Viagens na minha terra

Esqueçam o Almeida Garrett. Aqui não vou falar de nenhum Carlos, não existe nenhum Frei Dinis, e ainda que pudesse falar de uma certa Joaninha, não o farei, que esta é agora muito bem casada, e pode muito bem vir aqui ler-me um dia destes. Estas minhas viagens, foram na verdade apenas uma. De armas e bagagens parti para as distantes terras do Norte. Chovia, como sempre chove quando me decido a ir para as terras altas. Na verdade não era bem chuva. Foi provavelmente um dos maiores sustos da minha vida. Aquele granizo era demoníaco e parecia querer-me engolir. Nunca antes tive tanto medo que me engolissem o que quer que seja. Branco, branco, branco para onde quer que olhasse e um som ensurdecedor. E de repente, acabou. Foi uma rapidinha da Natureza e também me deixou sem fôlego. Saí da berma e fiz-me à estrada.

A migração de lisboetas para terras do Norte, é uma coisa que me ultrapassa. São aos magotes a parar em tudo o que é estação de serviço. Obrigam-me a fazer fila para, já com ele na mão, aliviar a dorida bexiga. Sim, leram bem, gajos a fazerem fila. Onde é que o mundo vai parar. Fico a pensar se Lisboa não ficará deserta na Páscoa.

Novamente na estrada, as coisas são como são. Os A6, os X6, e os Q7 são mais que muitos num País em crise, e agora estupidamente endividado, e ultrapassam-me a duzentos quilómetros/hora. A polícia anda à paisana, e um dos A6, parado que estava uns quilómetros à frente e a ser multado, tinha por companhia um Polo com cadeira de bebé. Fica pois a indicação. Eles andam aí, e trazem cadeiras de bebé. Ou era realmente a policia, ou the ultimate prank.

Usei uma das novas autoestradas da moda para encurtar caminho, uma daquelas que aparecem nos segmentos dos telejornais, quando não existe mais nada para falar. E confirmo. Aquilo parece a route 66. Raramente nos cruzamos com quem quer que seja. Não é um bom sítio para jogar ao jogo das cores dos carros, e depressa uma pessoa se aborrece com a ausência de carros cinzentos. Devia ter escolhido branco e já teria dois.

A minha terra continua lá. As pessoas são as mesmas, o meu vizinho tem patos novos. O filho continua a tocar acordeão como se não houvesse amanhã. Fosse isso sinónimo de qualidade. Acreditem quando vos digo que não é. A gata siamesa da minha vizinha voltou a querer subir-me para cima e fincou as unhas na minha coxa. Outra vez. Pensei que já lhe tivesse passado. Cabra. Ou melhor, gata. Independentemente da espécie, elas fazem-me sempre isto. E acabam sempre por me magoar.

Antes de regressar, dei um xoxo nos pés do mesmo Cristo que toda a vizinhança havia beijado minutos antes, e levei com água benta no olho esquerdo. Aleluia, Aleluia. Mamã troll continua a cozinhar bem, mas o excesso de carne de vaca também traz de regresso a flatulência digna do troll que sou. Who gives a fuck?? Que saudades de comer uma boa vaca sem pensar nas consequências.

34 thoughts on “Viagens na minha terra

  1. Troll eu não dou beijinho no pé do Cristo, só encosto a cara para fazer de conta. Já o fulano da água benta acerta sempre nos olhos…

  2. eu lá tenho que encostar o nariz à cruz, sob pena do olhar reprovador dos progenitores. mas não mais, que um gajo sabe lá das patitas…
    vá lá que desta vez convenci o pessoal a não fazer cabrito e a encomendar leitão para satisfazer os desejos à emigra 😉

    • Eishh…que herege. dizer que o outro tem patitas. 🙂

      Podes ficar com o Leitão todo. Por aqui, só o cheiro enoja…Ah e tal, a pele bem tostadinha…nojo…nojo. 🙂

  3. Olha que não. Eu fui uma das resistentes. Apesar de ter família no Norte, também tenho cá, e a opção foi ficar por cá. E ainda éramos alguns. 🙂

    Já não pensava no jogo das cores dos carros à algum tempo. 🙂

  4. Um Polo para ter estaleca para um A6 é porque está modificado. Essa malta da Polícia por certo que não vai às inspecções pois se lá fosse os carros eram chumbados. Palhaços. 🙂

    Agora eu acho que aquela parte do texto aquela parte em que diz “gata siamesa da”, está definitivamente a mais… 😉

    • Francisco, não sei como é que eles trabalham. Às vezes é em equipa, e o carro que vem atrás é ainda mais descaracterizado. Mas que gosto de ver esses aceleras a levarem na boca, lá isso gosto.

      A gata é lixada.

  5. Desde que os meus avós morreram , deixei de ir ao Norte, e confesso que tenho saudades do Cristo Ressuscitou, Aleluia Aleluia. Eu e um primo eramos daqueles que corriamos ás casas todas para beijarmos a cruz muitas vezes e comermos os petiscos das mesas muitas vezes. Achava o maximo.
    Fiquei por Lisboa, que a unica tradição que tem é o pingo doce estar aberto.

  6. ainda bem que sobreviveste, ja estava em panico…puseste purell na cruz? ainda bem que nao tenho terra, alias esta é a minha terra, as americas lol
    mas comi cabrito e tu nao….(na me digas que na gostas)

    • Xuxi, darling, aquilo já só lá ia com ácido. Ainda tremo só de pensar em algumas das bocas que ali andaram a lambuzar. 🙂

      Mas tu é que tens razão. Dás à expressão “home is where the heart is”, uma real expressão. 🙂

      Eu não digo então. Ainda se fosse uma cabrita. -_-

      • Quando queiras meu lindo troll podes sempre vir de visita pela pascoa, que aqui ha sempre cabritos e cabritas ( ha de tudo para todos os gostos…) e nao tens de beijar a cruz…

  7. Esse beija-cruz… era apanharem todos uma gripe daquelas que lhes passava logo os fervores pascais. Também aturo isso, não suporto, mas não posso recusar-me porque não estou em minha casa e não vale a pena tentar explicar-me. Deus nosso senhor gosta muito mais que eu seja cínica. Já eu gosto é de amêndoas tipo francês.

    • Como eu te percebo, Alexandra…mas confesso que já ando farto do “when in rome”.

      O que me chateia mesmo, é o facto de andarmos a celebrar a ressurreição, e dão-nos a beijar uns pés pregados na cruz. Não deveriam ser uns pés sem chagas? 🙂 Pormenores.

      Diz que Deus nosso senhor gosta de toda a gente. Até dos cínicos.

  8. Na minha terra cada familia pode usar o seu próprio Cristo, ao menos isso…. e dão uns papelinhos para acompanharmos a oração… sim porque todos tem que participar no ritual. A comida é mais animais bebés: cabrito/borrego/leitão, que eu não sou fã, mas também não invejo a tua boa vaca. Mas amendoas tipo francês, folares, pão de ló e ovos de chocolate dos sobrinhos marchou tudinho…

  9. Olhem senhores, eu nem leitao nem cabrito nem Arroz de Sarrabulho nem chanfana nem cozido á portuguesa, por mim podem ficar com isso tudo. Lambuzem-se .

  10. Páscoa, cozido à portuguesa foreva! e pão doce. O resto dispensa-se, beijo na cruz incluído – seja nos pés, nas mãos ou até na tanga.

    (quais cabritos, quais leitões!)

    • Maya, qualquer doce pascal, desde que tenha erva doce, marcha. 🙂
      O beijo é por respeito. Não a Deus, mas à mamã troll. 🙂 É uma batalha perdida. 🙂

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