parte era catada pelo Exército Vermelho e fuzilada. Aqui na rua ainda não existe Exército Vermelho, mas andam uns tipos a fiscalizar se os vendedores de rua passam ou não factura. Mas é um risco calculado, e pela minha sobrevivência tenho de arriscar.
Depois vou tentar juntar todos os cêntimos para tentar pagar aos guardas da prisão infantil. A Irina Ivalova olha-me sempre de soslaio quando lhe entrego todas as moedas. Dá um chuto na mini presidiária Nº77 e encaminha-a para a cela Nº3. Volta o olhar para mim, aproxima-se, sussurra-me, e no seu hálito reconheço de imediato as minhas cebolas: “tovarich troll, estamos novamente sozinhos e se quiser que a sua mini presidiária continue a ter aquela carinha angelical, é bom que me apague este fogo outra e outra vez”. Eu,contrariado mas resignado à minha triste fortuna, apago. E apago. E apago. É praticamente impossível afirmar com certeza o que se passa naqueles momentos. Sinto-me sempre violado, mas a cabra da Irina lá fica, sentada em cima do seu enorme cu, placidamente a fumar Gauloises.
Tento sempre que me sobrem algumas moedas para comer. Não posso estar constantemente a comer cebolas. Começo a a pensar que a quantidade de cebolas que ando a comer, estará intrinsecamente ligada à falta de fazer o amor. “- E a Irina” ? Dirá o atento leitor. Bem, aquilo é sexo. Do mau. Por isso não conta e tenho vergonha que alguém no bairro descubra e me delate à Comissão dos Bons Valores e Costumes Do Glorioso Povo, um soviete especial criado pelo marido da Irina. A ironia, meu Deus, a ironia. Batatas. Tenho de começar a pensar em plantar batatas. Também faltam sempre na despensa, e a existirem, estão sempre greladas.

Uau, gosto muito quando começas a tresvariar. A quanto vendes o kilo? Acho que já só tenho meia cebola grelada na despensa.
Alexandra, não posso ser garganeiro. A ideia será vender barato para ganhar rapidamente uma legião de malta que não consiga viver sem as minhas cebolas. Tenho de fazer um estudo de mercado.
Eu não tresvario. Devo é estar a tornar-me num bolchevique.
Isso soa-me a gulag. Estamos a caminhar para isso ao que tudo indica.
Ps- Fiquei com a imagem da irina a fumar Gauloises.
Muito bom, camarada.
Tovarich Filipa, por favor não me faça pensar novamente nessa senhora.
Pá, dedica-te aos alhos. A sério, há uma máfia internacional a traficar alhos, diz que é um negócio de milhões, true story!
MisS, links? Isto requer uma análise profunda ao estado do alho. Vou indagar.
http://www.bbc.co.uk/news/magazine-20976887
Toma lá e quando fores um barão do tráfico de alho, não te esqueças desta tua amiga…
Oh, as potencialidades disto!! Vou investigar.
Não serás esquecida camarada MisS.
Isto é que vai para aqui um refogado…