Wait until dawn

Podia ter sido numa qualquer outra noite. Naquela não. Principalmente não naquela noite para a qual nos tínhamos preparado durante semanas. Até o Carlos que se baldava constantemente, para ir para o Sameiro pinar com a maluca da Ana, passou a aparecer com frequência. Íamos finalmente sair do anonimato da Carranca (local carinhosamente baptizado pela coisa mais próxima que tivemos de uma groupie). 

Estava a ser um Inverno rigoroso. O pior da década segundo se dizia. Podia ter sido de preferência um, em que não fossemos obrigados a ficar na rua com o dilúvio que se nos abatia nos cocorutos. Já tinha os pés encharcados e as calças iam pelo mesmo caminho. E não me façam começar a falar dos tomates húmidos. Confesso que já na altura tinha alguma dificuldade em raciocinar de tomates húmidos e frios.

Façam comigo um daqueles “uns dias antes” como nos filmes.

O Pedro tinha conseguido um concerto em S. Pedro da Cova. Nunca nos ocorreu perguntar-lhe como tinha conseguido, e nem o facto de ser o nosso fornecedor habitual de ganza levantou suspeitas. A vontade era tanta que se nos tivessem oferecido um concerto no Complexo do Alemão, nos teríamos mandado para lá sem pestanejar. Se fosse nos dias de hoje ainda nos tinhamos cruzado por lá com este. Éramos ninguém e estávamos prestes a conquistar o mundo com a nossa música. Sim, vivíamos no nosso pequeno mundinho, e toda a malta que aparecia na carranca para fumar ganza de borla nos dizia que tocávamos para cara…muito.

O Zé achava tudo aquilo muito bonito, mas queria saber quanto é que haveríamos de receber, para ajudar a que o Pai não o chateasse mais com os quinhentos euros que a Bateria tinha custado. Em segunda mão. Uma Tama usada, com pratos da Zildjian que faziam a inveja do maralhal lá da terra. O Zé propriamente não tocava a ponta de um corno, mas como já tinha sido o Pai dele a pagar o PA, quem éramos nós para questionar a sua insistência em sair do tempo na Lithium.

Até o Carlos começou a aparecer na Carranca. Inicialmente porque a Ana estava com lumes de cona, depois porque começou a apanhar o ritmo de baixo da Inside. Se calhar estava a pensar na Ana ao tocar esta malha. Pobre coitado. Mas também não seria eu a contar-lhe que a Ana já tinha rodado quase todos os mancebos da terra. Deixá-lo iludido. O poder da patareca é supremo.

O concerto estava marcado para as 22:00. Íamos abrir para os “The Other Side”. Era um nome estúpido porque moravam ao pé de nós e não do outro lado do Douro, nem na Austrália. E depois porque era difícil imaginá-los como badasses com aquele nome, toda a gente sabia que o Vítor, o vocalista, tinha mijado na cama até aos 7 anos e foi sempre gozado na escola. As coisas que se sabiam nas aldeias pequenas.

A Ford Transit do Tio do Zé estava lotada com o material. Metade nossa, metade rolos e rolos de fio eléctrico, que o Tio do Zé era electricista por conta própria. Íamos a caminho não de Idaho mas de S. Pedro da Cova. «Vamos pela D.Miguel que corta caminho», disse o Pedro. Eu absorto que estava com a tentativa de decorar a letra da Tomorrow, nem reparei no que aconteceu. Numa curva apertada, um buraco escondido pela água furou-nos um pneu. A condução calma do Carlos, que agora era um gajo comprometido, fez-nos parar sem sobressalto. Esse veio depois, quando nos apercebemos que não havia pneu suplente.

Façam agora um “de volta ao inicío” como nos filmes.

No meio do atribuir de culpas, e do constatar que nunca iríamos conseguir chegar a tempo do concerto, o Pedro enrolou o do costume, e sentou-se no lugar do pendura. Os berlaites começaram a cair na napa do banco, e toda a gente foi entrando resignada e a encolher ombros na carrinha para a habitual roda. O primeiro deu lugar ao segundo, e já ninguém se lembrava se o terceiro seria na verdade o quarto. A boa disposição imperava. Os amigos juntos. Já refeitos da oportunidade perdida. Haveriam outras. Seria este o quinto? Todos riam a bandeiras despregadas, o Carlos parecia já ter esquecido a patareca da Ana, e continuava a chover torrencialmente lá fora. Good times.

 

 

38 thoughts on “Wait until dawn

  1. “Uma Tama usada, com pratos da Zildjian” – …epá, Troll, man, acabaste de me fazer rolar uma lágrima focinho abaixo. Poderia ter sido focinho acima, conseguisse eu fazer o pino. Mas nunca o consegui uma vida inteira, confesso.

    Eu também tocava numa Tama usada. Os pratos também eram Zildjian, pelo menos aqueles onde ainda se consegui ler o nome.
    O Beto d’Almada era o dono de quase todo o material, tirando a guitarra do Luis e uns teclados manhosos do Belmiro. O pai do Beto tinha guito. Dizia-se que fazia contrabando de material eléctrico. Há sempre quem diga coisas, nem que seja só porque sim.
    A carrinha era o famoso “pão de forma” da VW. Uma vez, num regresso de um concerto em Mortágua, numa curva mais apertada, a cabrona foge brutalmente de traseira. Os outros 3 sentados nos 3 bancos que existiam, nem chiaram muito. Eu, alojado na parte da carga, fiquei de patas pró ar entalado entre o bombo e o prato de choque 🙂

    Ah, bons tempos, sim. Tocávamos umas merdas. Quase tudo originais, cantados (ok, mais ou menos, vá) em Português. Ainda fizemos umas primeiras partes dos UHF no Algarve e em Benfica do Ribatejo. Recordações bem fixes com que fiquei.
    O Beto não dirá o mesmo. O Belmiro papou-lhe a irmã, fez-lhe um filho, casou com ela e, em nome de projectos lunáticos, rebentou-lhe com o guito do pai 🙂

    • Obrigado, Filipa. 🙂

      Eu gostava de ter tido groupies a sério. Fiquei-me por amostras fraquitas, e nos concertos havia drugs and alcohol, mas faltava sempre o sexo. Isso é mito, ou então verdade a partir de uns milhares de discos vendidos. 🙂

    • Alexandra,
      Na fase do Frogstomp e do Freakshow era uma das bandas de eleição pós Nirvana. 🙂
      Actualmente não ouço, mas o Daniel Johns anda por ai a fazer coisas interessantes.

  2. Ora porra, hoje sinto-me inferiorizado. Sempre gostei de música, mas a única coisa que sempre toquei foram campainhas de portas e outra coisa não publicitável. O que faz com que não tivesse destas aventuras para relatar. Mais uma lacuna grave, na minha pobre vida….

  3. “No meio do atribuir de culpas, e do constatar que nunca iríamos conseguir chegar a tempo do concerto, o Pedro enrolou o do costume,” fez-me lembrar, entre outras, daquela vez em que eu e o meu melhor amigo chegámos a Amesterdão no interrail às 08.00 da manhã, tentámos durante duas horas sem sucesso arranjar alojamento, e como não conseguimos começámos a fumar das 10.00 às 16.00 e só depois, a muito custo, conseguimos sair da coffee shop e voltar à procura de uma hostel. True story.

    • Ahahah, Garcia, ouvi dizer que essas substâncias costumam provocar esses hiatos rip van winkle. 🙂

      Conheço malta que perdeu voos para sair de Amesterdão. 🙂

  4. Pingback: Esparguete Azul | alexandra, a grande

  5. Já que está tudo numa de bandas…

    Prezado na escola, só artistas, o grupo que andava sempre junto também arranjou um dia um nome, fez-se uma banda de hardcore e foi-se ensaiar. Como era e sou um descoordenado de primeira, coube-me o baixo, instrumento genial que dá para tocar só com uma corda. E mesmo assim falhava. Finou-se aí a minha carreira musical.
    Passados 15 anos, canto no chuveiro com bastante sucesso.

  6. adorei esta historia, , para alem de descobrir novas terminologias (algumas ainda preciso de traduçao para os proximos capitulos), lembrou-me a minha adolescencia (como todos as tuas historias , na verdade).

    Eu nunca fiz parte de uma banda, mas aqui em almada havia sempre alguem que conhecia alguem que era amigo de alguem que tinha um quarto forrado a cortiça para os ensaios. Aqui qualquer marmelo como uma guitarra tinha uma banda, e lembro-me de ir a assistir a ensaios de colegas de turma, era brilhante, ainda tenho uma cassete (sim cassete) de um “album” de um amigo. Pensando bem dos varios colegas amantes de musica desses tempos só dois conseguiram seguir essa area, ainda sem muito sucesso, mas seguiram. Os outros todos tornaram-se agentes de seguros e similares com mulher e amante e 1,5 filhos caminhando a alta velocidade para uma bela de uma crise de meia idade.

    ps: a respeito do sexo drogas e rock, li um artigo sobre aquele pessoal que faz a organizaçao dos festivais e tem que organizar os camarotes e satisfazer os pedidos das estrelas, um dos comentarios que faziam era que agora nos bastidores das grandes bandas ha grandes diferenças do que se passava nos anos 80, inclusive bandas que estavam na berra nessa altura. Agora os artistas sao quase todos vegetarianos, exigem todas as toalhas de algodao organico da cidade e só agua engarrafada dos himalaias,e o sexo …esse só mesmo em meditação.

    abraços

    • freeculturelisbon, o nosso era forrado a caixas de ovos. 🙂 Era mais barato e a insonorização era razoável.
      Ainda me lembro de andarmos a bater à porta de tudo o que era Padaria da zona a pedir caixas de ovos.

      Nós, nos concertos, se tivéssemos um espaço onde pousar as coisas sem que nos roubassem, já ficávamos contentes. 🙂 E ainda assim nos palmaram um microfone e os cabos todos uma vez. 🙂

  7. Pingback: Steeella!!! | trollofthenorth

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